quinta-feira, 2 de abril de 2009

Reconciliação como paradigma de superação da crise


Panorama exegético da perícope: Mt 5.21-26

Do homicídio [em outras traduções: Ensino a respeito da ira]

21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. 22 Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. 23 Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta. 25 Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz, ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão. 26 Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo[1].

A perícope é estruturada em forma de quiasmo, de maneira tal que, o que está no centro é o mais importante a ser apreendido enquanto mensagem de fé. Sendo assim os versículos ‘23’ e ‘24’ devem receber maior atenção. Eles representam a idéia essencial, a intenção do autor. Exatamente nessa parte do texto, aparece a palavra “altar para sacrifício” (thusiasterion), O termo é mencionado como sendo o local onde se deveria depositar a oferta, mas somente após estar reconciliado com o irmão. Um dado a ser considerado, para melhor interpretação, é que em Marcos, período da guerra judaica (10ª legião romana sitiando Jerusalém) o templo é destruído, ou seja, em Mateus já não existe mais templo, muito menos um altar para atividade de sacrifícios.

A tese é de que o autor usa então subterfúgios retóricos para dizer que não existe mais o templo, e que não haverá mais sacrifícios enquanto meio de expiação dos pecados. Em suma: As ofertas por remissão de pecados não devem ser mais sacrificiais. Em contrapartida, a misericórdia te livra do Geena (Inferno de Fogo). Geena designa o Vale do Hinom, ao sul de Jerusalém, onde os lixos e os animais mortos da cidade eram jogados e queimados.

A idéia é que devemos fazer amigos, buscarmos a qualquer custo o perdão com o nosso irmão, caso contrário viveremos nesse vale do Hinom, vale tenebroso. Complementa a idéia de que se não buscamos emergencialmente a reconciliação, “estamos sujeitos” (enocho - que significa também que “seremos constrangidos”) à Krisis = (separação, divisão, repartição) = à crise.

Concluindo



Sacrificar já não é possível, mas os pecados precisam ser perdoados, então para isso, devemos buscar a reconciliação. É uma proposta alternativa para expiação do pecado pós destruição do templo. Assim não seremos constrangidos à crise existencial da falta de Deus, ao vazio tenebroso representado metaforicamente pelo autor que cita, para isso, o vale do Hinom.

Deixar a oferta sobre o altar é secundário, nem é possível em Mateus, o que vem em primeiro lugar é a necessidade que temos de que os nossos vazios sejam preenchidos pela expiação do pecado mediante o poder de Jesus que nos ordena a reconciliação. Buscar a reconciliação com nosso próximo, buscar o perdão, é o método terapêutico pelo qual Jesus trata todas as nossas crises
O que você acha sobre isso? Interaja com essa postagem, deixe sua contribuição.
Abraço.

[1]Sociedade Bíblica do Brasil. (2003; 2 005). Almeida Revista e Atualizada - Com Números de Strong (Mt 5:26). Sociedade Bíblica do Brasil.

segunda-feira, 30 de março de 2009

GloBA[BE]Lização


A torre de Babel (Gênesis 11):

1 Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. 2 Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. 3 E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. 4 Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. 5 Então, desceu o Senhor para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; 6 e o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. 7 Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. 8 Destarte, o Senhor os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade. 9 Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra e dali o Senhor os dispersou por toda a superfície dela[1].

Sobre o episódio narrado acima no texto bíblico, da Torre de Babel, traço um paralelo para fins hermenêuticos, com as novas marcas deixadas na sociedade pelo processo chamado globalização, cuja essência é “o apagamento das fronteiras”. E não só isso, vejo a jactância humana que surge engendrada pela sensação de conseguirmos dominar o mundo com as novas tecnologias digitais. De chegarmos mais rápido em todos os lugares, de sabermos de tudo, sorrimos quando nossas crianças, conversam, debatem, e se comportam como adultas: “É bonitinho!”.

Somos narcisistas, adeptos do panotismo – em breve vou publicar algo sobre o famoso programa financiado pela Rede Globo de TV: o “Big Brother”. E achamos tudo muito “evoluído”, de última geração. Isso pode ser um avanço, e/ou uma bênção. Mas deixo a pergunta, avaliando nossos atuais processos sociais, se isso não é um tanto quanto diabólico. Fico pensando, conforme a pergunta deixada pelo texto bíblico, qual será a próxima investida, o próximo passo? Vamos subir até Deus? Será que, ainda que de forma velada, já não nos sentimos quase lá?

Penso que Deus vai intervir mais uma vez na história, e de certa forma já o faz, nos confundindo as alianças, abalando os alicerces, nossas convicções, nossas torres, dividindo nossas línguas (...).

[1]Sociedade Bíblica do Brasil. (2003; 2005). Almeida Revista e Atualizada - Com Números de Strong (Gn 11:9). Sociedade Bíblica do Brasil.

Não somos semi-deuses, mas errantes caminhantes

Se não reconhecermos que temos, e conhecermos a fundo, cada uma de nossas próprias ambguidades, vegetamos intelectualmente. Porque não somos semi-deuses, mas às vezes nos achamos tanto quanto, e vamos vivendo, nos empurrando rumo a eternidade. Quanta ignorância dos que se acham sabidos, dos que se acham sabidos mas nunca pararam para observar como nossas teorias são transitórias porque contextuais - circunstanciais. E andam por aí esses/as que vegetam, crendo no absloluto de suas verdades, desprezam o fato de que não somos semi-deuses, somos ambíguos, somos transitórios - somos seres humanos. Nos movemos e crescemos quando nos consideramos assim, humanos, errantes caminhantes ...

quinta-feira, 26 de março de 2009

ENCONTROS & DESENCONTROS

Diariamente somos surpreendidos com inúmeros encontros. Alguns são fortuitos, efêmeros e passageiros. Estes são logo esquecidos, pois nada têm a nos acrescentar. Todavia, há aqueles que deixam marcas indeléveis na alma e podem afetar de maneira permanente a nossa existência.
Esta é a geração dos encontros parciais e da satisfação momentânea: não é a pessoa inteira que é buscada, gosta-se de um aspecto, de um “pedaço” dela. Não é sem motivo que se enfastia tão rapidamente do outro.

De igual modo muitos passaram por Cristo, tocaram-no, ouviram-no, mas poucos de fato O encontraram. Creio que foi Agostinho quem disse: “Procurei a Deus e não o encontrei, busquei o meu irmão e nós três nos encontramos”. Não é interessante que Jesus ensina aos que desejam a Sua presença, para que reunam “dois ou três” para invocar o Seu nome, e ali Ele estará? (Mt 18.20).

Espiritualidade solitária é a maior falácia que o Diabo colocou na vida do cristão. Diz ele: “separe-se para buscar a Deus”, ou então: “estes irmãos são inadequados para você”.

Não é incomum encontrar pessoas ou grupos cristãos que se tornaram herméticos. Fechar-se é uma maneira de exprimir o medo, pois para haver encontro é preciso abrir, estar pronto a receber, a dar, a ser “modificável”, a influenciar e ser influenciado. Os outros são espelhos em quem refletimos. Deus os colocou em nossas vidas para nos ajudar a entender “quem” somos e “como” somos.

Gostemos ou não a vida, também traz os seus desencontros, pois não somos um rio tranqüilo a correr em seu leito, mas o resultado de forças interiores em constante conflito e atualização. Os que buscam o crescimento deveriam portar um aviso: “Tenham paciência comigo: estou em reforma”.

Na verdade, o desencontro sinaliza que havia um desequilíbrio latente, que não foi observado ou cuidado. Trata-se de uma oportunidade para reorganizar o interior. É por isso que todo re-encontro precisa ser em novas bases, para não incorrer nos mesmos erros do passado.

A Palavra está repleta de encontros e desencontros. Desde cedo ficou clara as incompatibilidades entre Esaú e Jacó, ao ponto de Esaú ter prometido matar o irmão “embrulhão”, que precisou fugir. Entretanto, é um momento muito sublime o reencontro entre eles, quando tudo apontava para um desfecho trágico. Ao avistar Jacó ao longe, ao invés de matá-lo, “Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou: arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou; e choraram” (Gn 33.4).

O casamento de Davi com Mical, por exemplo, foi um constante desencontro – embora privassem do mesmo leito – o que indica que a intimidade física pode ser um dos componentes de um encontro autêntico, mas sozinha não o sustenta (havia claramente um “desencontro” espiritual entre eles).

A fé e a submissão a Cristo que Paulo e Pedro possuíam não foi suficiente para impedir os desencontros na vida dos apóstolos mais importantes do início da Igreja. Embora depois tivessem se apartado, tudo indica que se acertaram, por serem homens movidos pelo Espírito e não pelo ressentimento.

Talvez o desencontro mais exemplar que encontramos no Novo Testamento seja entre Paulo e o jovem João Marcos. Numa viagem missionária este abandonara a missão pela metade, comprometendo o trabalho. Tempos depois Paulo prepara uma segunda viagem. Barnabé chama João Marcos para ir, mas Paulo diz: “não vai não” (At 15.38). Houve, então, uma “tal desavença que vieram a separar-se” (At 15.39). E Paulo parte levando Silas consigo.

Muitos podem imaginar que o posicionamento do apóstolo pudesse levar a um desencontro por toda a vida. Onde encontraremos menção daquele jovem novamente? Cerca de vinte anos depois, ao lado de Paulo, quando, prisioneiro e abandonado por todos, pede para Timóteo lhe trazer João Marcos, “porque me é muito útil para o ministério” (2Tm 4.11). Nenhum desencontro precisa ficar exposto por toda a vida.

A fé em Cristo nos leva ao encontro, entre os diferentes e não apenas entre os iguais, pois em Cristo já não faz mais sentido haver separação entre gregos e judeus, homem e mulher, escravo ou livre, ou qualquer outra forma de distinção.

Mas uma advertência se faz necessária: um encontro genuíno só pode ocorrer entre corações abertos e transparentes como demonstrou o rei Jeú para Jonadabe: “Tens tu sincero o coração para comigo, como o meu o é para contigo? Respondeu Jonadabe: Tenho. Então, se tens, dá-me a mão. Jonadabe deu-lhe a mão; e Jeú fê-lo subir consigo ao carro” (2Rs 10.15).

Possuis o coração sincero e mansidão no olhar? Então venha, e caminhemos juntos.... há muito por fazer.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 23 de março de 2009

O filão religioso


Por Ricardo Gondim.


As Casas Bahia disputam o mesmo mercado que a Magazine Luiza. As duas lojas se engalfinham para abocanhar o filão dos eletrodomésticos, guarda-roupas de madeira aglomerada e camas de esponja fina. Buscam conquistar assalariados, serralheiros, aposentados e garis. Em seus comercias, o preço da geladeira aparece em caracteres pequenos, enquanto o valor da prestação explode gigante na tela da televisão. A patuléia calcula. Não importa o número de meses, se couber no orçamento, uma das duas, Bahia ou Luiza, fecha o negócio - o juro embutido deve ser um dos maiores do mundo.


Toda noite, entre oito e dez horas, a mesma lengalenga se repete nos programas evangélicos. Pelo menos quatro “ministérios” concorrem em outro mercado: o religioso. Todos caçam clientes que sustentem, em ordem de prioridade, os empreendimentos expansionistas, as ilusões messiânicas e o estilo de vida nababesco dos líderes. Assim, cada programa oferece milagres e todos calçam suas promessas com testemunhos de gente que jura ter sido brindada pelo divino. Deus lhes teria abençoado com uma vida sem sufoco. Infelizmente, o preço do produto religioso nunca é explicitado. Alardeia-se apenas a espetacular maravilha.


Considerando que a rádio também divulga prodígios a granel, como um cliente religioso pode optar? Para preferir uma igreja, precisa distinguir sobre qual missionário, apóstolo, pastor ou evangelista, Deus apontou o dedo. E se tiver uma filha com leucemia aguda, não pode errar. Ao apelar para uma igreja com pouco poder, perde a filha. O correto seria freqüentar todas. Mas como? Em nenhuma dessas igrejas televisivas o milagre é gratuito ou instantâneo. As letrinhas, que não aparecem na parte de baixo do vídeo, afirmariam que, por mais “ungido” que for o missionário, um monte de exigência vem embutida na promessa da bênção. É preciso ser constante nos cultos por várias semanas, contribuir financeiramente para que a obra de Deus continue e, ainda, manter-se corretíssimo. Um deslize mínimo impede o Todo Poderoso de operar; qualquer dúvida é considerada uma falta de fé, que mata a possibilidade do milagre.
Lojas de eletrodoméstico vendem eletrodoméstico, óbvio. Igrejas evangélicas comercializam a idéia de que agenciam o favor divino com exclusividade. E por esse serviço, cobram caro, muito caro. Afinal de contas, um produto celestial não pode ser considerado de quarta categoria. A "Brastemp" espiritual que os teleevangelistas oferecem vem do céu. O acesso ao milagre se complica, porque todos mercadejam o mesmo produto. Os critérios de escolha se reduzem a prazo de entrega, conforto e garantia. Opa, quase esqueci! As lojas, em conformidade com o Código do Consumidor, são obrigadas a dar garantia, mas as igrejas evangélicas não dão garantia alguma. O cliente nunca tem razão. Quando a filha morrer de leucemia, o pai, além de enlutado, será responsabilizado pela perda. Vai ter que escutar que a menina morreu porque ele “deu brecha” para o diabo, não foi fiel ou não teve fé.


Mercadologicamente, Casas Bahia e Magazine Luiza estão bem à frente das igrejas. Melhor assim, geladeira nova é bem mais útil do que a ilusão do milagre.


Soli Deo Gloria.
Acesso dia 23 de março de 2009, disponpivel em <http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&id=2136>.