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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O DIA QUE O DIABO PREGOU


Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque
não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. (Mateus 16.23
)

E se fosse concedida ao diabo a oportunidade de pregar um sermão? Como seria essa pregação? Obviamente ele não falaria que estava fundando uma nova “igreja” com o seu nome para arrebanhar gente, pois ele pode ser tudo, menos estúpido. É mais prático entrar na seara dos fiéis e pregar um “Deus” que não existe, expor um simulacro do Eterno e um Jesus que vai além das Escrituras, pois com isso ele semearia o joio em meio ao trigo e exporia meias-verdades valendo-se de textos piedosos, por saber muito bem que a mentira mais destrutiva é aquela que mais se parece com a verdade.

Qual seria o texto básico de sua mensagem? Com certeza ele fugiria do tremendo drama humano existente no livro de Jó, nada teria a dizer sobre o amor delicado dos dois amantes, em Cantares de Salomão , e se calaria diante do pessimismo existencial de Eclesiastes, mas pinçaria algum relato do Antigo Testamento, sobre um personagem heróico como Moisés ou Abraão, mudaria o contexto original do texto, e transporia pura e simplesmente para os dias atuais , passando por cima das mais elementares regras de hermenêutica.

O propósito do sermão versaria sobre as necessidades do homem que precisam ser supridas, e que não há espaço na vida do cristão para tristeza, derrota, perda ou cansaço. Sim, o diabo está muito interessado em “suprir”, em oferecer uma solução rápida, em apresentar um atalho, em todas aquelas situações que Deus pretende ensinar pela solidão, pela caminhada no deserto, pela disciplina, e até mesmo pela dor.

Então, um sermão “diabólico” seria mais ou menos assim:

Caríssimos irmãos (arghhh):

Vocês precisam parar de pedir e começar a reivindicar. Ao orar, não apenas peçam, mas determinem. Deus quer sentir que você tem gana, que você sabe o que quer. Encurrale o Eterno contra a parede, e exija a parte que lhe cabe no Reino.

Não aceite mais a doença em sua vida. Você não nasceu são? Você não nasceu perfeito? Pois então não aceite nada, mesmo aquelas enfermidades que são contingentes da situação humana, e revolte-se contra Deus quando elas chegarem. Se Paulo aceitou com resignação aquele “espinho na carne”, faça Deus saber que com você não será assim.

Os títulos são muito importantes para que o mundo lhe reconheça. Quem pode ser alguma coisa na vida sendo chamado de servo? Tente o título de missionário ou evangelista para começar, depois passe para pastor, mas não fique muito tempo, pois já existem muitos por aí. Se na sua denominação você não conseguir subir, funde a sua própria e autodenomine-se “bispo”. O povo gosta disso. Mas se você é de fato um homem de visão, chame alguns companheiros para ungi-lo “apóstolo”. Isso é irresistível e logo haverá uma multidão de pessoas querendo tocar nesse homem de Deus. Se for casado, conceda à sua esposa a honra de ser “bispa”, mesmo que ela não fale coisa com coisa. O importante é que percebam que a sua família é ungida.

Também é hora de começar a exigir o melhor. Nada de pedir uma casinha simples para morar ou um carro usado. Vá a uma concessionária, escolha o modelo que mais lhe agrada, dê sete voltas em torno dele e determine que será seu. Vamos deixar de pensar pequeno. Se Davi dizia que não andava “à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais” para si (Sl 131.1), isso era pensamento dele, mas com você não será assim.

Disseram que eu vim pregar um “outro evangelho” (Gl 1.8). Na verdade estou pensando no bem-estar de vocês, eu quero o melhor para cada um. Certa feita o Filho de Deus mandou-me afastar de Pedro dizendo que eu não cogito das coisas de Deus, mas dos homens (Mt 16.23). E é verdade: eu só quero lhes oferecer uma qualidade de vida melhor. Eu não tenho culpa se Jesus não aceitou as propostas que lhe fiz. Que mal há em pedir que pedras sejam transformadas em pães? Afinal , há tanta gente faminta no mundo.... Que mal há em oferecer os reinos e glória deste mundo para alguém? Eu vim para facilitar, sou pragmático. Se as coisas podem ser resolvidas de forma rápida, com um simples ritual ou com uma oferta, porque demorar?

Jesus no inicio pregava às multidões, mas depois Ele começou a fazer duros discursos (Jo 6.60) e não soube segurar aquela gente toda. Eu jamais deixaria eles irem embora porque eu dou o que eles desejam: querem pregação de prosperidade, saúde o tempo todo e que o céu aqui na terra? Eu lhes dou.

Agora, para terminar, uma dica aos que gostam de pregar de forma incisiva como eu: ao subir ao púlpito, não é preciso ter uma mensagem preparada, pois eu darei uma a você. Grite muito, gesticule, aponte o dedo, ameace, profetize alguma coisa e diga ao povo que você pisa na minha cabeça. Se alguém ousar desmascará-lo, ameace-o, exponha a pessoa à frente de todos e diga que ela possui um espírito maligno. Funciona sempre, e nunca mais irão questioná-lo. Quem tem ouvidos para me ouvir, ouça.

Bem, talvez você já tenha escutado pregações assim em algum lugar, mas não sabia de onde vinha a inspiração. Agora você sabe. O diabo detesta hermenêutica – que é a interpretação correta dos textos (ele deturpou a ordem que Deus deu no Éden, e fez uma horrível exegese do Salmo 91 ao tentar Jesus no deserto). Certa vez alguém afirmou com propriedade que “as palavras de Deus mal interpretadas são palavras do diabo”. Concordo plenamente!


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O CAVALEIRO DA FÉ


Nos fins do século XIX, um jovem pastor dinamarquês, chamado Soren Kierkegaard, descreveu em um livro como seriam os traços, a postura, a fala e o modo de vida de um autêntico “cavaleiro da fé”. Desde que o li, fiquei imaginando, como se apresentaria hoje, num mundo tecnológico pós-moderno, materialista e individualista, alguém que tivesse de fato compreendido verdadeiramente o que é o Evangelho e o que é ter fé autêntica, e como ele enfrentaria as contradições de nossa época. Atrevo-me aqui, a discorrer um pouco sobre essa existência:

Por ser um homem – ou uma mulher – de fé centrada na Pessoa de Jesus, ele não dá atenção a nenhuma forma de religiosidade constituída por crenças em objetos, nem leva à igreja peças de roupas, documentos, ou qualquer outra coisa, pois à semelhança da fé do centurião romano, seus lábios não se cansam de repetir: “Senhor, basta uma palavra sua...” (Mt 8.8).

É capaz de ver a bondade de Deus presente em toda a Terra. Agradece pelo sol, pela chuva, pelo pão de cada dia, e até pelas dificuldades e provações. Embora, às vezes pareça que suas forças minaram, os seus olhos são como quem vê o Invisível, por isso nunca perde a esperança.

Interessa-se por todos os assuntos, e conversa animadamente sobre tudo sem restrições. Nada do que é humano lhe causa espanto, e a ninguém julga, pois conhece muito bem as contradições e ambigüidades que existem dentro de si.

Aprecia as Artes em geral, a pintura, a música, lê romances e poesia, pois no fundo sabe que, embora sejam prazeres efêmeros, eles representam antecipadamente as coisas do céu, como um vislumbre da Eternidade, um aperitivo que nos é dado. Só quem tem olhos para apreciar as artes pode reconhecer em Deus um Artista Supremo que pintou o pôr-do-sol com aquelas cores, criou cada flor com o seu toque de beleza e perfume, e arquitetou o cintilar intermitente das estrelas para iluminar a noite.

Ao contrário de muitos cristãos, ele crê na “Graça comum”, onde Deus em sua infinita bondade outorga a todas as pessoas inumeráveis bênçãos, dons e talentos. Por esse motivo, ele se agrada da boa música sem se preocupar se ela vem de um selo gospel ou não, pois entende que só há dois tipos de música: a boa e a ruim. Entretém-se com as Bachianas de Villa-Lobos, vibra com o vozeirão de Pavarotti e de Bocelli, e sabe que há um toque da centelha divina em Elvis. Mesmo que estes não reconheçam de onde vêm tão brilhantes aptidões, o Cavaleiro da Fé sabe que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do Alto” (Tg 1.17).

Embora ame o infinito, e deseje a eternidade, sabe saborear as coisas finitas com pleno prazer. Não se deixa paralisar pelos cuidados da vida, e em sua mente não há nenhuma preocupação com o amanhã, pois aprendeu a viver dia a dia e descansar no Senhor.

Sente-se bem quando está reunido com seus irmãos no templo, mas também se alegra em poder se encontrar com aqueles que não expressam sua fé, já que não faz acepção de pessoas, nem alimenta qualquer preconceito na alma. Como é um filho da Luz, irradia por onde passa o amor de Deus, pois aprendeu que na Velha Aliança quem entrava em contato com algo contaminado, tornava-se imundo e impuro. Mas agora, desde que Jesus se deixou tocar por uma mulher hemorrágica, e tocou leprosos, ao invés de ser contaminado, a Sua Presença santifica e purifica.

Sua fé não é vivida de maneira sôfrega, com culpas e temores infundados. Está em paz com Deus, e em Cristo aprendeu a perdoar o mundo. Tudo o que ele faz é para o Senhor: seu trabalho, seus estudos, e até quando se diverte. Não tem bloqueios com o seu corpo, por isso, quando feliz, se expressa também através dele, pulando e dançando como uma criança, e não dá a mínima para os olhos maus.

Sente-se amado pelos que o cercam, mas também reconhece que nem todos o compreenderão. Por isso, às vezes parece meio solitário. E não cobra ninguém por isso, pois percebe que na vida será sempre assim – uns entenderão a gente, outros não.

O cavaleiro da fé não cultua a Deus apenas no templo. Para ele não há mais dia, nem hora, nem lugar certo para prestar culto: onde ele está tem reverência ao Senhor. Todos os dias são santificados, os lugares mais comuns podem ser sagrados, bem como as coisas cotidianas da vida. Quanto aos alimentos, não rejeita nenhum: “recebidos com ações de graça, nada é recusável” (1Tm 4.4).

Não vive temeroso com o diabo, não fica mencionando o seu nome, nem obcecado por suas ações. Sua vida pertence a Deus, é Deus quem o dirige, e reconhece que “todas as cousas cooperam para o seu bem”.

Não se encaixa em nenhum rótulo religioso: não é gospel, nem renovado, carismático ou tradicional. De igual modo, também não aceita ser designado por termos próprios do judaísmo, como levita, gadita ou profeta. Ele é simplesmente um discípulo de Cristo, e como tal quer ser reconhecido.

Bem.... Kierkegaard terminou o seu relato confessando que jamais encontrou um só exemplar autêntico do cavaleiro da fé. Eu também não, mas estou disposto a persegui-lo em minha vida, ou ao menos aproximar-me dele. Desejo o mesmo para você.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

HERÓ - (I) - RONISMO

No título o "I" fica propositalmente dividido entre concluir o termo "herói" e começar o termo "ironia" (ou ironismo). Foi a dinâmica textual que encontrei para definir a cena exaustivamente exibida pelas mídias onde um marginal que estava fazendo uma refén, no Rio de Janeiro, é atingido na cabeça por um major atirador de elite.
É interessante notarmos como o "jornalismo" de hoie [sei que não posso generalizar mas esse não é o espaço para discutir as excessões], tão afeito ao espetáculo, conforme a demanda social atual, nos faz tão parcialmente cientes de determinada situação; e embora pareça nos informar sobre o ocorrido, na verdade nos instiga à consumir "imagem" na medida em que de tudo fazem um grande espetáculo teatral.

Sobre a cena citada, foi veiculada em horário nobre de audiência, editada na medida tal à atingir IBOPE; percebemos que não é o interesse das mídias discutir o caos social que atinge as grandes cidades. Sem pessimismos, "cá-pra- nóIs", as pessoas que vivem em megalópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, dentre outras, estão fartas de tanta violência e corrupção, e miséria (ETC ... ETC ... ETC). As mídias espetacularizam o ocorrido para estimular o consumo cada vez maior dessas porcarias chamadas "notícias" - que nada informam; pelo contrário, é mantenedora de um sistema que alimenta verdadeiros monstros.

Mais um "bandido" foi abatido! está morto! Alguns comemoram. Outros: pobre da mãe pobre que não terá mais a compania de seu filho, "uma família de gente como nós, que chora o assassinato de um ente querido". Sobre a moça que era refén, à salva, com a família, devendo sua vida ao atirador de elite! O pior é que a fábrica de violência está à plenos vapores, a questão aqui não é matar o "bandidinhho" e noticiar que seu caixão está aberto - é ter coragem de pegar a diretoria do "bandidismo" - no Congresso que está alinhado com a corrupção, a má administração brasileira da "terra pública", do tesouro público; a nossa péssima distribuição de renda; etc; etc.

Falta saúde! Autoridades, menos atiradores de elite na "telinha" (viu FANTÁSTICO!); nós brasileiros nos cansamos de escolher entre o bandido e o mocinho, esse "jogo real" engendrado por vocês é perverso e amedronta nossa gente.

Por isso não vejo o major como um herói, conforme discursado por vocês; ele também é vítima dos verdadeiros bandidos - do crime de "colarinho branco". Para mim o que foi divulgadi não passou de ironismo; mas o povo não é bobo, e clama por menos violência, por menos desigualdades, por mais saúde e educação, por mais vida!

Fonte da foto: disoponível em http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/09/25/e25098609.asp; acesso dia 28/09/2009.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

TEXTOS BÍBLICOS QUE INCOMODAM


Sinto na alma, a cada dia, a dificuldade que é ser um cristão. O padrão que Jesus espera de mim nem sempre vai de encontro aos meus anseios e vontades. Confesso que há certas coisas difíceis de praticar, e imagino que a caminhada se tornaria mais “fácil” se alguns versos fossem simplesmente suprimidos da Bíblia. Eles me deixam perplexo, constrangem, expõem minhas fragilidades, e alguns conceitos que emanam deles parece não funcionar na prática.

Como é possível a Bíblia afirmar que “os mansos herdarão a terra” (Mt 5.5), se estamos vendo que quem conquista, vence e manda, são os fortes, os guerreiros e os que detém as armas?

Como concordar com a parábola em que o trabalhador da última hora recebe ao entardecer o mesmo salário de quem malhou duro o dia inteiro (Mt 20)?

E a matemática divina, então? Deixar noventa e nove ovelhas no deserto, à mercê dos lobos, para ir atrás de uma só ovelha desgarrada? Deixa-a ir embora. Quem sabe ela não fosse uma desajustada que não merecia estar junto ao rebanho.

Uma viúva pobre vai, deposita duas moedinhas no gazofilácio e Jesus afirma que ela ofertou mais que todos os “graúdões” cheios de posses (Lc 21.3). Se eu for aplicar isso em minha igreja, não terei dinheiro para pagar sequer a conta de luz no próximo mês.

O corretivo que Jesus usa parece depor contra o bom senso: um filho vai embora de casa, vive dissolutamente desperdiçando todos os seus bens, retorna de mãos vazias, e ainda “ganha” uma festa (Lc 15.25). O irmão, que permaneceu na casa teve de trabalhar em dobro durante a sua ausência, e parece que não recebeu nada por isso.

Amo a minha família, amo meus irmãos, tenho prazer em estar com os amigos. Mas vem Jesus e diz que eu não estou fazendo nada demais, pois até os incrédulos fazem o mesmo. O que Ele quer afinal? Que eu demonstre amor aos inimigos e abençoe quem me persegue? Acreditem: é exatamente isso que Ele deseja (Mt 5.43-48)! Isso é demais!

Até aqui falei como tolo. Jesus incomoda e vai continuar incomodando sempre. Por vezes agimos como o povo geraseno, que perturbados com a presença Dele, rogaram-lhe educadamente que se retirasse daquelas terras (Mc 5.17). Pretendemos afastar Jesus de tudo aquilo que Ele pode “atrapalhar”. Afinal, temos nossa vida, nossa visão, nossa maneira de pensar.

Todavia, a “loucura” do Evangelho é a nossa cura. É a verdadeira forma de encarar a vida. Quem ousar mergulhar de cabeça compreenderá, quem se arriscar verá. Aquele que aceita o Evangelho como o único modo de vida que vale a pena viver, faz como o homem que encontrou um tesouro oculto no campo, e transbordante de alegria, vai vende tudo o que tem e compra aquele campo. É preciso arriscar tudo... não há meia aposta.

O Evangelho abre a nossa mente e nos dá novos olhos. E lendo a Bíblia com esses olhos percebo que os mansos não haverão de conquistar a terra, mas a receberão do Senhor, como herança, pois só Aquele que possui todas as coisas pode herdar aos seus filhos.

O trabalhador da última hora, assim como todos aqueles que encontram o amor Divino, ainda que tardiamente, também experimentarão da bondade do Pai. Para o Supremo Pastor, uma só ovelha é tão digna de ser salva, que Ele deixaria tudo para alcançar este “único”, que sou eu e é você. A viúva pobre ofertou mais do que os outros porque eles deram do que sobrava, ela deu tudo o que tinha. O filho mais moço foi recebido de volta pelo pai porque Ele jamais nos trata segundo as nossas transgressões, entretanto rasga as cadernetas dos “justos”, com suas anotações de cobrança.

Realmente há textos que incomodam, mas ao invés de tirá-los da Bíblia, devemos vive-los, pois é justamente onde eles “pegam” que precisamos ser curados. Pense nisto.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

NO OLHO DO FURACÃO


“O Senhor tem o seu caminho na tormenta
e na tempestade” (Naum 1.3)


Hecatombes, desastres, revoluções, perseguições, pandemias, dívidas, doenças diagnosticadas, família incorrigivelmente desestruturada... como viver a fé em meio ao caos? Como estar em paz quando nos encontramos no olho do furacão? Essas coisas desestabilizam, sacodem, desequilibram, tiram o chão.

Basta um pequeno aneurisma no cérebro, basta o surgimento de um nódulo no seio, ou a comprovação de uma traição, para que de repente sejamos jogados no olho do furacão.

Faz parte do ser humano buscar a segurança e a previsibilidade, e é comum imaginar que vida boa é vida sem sobressaltos, e livre de más notícias. Mas creio que pode haver um elemento de transformação do ser que somente é despertado em meio à borrasca. Uma mudança de perspectiva e de postura pode surgir em meio ao turbilhão. Quem pode afirmar que ali não se iniciará uma caminhada de volta ao Pai? Uma mudança de olhos daquilo que é temporal e efêmero para o que é eterno? O Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade (Naum 1.3)!

Estar no olho do furacão nos faz repensar a vida. Há um aprendizado em curso. Quem já passou pelo vale da sombra da morte, com um diagnóstico “irreversível” num hospital, aprenderá agradecer a Deus fervorosamente cada manhã vivida. Quem um dia perdeu tudo, foi humilhado, e sentiu-se sozinho, saberá valorizar a amizade, o companheirismo e a solidariedade. Aquele que um dia passou necessidade extrema reconhecerá o valor que há em comer um simples pedaço de pão.

Há algo de paradoxal nos acontecimentos da vida. Davi admitiu que foi “bom ter passado pela aflição” (Sl 119.71), ou em outras palavras, ter estado no olho do furacão, para que ele compreendesse coisas que antes não compreendia.

A consciência da iminência da morte faz o homem relembrar a sua finitude e temporalidade. A solidão, o medo, o vazio, possuem o bendito valor terapêutico de resgatar sentimentos que até então encontravam-se adormecidos dentro da alma.

Acho de uma beleza comovente quando Davi se refugia numa caverna, a caverna de Adulão, fugindo de um ensandecido Saul, que desejava matá-lo. Seus irmãos e toda a casa de seu pai souberam, e foram para a caverna para estar com ele. E o mais surpreendente: ajuntaram-se a Davi todos os homens que “se achavam em aperto, endividados, e todos os amargurados de espírito”, e Davi se fez chefe deles (1Sm 22.1-2). Quem está no olho do furacão não está só.

Desdenho a “fé” dos falastrões da TV, mas me comovo com a fé daquelas mães que levam seus filhos todos os dias para tratamento na AACD. Não me comovo com testemunhos patéticos de “prosperidade”, mas me emociono vendo filhos cuidando de seus velhos com o mal de Parkinson ou Alzheimer, que nem os reconhecem mais. Acho que agora compreendo quando o Pregador diz que “melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens” (Ecl 7.2). Sim, precisamos conhecer o fim para saber viver o meio.

Hoje não nos reunimos mais em uma caverna em torno de um homem – seja ele sacerdote, pastor ou apóstolo – mas em torno Daquele que compreende o que é sofrer, pois passou por esse caminho antes de nós. Jesus, o Filho de Davi está preparado para receber as almas angustiadas que se unirão à Sua volta, obedecendo à sua vontade. Ele recebe a todos, por mais miseráveis que sejam.

Nossas reuniões não são para os felizes, nem para os sãos, e nem para os que bastam a si mesmos, mas para quem tem algo difícil de suportar, e vem até a Cruz para chorar, pedir, suplicar. Venha se unir em torno de Cristo.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br