quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O grito da poesia há tempos engasgada ...

Elevo-me a Ti Senhor; ou Tu me elevas a Ti, e deixo-me ser vistoriado, revisado e restaurado. O Senhor que sempre me visitas nas minhas tantas cavernas, meus tantos esconderijos, para me recuperar: atrai-me mais uma vez! E outra ... e outra! Até que eu aprenda.

Hoje estou aqui à Tua disposição e não tenho vontade que seja diferente; o clima é propício, a atmosfera é real, algo está acontecendo além dos meus limites; quero ser mexido, refeito ... refinado! Será nisso consistir o valor de um homem?

Sou tão dependente! Hoje reconheço tua voz, toque; sei quando estás mais perto, tão perto às vezes que me falta o equilíbrio exigido pelas testemunhas. Quão profundo És, e teu amor quão infinito. Escolheste-me a mim, logo eu, quão pequeno sou. No entanto aceito teu chamado, e ser constrangido pelo teu amor; o maior de todos os desafios, o de carregar a cruz que é minha.

Vem comigo eu confesso meus medos, esteja aqui eu confesso temer o que pode acontecer, não se distancie seja o "Deus de perto" - Vem comigo, sou tua Igreja também, faço parte dela; se eu não sentir a verdade da Tua aproximação sabe que submergirei.

Tu és o Deus da minha salvação; Pai e Amigo, deste-me uma família, e ao coral das vozes que Te louvam arrebataste-me os ouvidos; ouço Teus conselhos, aquieto-me em Teu abraço, no calor da consolação do Consolador em pura essência pego no sono.

Durmo, arrebatado, como a criança que em tenra idade se entrega e confia unicamente aos cuidados da mãee habilidades do pai, à espera do amanhecer onde o Senhor fará, por mim, novas todas as coisas.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SOBRE SANTOS E MUNDANOS

“Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15)

Boa parcela de cristãos costuma fazer certa confusão quando se refere ao “mundo”. Embora a bíblia use sempre o mesmo vocábulo (kósmos), é preciso reconhecer os seus diferentes significados: há o “mundo”, globo terrestre, que inclui toda obra da Criação, a humanidade e suas gentes, e há o “mundo” entendido como perversão de valores, lugar de trevas e engano. Mundo, então, neste sentido, é a ideologia vigente que se rebela ao Eterno, e leva a tragédia à existência humana. Quem vive sob esta ótica não tem como amar a Deus, pois se tornou escravo do sistema e o seu “eu” é o seu próprio deus.

A bíblia alerta: “não ameis o mundo” (ideologia), mas diz que “Deus amou ao mundo” (pessoas).

Geograficamente, o cristão está “no” mundo, embora não seja “do” mundo, e Jesus roga ao Pai para que não tirasse os seus filhos do mundo, mas que tão somente os guardasse do mal (Jo 17.15).

Mundo-perversão não é necessariamente um lugar geográfico, mas ele sempre surgirá onde predominam pensamentos, atitudes e posturas contrárias ao Evangelho. Até a igreja pode ser mais “mundo” que o mundo se os seus valores estiverem invertidos. Disputa pelo poder, busca de sucesso e glamour, espírito de competição, e satisfação de interesses pessoais, sempre nascem de uma visão “mundana”. Quando Lutero tentou evadir-se das mazelas da sociedade do seu tempo, se refugiou num mosteiro, mas logo percebeu que “o mundo” estava presente ali tanto quanto lá fora.

Pode um cristão compartilhar da amizade e companhia de pessoas “do mundo”? Claro, o mundo é o nosso campo de atuação, é onde a luz precisa brilhar, e o sal salgar. Jesus, orando ao Pai, disse: “Assim como Tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 17.18).
Quando Paulo escreve: “não vos associeis com os impuros” (1Co 5.9) significa: “não comungueis com as ideias e posturas que não correspondam aos valores do Reino”. Ou seja, viva no mundo, mas não se prenda à valoração deste mundo. Não manter contato com “impuros” seria impossível, pois senão “teríeis de sair do mundo” (1Co 5.10), finaliza o apóstolo.

Interessante, como um Jesus inegavelmente santo, vai às festas que o convidam, não se importa com a fama de quem ele se senta à mesa, dá de ombros quando é chamado de “glutão e beberrão, amigo de pecadores” (Lc 7.34), e não faz acepção de pessoas. Em tudo isso ele não se maculou.

Um aspecto que a igreja às vezes tem dificuldades em admitir, é de que Deus além de ter amado o mundo de tal forma que enviou o Seu Filho, Ele também outorga as suas bênçãos a todas as pessoas, independentemente delas aderirem à fé ou não. É a “graça comum”, que embora não conduza à salvação de seus recebedores, é concedida pelo Pai que “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.45). “O Senhor é bom para todos” (Sl 145.9), ensina o salmista.

Eric Lidell, campeão olímpico nos 100m em 1924, no filme Carruagens de Fogo disse: “Creio que Deus me fez para um propósito, mas Ele também me fez veloz, e quando eu corro, sei que agrado a Deus”. Mais tarde ele diria que “desistir de correr, seria despreza-Lo”. Depois Lidell tornou-se missionário e terminou seus dias num campo de concentração na China aos 43 anos.

É de Deus que vem todo talento e destreza nas artes em geral, na música, no cinema, teatro, esportes, na literatura.... Tudo que é belo, tudo o que é bom, e todo dom perfeito vem do Alto (Tg 1.17). Por vezes, muitos incrédulos são até mesmo mais aquinhoados com talentos que os próprios cristãos confessos, pois “os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz” (Lc 16.8).

Só assim é possível entender porque há tantas coisas boas na vida, produzidas por gente do “mundo”. Os versos de Pessoa, a voz limpa e clara da Ana Carolina, as canções do U2, o vozeirão rouco do Louis Armstrong, os dribles do Neymar, a guitarra do B.B.King, os girassóis de Van Gogh, a genialidade do Bill Gates, e tudo o mais que há de belo e perfeito tiveram origem em Deus. Origem em Deus, eu repito – e não no diabo – ainda que estes não reconheçam nem glorifiquem ao Eterno.

Agora, quem não é capaz de ver beleza nestas coisas, duvido que aprecie o que verá no céu, pois na Nova Jerusalém os reis da terra apresentarão a Deus a glória que possuem e a honra das nações (Ap 21.24-26). Creio que lá estarão presentes o acervo do Louvre, do Masp e a metade de Florença com suas pinturas e afrescos.

Há coisas que estão no mundo, mas não são “mundanas”. Por isso, enquanto puder quero continuar levando meu filho ao estádio, assistir filmes que emocionem, dar muita risada com o Jim Carrey, gastar dinheiro com livros, ler a Folha e o Estadão enquanto tomo café, comer churrasco com a família reunida, e descansar janeiro na praia, sem fazer nada...., pois “nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?” (Ec 2.24-25).

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

SOBRE FÁBULAS, FANTASIAS E CREDULIDADE

“E se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.4)

Tenho visto muitas coisas acontecerem no mundo espiritual que não são se enquadram em manifestação divina, nem mover de Deus, ou obra do Espírito Santo. Fenômenos religiosos, sejam eles de curas, prodígios ou maravilhas nem sempre são originados do céu. De igual modo a produção de textos, livros, shows, canções, vídeos e pregações, que usam o nome de Deus, necessariamente não vêm do Alto. Aliás, seria muita ingenuidade imaginar que fosse assim.

Não há dúvidas de que há muita gente portadora das mais diversas doenças da alma (psique) e do espírito, usando a religião como canal para expressar suas enfermidades.

Entretanto, alguém poderá argumentar que eles estão sendo “sinceros”. Embora isso seja louvável, muita gente pode estar “sinceramente enganada” sendo levada por seus sentimentos e pensamentos desviantes, e não pela direção das Escrituras e do Espírito Santo.

Quando Jesus chama para Si aqueles rudes pescadores, Ele prepara e trata individualmente cada um deles: a Pedro fez ver sua arrogância e intempestividade, a João seu espírito de vingança (queria consumir com fogo os samaritanos), a Tomé seu ceticismo. Até o apóstolo temporão, Paulo, não saiu a pregar e escrever sem que antes passasse três longos anos no deserto sendo tratado. Só então foram enviados.

Atualmente a Web tem sido um meio para disseminar idéias e crenças que carecem de fundamentos bíblicos. Confesso que já cansei de apertar a tecla “Reply” para desmontar mensagens difundidas como verdade, mas como ninguém quer verificar se as coisas são de fato assim, repassam “sem piedade” para os seus contatos.

Creio que foi Jeremias quem mais enfrentou profetas da mentira e das fantasias, numa época sem internet. Diz ele: “o profeta que tem sonho, conte-o como apenas sonho... sou contra esses profetas que pregam a sua própria palavra e afirmam: Deus disse... e fazem errar o meu povo” (Jr 23.28-32).

Quem não gostaria de subir ao céu toda manhã, bater um papo com Deus, e voltar na hora do café com a sua agenda do dia? Quem não gostaria de ter um telefone viva-voz ligado diretamente à sala do trono? Seria maravilhoso, mas não é assim que as coisas funcionam.

Mas observe a posição simples e humilde dos cristãos primitivos: diante das situações difíceis eles oravam a Deus, reuniam-se em comunidade, conversavam, discutiam, e quando estavam certos que o Senhor começava a mostrar-lhes a direção, então eles diziam:

“Pareceu bem aos presbíteros e à toda a igreja enviar... pareceu-nos bem eleger alguns homens... pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor maior encargo.... pareceu bem a Silas permanecer ali...” (At 15.22-34).

Sim, “pareceu bem”. Ninguém disse: “Deus me falou, e ponto final!”.

É um erro confundir misticismo com espiritualidade. É preciso mais uma vez voltar ao livro de Atos. Havia em Filipos uma jovem adivinhadora que sem conhecer aos apóstolos, dizia deles, quando passavam: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo, e vos anunciam o caminho da salvação” (At 16.17). Bingo! Acertou em cheio! Nos dias atuais, muitos “crédulos sinceros” deixariam as suas congregações para segui-la. Mas Paulo discerniu “quem” estava por trás daquilo e expulsou aquele espírito. Paulo é um estraga-prazeres. Ele bem que poderia usá-la para atrair mais gente para o seu ministério, “adivinhando” o que vai na vida de cada um. Mas a bíblia nos ordena: “não deis crédito a qualquer espírito, antes provem os espíritos se procedem de Deus” (1Jo 4.1).

Quando apontam para alguém e dizem: “ali está o poder de Deus”, eu me pergunto: Será mesmo? Sei do que Deus pode fazer. Mas não sou crédulo: ser crédulo é ser ingênuo, sem discernimento; credulidade não é fé, pois ela não consegue separar o falso do verdadeiro; o crédulo crê em “Deus”.... e em todos os deuses.

Somos seres passionais, por isso sujeitos às paixões, aos sonhos, visões e imaginações que brotam das fantasias do coração. Mas não pretendo incorrer nos erros do nosso tempo. Basta dar uma olhada na História para perceber que a engenhosidade das fábulas levou muita gente “sincera” ao erro quando projetaram no inimigo suas próprias mazelas e perversões:

Se você vivesse nos tempos de Jesus, e freqüentasse a sinagoga, seu maior inimigo seriam os samaritanos, visto como “impuros” e gente da pior espécie. Mas você estaria errado.

Se você vivesse na Alemanha nos anos 30, saberia apontar os responsáveis pelo caos econômico: os judeus e os ciganos. Teria errado novamente.

Satanás é prodigioso em lançar “ações diversionistas” – aquela estratégia usada na guerra para desviar a atenção de onde virá o verdadeiro ataque. Mas os crédulos, sem se aperceberem vão dizer que aquilo que vivemos hoje é tudo culpa dos Illuminati, da Rede Globo (que segundo Estevam Hernandes tem um demônio chamado Kixapágua).... da última novela.... do Opus Dei (Dan Brown tem ganhado rios de dinheiro brincando com a credulidade de seus leitores).

Satanás dá gargalhadas com suas ações diversionistas. Não estou negando o malefício dessas coisas, mas todos seremos derrotados se não voltarmos nossa atenção onde justamente ele tem atuado com maior desenvoltura, e poucos tem se apercebido. Aqui vai uma dica do livro das Revelações: a Besta que emerge da terra “parecendo cordeiro” (Ap 13.11) tem aparência de inocência e mansidão, “opera grande sinais, que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens (Ap 13.13), e “seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais” (Ap 13.14). Ela atrairá para si todos os crédulos que se recusam a dar ouvidos à verdade, e preferiram entregar-se às fábulas.

Quem viver verá.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

CRISTÃOS SEM PEDIGREE

“Não tenho outro nome, senão o de pecador; pecador é meu nome; pecador, meu sobrenome” (Martinho Lutero)

Há alguns anos ganhamos um cão labrador. Junto veio um certificado mostrando sua pureza de raça, atestando que não era um labrador “qualquer”, pois foi gerado por um exemplar especial, veio de um espécime escolhido entre muitos outros. Ele tem “pedigree”.

Quando Hitler tomou o poder na Alemanha, cientistas iniciaram pesquisas para um trabalho de melhoria da raça germânica. A proposta era eliminar os fracos, os doentes, os que nasciam com alguma deficiência física. Buscava-se uma “pureza racial”. Dá-se a isso o nome de “eugenia”. Essa expressão foi cunhada em 1883, e significa “bem nascido”. Para os nazistas, as raças nórdicas estavam no topo da hierarquia humana, depois havia as “raças inferiores” e finalmente a mais baixa de todas, as “parasíticas”, constituídas pelos ciganos, judeus e africanos.

Deus sempre quis um povo para si, para glorificar o Seu Nome e espalhar a santidade sobre a Terra. Aos nossos olhos seria normal que Ele escolhesse as melhores pessoas, as mais virtuosas, as mais educadas, e bem nascidas, para que fizessem parte desse povo. Mas aí vem Jesus, e diz justamente o contrário: “não vim chamar justos, mas sim pecadores” (Mt 9.13).

De onde você imagina que veio? De uma família boa, classe média, e respeitável? E que você conquistou o seu lugar no Reino por seus méritos? Esqueça. Uma das grandes dificuldades que existe na igreja é passar aos seus membros sua origem comum. A nossa condição humana nos iguala nos desvios, erros e vícios. Nossa origem adâmica, com todas as suas conseqüências nivela a todos nós. Igreja é um grande abrigo de doentes. Mas há uma vantagem em ter consciência disso: doente não tem medo de estar perto de outro doente. Só quem se enxerga “saudável” é que teme se misturar e contaminar.

Na verdade, diante de Deus não há duas classes de homens: os bons e os maus. A única divisão é: os maus que se reconhecem pecadores e os maus que ainda precisam reconhecer seu estado. Não há bons. Não há dignos. Não há cristãos gerados com pedigree. Ninguém no Reino de Deus carrega pedigree santo, “sangue azul”, ou espiritualidade “eugênica”.

Deus se irou tremendamente quando o seu povo peitava aos que necessitavam de misericórdia com a seguinte frase: “Fica onde estás, não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu” (Is 65.5). De onde vem esta postura? Trata-se de uma defesa, uma tentativa de se sentir-se “melhor” ou superior rebaixando o semelhante.

Quando vemos pessoas em dificuldades, presos a um vício, ao pecado, ou a uma postura destrutiva para si mesmos, somos chamados – não para julgá-los – mas para acolhe-los. Não pode faltar ao cristão o sentimento de empatia, que é a capacidade de compreender o espírito e os sentimentos do outro. Somos chamados para estender essa misericórdia divina a todos que nos cercam. Philip Yancey, em seu livro Maravilhosa Graça, conta de seu amigo que lhe confessou com profunda tristeza: “Como gay, descobri que é mais fácil conseguir sexo nas ruas do que um abraço na igreja”. Isso é abominável diante de Deus.

A meu ver, a mais bela expressão registrada na bíblia sobre o Reino de Deus, está na Parábola da Grande Ceia (Lc 14), onde o servo saiu a avisar aos convidados do banquete que o seu senhor preparara, mas estes tinham coisas mais importantes a fazer. Voltando o servo para a casa, o senhor se irou e disse: “sai depressa para as ruas e becos da cidade, e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (penso que conheci a Deus nessa remessa).

Interessante: quando o servo retorna da missão com aquela gente “desqualificada”, o seu senhor o manda sair ainda mais uma vez: “vai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa”. Não houve filtragem de convidados, nem se impôs condições prévias a eles. E ao servo não foi permitido exprimir seus gostos e preferências pessoais. Competia a ele cumprir o que fora ordenado pelo seu senhor. Creio que o Pai quer a sua casa cheia, com gente de todas as “tribos”.

Naquele banquete, todos que se sentam à mesa são igualmente indignos. Entendo agora porque Lutero afirmava de forma tão peremptória: “Não tenho outro nome, senão o de pecador; pecador é meu nome; pecador, meu sobrenome”.

Somos mendigos que descobrimos onde tem comida da boa. Agora, a nossa missão é avisar aos outros mendigos, inválidos e desqualificados. Somos aquele servo que sai para proclamar as boas-novas a todos. Quanto “pior” eles forem, melhor. O Pai se agradará muito em acolhê-los, amá-los e conceder-lhes dignidade. O Senhor também espera que os servos que saem a convidar, igualmente se agradem em estar ao lado deles.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

sábado, 31 de julho de 2010

SANIDADE NA SANTIDADE

“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23)

Certamente há uma clara vontade divina para que sejamos pessoas santificadas em todos os aspectos que compõe o nosso ser. Por esse motivo, o apóstolo Paulo ora para que todos os níveis da personalidade do cristão sejam perfeitos e saudáveis em Cristo. Ele pede em sua oração, que o espírito (do gr. pneuma), a alma (psique) e o corpo (soma) sejam conservados íntegros e irrepreensíveis para a vinda do nosso Senhor (1Ts 5.23).

A santidade que Deus quer de nós não é fragmentada, como se a espiritualidade existisse à parte dos outros aspectos da vida. Isso significa que a ação dinâmica do Espírito deseja atuar em nós total e cabalmente, nada ficando fora do seu poder santificador. Em poucas palavras, devemos manter íntegros, irrepreensíveis e sãos, tanto o corpo, quanto a alma e o espírito.

Essa santidade “integral” irá arejar nossa mente, qualificar nossas percepções, alargar nossa visão, e melhorar a interpretação da realidade.

Ou a santidade que vem de Deus atinge todos os detalhes de nosso ser, nossa ética, e nossos relacionamentos, ou logo iremos perceber que estamos vivendo uma espiritualidade “manca”, que carece de uma melhor compreensão.

Observamos isso claramente quando uma parte dos cristãos reconhece que precisa curar apenas as “doenças do corpo”, e se aglomeram para pedir curas de tumor, caroço, dor na coluna, enxaqueca, e vista fraca. Mas nenhuma palavra para as enfermidades que assolam a alma, como a inveja, o ciúme, a vaidade, a irritação, a instabilidade e o espírito de vingança. Desejamos que Deus controle as nossas finanças, mas negamos-lhe o acesso para controlar o nosso temperamento. Pedimos o equilíbrio financeiro, mas nada mencionamos do equilíbrio emocional.

Há uma incompatibilidade na santidade do espírito que detona com os relacionamentos, apresenta comportamentos que beiram a insensatez, e desprezo pela saúde.

A santidade de vida nunca prescinde de uma boa dose de lucidez, bom senso e pensamentos sadios. Acho admirável a sensatez do apóstolo Paulo tentando impedir a partida do navio, ao perceber que o tempo estava ruim para a navegação (At 27). Não foi revelação divina: foi bom senso. Muitos crentes hoje diriam: “o irmão Paulo não tem fé em Deus que tudo vai correr bem”.... e se arrebentam. A “loucura” do Evangelho nada tem a ver com atos insanos.

Se orar sobre um problema é visto como um importante componente de uma espiritualidade sadia, pensar corretamente também é. Davi dizia: “compreendo mais do que todos os meus mestres porque medito nos teus ensinamentos” (Sl 119.99). Se ficar somente na oração, mas não buscar soluções sensatas, as coisas não se resolverão por si, pois “só” a oração pode levar a um pensamento obsessivo sobre o problema. Crer é também pensar e agir de forma saudável.

Em minha experiência no gabinete pastoral, tenho observado que a maioria dos casos chamados de “problema espiritual”, na maioria das vezes se resume em falta de bom senso, ausência de sabedoria, e de agir afoitamente.

Conhecer a Deus nunca piora ninguém. A fé acrescenta, e não tira. A fé nos concede um modo diferente de enxergar o mundo, de pensar. Por isso, não me impressiono com arroubos de espiritualidade quando desacompanhada de leveza, simplicidade e inteligência emocional.

Precisamos urgentemente de sanidade nos púlpitos, nos bancos da igreja, nos programas de rádio e TV que pregam o evangelho. É perceptível os inúmeros distúrbios apresentados por pastores e apóstolos midiáticos: histerismos, transtornos de personalidade, megalomania e delírios.... e a situação não é melhor de quem os segue.

Não tem o menor sentido buscar com avidez uma “santidade ao Senhor” e, ao mesmo tempo, agir com presunção, em relação a todos os outros aspectos da vida. Não bate!

Não há nada de santo em “coar mosquitos” (do tipo ‘não bebo vinho’, ‘não danço’, etc.), e “engolir camelos” (orgulho nos olhos, soberba nos lábios, preconceitos explícitos, etc.).

Não fica bem amar somente os que lhe são iguais, e desprezar os diferentes, separar os “bons” pra cá, e os “maus” pra lá, para não se contaminar.

Não combina Santidade a Deus com rixas, brigas, discussões, e explosões de raiva.

Não orna Bíblia sob o braço, com estreiteza de visão, pregação de amor a Deus, com indiferença para as pessoas, misericórdia para si, e olhos duros para o outro.

Não coaduna buscar uma vida espiritual equilibrada, e não buscar ajuda para os outros aspectos do ser que estão em desarmonia.

Destoa a simplicidade dos santos, com ganância explícita. Não rima fé com apatia, paz de Cristo com gritaria, glórias a Deus com zombaria.

Definitivamente, santidade rima com sanidade. Como podem ver, a única diferença é o “T” da cruz.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quinta-feira, 22 de julho de 2010

ELE NÃO PESA, É MEU IRMÃO


“Levai as cargas uns dos outros e, assim
cumprireis a lei de Cristo.” (Gl 6.2-3)

Não adianta procurar na bíblia argumentos para justificar seu isolamento: fé solitária não existe. Viver uma espiritualidade que afirma conhecer a Deus, esquecendo-se de quem vai ao seu lado ofende os céus. Buscar santidade afastando-se do próximo é correr atrás do vento.

Se por um lado Deus me pede para me esvaziar, e abandonar meu egocentrismo, por outro lado devo contrabalançar com o reconhecimento da importância de quem caminha comigo.

Entretanto, esse esvaziamento de si mesmo só pode ser esperado por quem aprendeu a conviver com suas próprias limitações e reconhece a carência que vai dentro de si.

Só quem supera a rejeição pode demonstrar verdadeira aceitação daquele que convive conosco, pois quem ainda não superou as rejeições sofridas no passado de alguma forma estará sempre brigando com os “fantasmas” de supostos agressores. Precisamos retornar a Deus, que nos cura, para que o nosso centro não esteja mais num ego rejeitado, mas em Deus. A partir daí, as incompreensões sobre a minha pessoa ou o que dizem ou pensam de mim já não adquire tanta importância. A comunhão com Deus, e a convicção de que se é amado por Ele, nos faz transbordar.

Sofrer uma dor sozinho é bem diferente da dor sofrida ao lado de alguém. Daí a importância da vida de comunhão da comunidade de fé. Às vezes nos faltam palavras, mas.... não precisa falar nada, basta estar junto. Talvez o abraço seja a melhor representação de amor que alguém pode oferecer.

Foi assim com Labão, ao receber Jacó em sua casa: correu-lhe ao encontro, abraçou-o e beijou-o (Gn 29.13). O que dizer do filho pródigo, esfomeado, voltando pra casa, o seu pai o avista de longe, corre em sua direção, o abraça e beija (Lc 15.20)? Vemos Paulo descendo em direção a Êutico, que havia caído da janela, e foi dado como morto. E o que ele faz? Inclinando-se sobre ele, “abraçou-o”, devolvendo-lhe a vida (At 20.10). Como reagiu a igreja diante da partida de Paulo, em Mileto? Entristecidos, o abraçavam afetuosamente, e o beijavam (At 20.37).

Há gente que “espiritualiza” tanto a vida, que para eles somente a oração já basta para demonstrar um pedido de perdão ou de amor para alguém. Entretanto, é preciso re-encontrar a pessoa, e assim foi o reencontro de Esaú, que até então estava disposto a matar seu próprio irmão Jacó. Mas ao vê-lo, Esaú correu-lhe ao encontro e “o abraçou; arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou; e choraram” (Gn 33.4). Com certeza houve a cura para ambos de um passado de ódio e incompreensões. O gesto do abraço afetuoso dispensa qualquer palavra.

Ter compaixão significa aproximar-se de quem sofre, enquanto ter dó sugere distância. Por diversas vezes no Evangelho Jesus demonstra compaixão. É uma palavra cuja raiz significa “sofrer com”. Nela não cabe explicações fáceis ou superficiais.

Cumprir as amáveis palavras de Paulo para que levemos “as cargas uns dos outros” não é coisa fácil, pois vai contra o individualismo arraigado em nossas vidas, atrapalha o nosso comodismo, e nos torna responsáveis por mais alguém além de nós mesmos. Quem está disposto a isto?

As maiores demonstrações de narcisismo e desfile de egos, não estão apenas nas passarelas da moda ou na vida fútil dos milionários, mas por incrível que pareça se apresenta também nos grandes ajuntamentos de fé dos que vão buscar a “sorte grande” com Deus. Ali, cada um só olha para si, ninguém está preocupado com a necessidade do outro, com quem está ao seu lado, e não tem o menor interesse em viver uma vida de comunhão com aqueles que o rodeiam. A palavra de ordem é: “eu quero o meu”! Mal sabem que estão buscando a ira divina.

Embora o estilo de vida libertino seja a marca mais conhecida que Sodoma deixou, entretanto, aos olhos do profeta Ezequiel, o grande pecado desta cidade foi sua “soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade... mas nunca amparou o pobre e o necessitado” (Ez 16.49). Sim, é isso mesmo que você leu: o individualismo exacerbado dos “shows da fé”, e o descaso com o outro, nos remetem a.... Sodoma!

Alguém disse: “Viver no céu com os irmãos, ó que glória! Viver na Terra com eles, aí é outra história”. Desconfio que quem não souber viver aqui, não está preparado para viver lá.

Conta-se que certa noite, em uma forte nevasca, um padre plantonista ouviu alguém bater na porta na sede da “Missão dos Órfãos” em Washington, DC. Ao abri-la ele se deparou com um menino coberto de neve, com poucas roupas, trazendo em suas costas, um outro menino mais novo. A fome estampada no rosto, o frio e a miséria dos dois comoveram o padre. O sacerdote mandou-os entrar e exclamou: Ele deve ser muito pesado. Ao que o que carregava disse: Ele não pesa, ele é meu irmão (He ain’t heavy, he is my brother). Não eram irmãos de sangue realmente. Eram irmãos da rua (há uma versão, não sei se verdadeira, que a composição eternizada pelos The Hollies, teve como inspiração esse fato*).

O que importa mesmo, é a reflexão que isso nos traz: “Ele não é pesado, ele é meu irmão”. Talvez devêssemos chorar nossa falta de paciência com nossos irmãos, talvez precisemos trocar nossos fardos pelo fardo que Jesus deseja para nós.

Um dia Jesus propôs uma troca para mim. Ele viu minha situação, meu cansaço, e disse-me: “venha até mim, você está cansado, deixe a sua carga aqui, junto à cruz, e pegue o meu fardo”. A principio relutei, mas como não tinha nada a perder, aceitei. Hoje, estou aprendendo a caminhar com o peso que Ele colocou sobre minha vida. Surpreendentemente, descobri que é mais leve que aquele que eu levava. Pesado é viver egoisticamente para si. Dureza é tentar satisfazer compulsivamente um ego insaciável. Problema é olhar com obsessão para o seu umbigo, preocupando-se com cada ruga, cada dorzinha que surge, com sua segurança, seu dinheiro, seu descanso... Não é de se admirar estarmos convivendo com o surgimento de tantos distúrbios da alma.

Troque o seu fardo também. O que Deus quer te dar não é pesado.... é o seu irmão.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

(*) Recorde a canção original:
http://www.youtube.com/watch?v=2KcIaYSqJds

Ele Não É Um Fardo, Ele É Meu Irmão
A estrada é longa
Com muitas curvas sinuosas
Que nos leva quem sabe onde
Quem sabe onde
Mas eu sou forte
Forte o bastante para carregá-lo
Ele não é um peso, ele é meu irmão
E assim continuamos
Seu bem-estar é a minha preocupação
Não é um fardo carregá-lo
Nós chegaremos lá
Pois eu sei
Ele não seria um estorvo para mim
Ele não é um fardo, ele é meu irmão
Se estou absolutamente sobrecarregado
Estou sobrecarregado de tristeza
Que o coração de todos
Não está repleto de alegria
De amor, de uns pelos outros
Esta é uma longa longa estrada
Da qual não há retorno
E enquanto estamos a caminho dela
Por que não partilhar?
E a carga
Não vai me pesar absolutamente
Ele não é um fardo, ele é meu irmão
Ele é meu irmão
Ele não é um fardo
Ele é meu irmão

sexta-feira, 18 de junho de 2010

RAZÃO E SENSIBILIDADE

“Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10.16)

O filme inglês Razão e Sensibilidade (1995) narra a história de duas irmãs que diante das dificuldades financeiras da família adotaram formas diferentes de enfrentar a vida: uma, mais prática, valeu-se da razão como condutora de suas decisões e a outra apoiou-se na emotividade como resposta. Na verdade, e a grosso modo, este é um pêndulo que todos nós precisamos aprender a nos equilibrar.
Carl Gustav Jung desenvolveu a teoria que possuímos quatro funções psicológicas fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. A seu ver, saudável é aquele capaz de transitar bem em cada uma dessas funções, para poder dar a melhor resposta que o momento exige. Coisa difícil, pois o problema é que costuma haver a preponderância de uma delas, que ele chama de “função superior”, e uma conseqüente dificuldade de transitar pelas outras funções.
Jesus deseja trazer unidade, equilíbrio e estabilidade à nossa personalidade. Da mesma forma que o Eterno organizou o caos do Universo, ele também pode trazer harmonia e beleza a cada um de nós. Ao preparar seus discípulos para enfrentar as duras experiências da vida de fé, Jesus adverte-lhes para que fossem “prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Ou seja, o Mestre os instrui para combinar a prudência, sagacidade e inteligência própria dos ofídicos, aliada à simplicidade das pombas. Numa tradução mais livre, que complementassem a razão com a sensibilidade.

Quando não desenvolvemos adequadamente a razão, tornamo-nos presas fáceis dos enganos e sofismas, e alguns, “tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé" (1Tm 1.19). Somente crer não basta: também é preciso pensar corretamente.

Abandonando a razão e a boa consciência, nos tornamos como irracionais, e foi isso que quase levou o salmista Asafe a “escorregar”. Mas ele confessa e reconhece a origem de seu problema: “eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à Tua Presença” (Sl 73.22).

A irracionalidade nos aproxima dos animais e nos leva a agir mediante impulso. “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento” (Sl 32.9), diz a bíblia. Confesso que os erros cometidos em minha vida – e não foram poucos – quase sempre ocorreram quando deixei a razoabilidade de lado. Ao abandonar a racionalidade, passamos a decidir com o fígado. Creiam-me: a bílis é uma péssima conselheira.

A primeira vítima do agir irracional é o diálogo. Já tentou conversar, num bom nível, com alguém exasperado? Desista, pois as palavras que você diz nunca serão as palavras ouvidas. Muitos confessam depois: “fiquei como fora de mim”. Ora, quem está “fora de si” não tem como analisar corretamente o que estão lhe falando. Peça para alguém irado definir algumas pessoas ao qual não mantém bom relacionamento, e você verá o quanto a raiva “deforma” e “demoniza” o outro. É por isso que Paulo pede que sempre “a paz de Cristo seja o árbitro no coração”.

Há sempre a possibilidade de o pensamento tornar-se a “função superior”. Até aí nada demais, porém se ele estiver desacompanhado da sensibilidade, para lhe dar equilíbrio, sensatez e temperança, o resultado pode ser nefasto. A posse da razão, sem o freio da sensibilidade, torna as pessoas cruéis, cheias da “verdade”. Deus nos livre dos cheios de razão.
Quando os aspectos saudáveis da sensibilidade são rejeitados, sem possibilidade de aflorar para fazer parte da personalidade, acaba por deixar a pessoa “pesada”, faltando-lhe a leveza, o bom-humor, o chiste. Ora, tudo que é rejeitado em nós ou impedido de se manifestar não pode contribuir no desenvolvimento do ser. E o que é pior: adoenta.

Por outro lado, possuir sensibilidade sem o apoio da razão produz gente “hipersensível”, que faz drama dos menores e irrelevantes acontecimentos, dá um valor excessivo aos seus sentimentos, e o mundo é visto e julgado – não a partir da realidade – mas do que ele está sentindo. É claro que se decepciona facilmente com todos que o cercam, e vive em constante flutuação emocional.

É preciso saber para que lado pendemos e que aspectos importantes da vida não estão sendo vivenciados. O Senhor espera de nós um desenvolvimento de todas as funções próprias de uma personalidade saudável. Se assim não for, ficaremos eternamente presos às reações infantis, e aos pensamentos próprios da adolescência.

As coisas espirituais são assim: requerem o empenho da totalidade da constituição de nosso ser, para que não sejamos cristãos “mancos” que vivem parcialmente de suas funções. É por isso que somente podemos amar a Deus de verdade se for de todo nosso coração, toda nossa alma, todo nosso entendimento e toda nossa força (Mc 12.30).

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Eliabe-“ismo”: Resquícios da personalidade de Eliabe, irmão de Davi, na geração chamada pós-moderna - somos seres funcionais, nada mais que isso

1Sm 17.28: Ouvindo-o Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se-lhe a ira contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a tua maldade; desceste apenas para ver a peleja.

A Bíblia é também uma inspiração divina que fala do ser humano nos seus momentos críticos-existenciais; situações que a humanidade se percebe exposta e vulnerável à inimigos maiores e melhor preparados. O caso de Eliabe e Davi ilustra muito bem isso, o cenário em que se desenrola o texto bíblico é de um exército com medo de um gigante filisteu chamado Golias.

Um momento de descontrole emocional causado por uma tensão, não necessariamente me faz agir descontroladamente, pode, pelo contrário, fazer pular de dentro de mim aquele meu jeito real de enxergar a vida, e de tratar cada pessoa conforme eu sempre achei que elas deveriam ser tratadas. O desabafo do irmão mais velho de Davi, Eliabe, quando se reportou ao mais moço da casa de seu pai Jessé, nos fala muito sobre o que Eliabe pensava dentro de si sobre seu irmão Davi.

O descontrole psicológico, gerado pela presença marcante do gigante, fez com que Eliabe colocasse para fora o que ele pensou sobre Davi talvez durante todos os anos de convivência familiar, desde a infância. E mais, na fala de Eliabe fica-nos revelado um problema social concreto: o perigo de olhar as pessoas a partir de suas funções – funcionalismo - à isso eu chamei de Eliabe-ismo - que não me queimem por isso nos caldeirões efervescentes dos laboratórios de filologia.

A tendência de Eliabe é a nossa tendência

Davi foi levar lanche para seus irmãos que estavam acampados preparando-se para a batalha contra os filisteus. Segundo o relato bíblico, o comentário de Davi sobre o gigante incircunciso de Gate ter afrontado o nome do seu Deus, enfureceu Eliabe.

A tendência de Eliabe é a nossa tendência: quando não podemos com “o maior” (gigante), focamos nossa raiva contra “o menor”; contra alguém que eu sei - vou conseguir exercer poder e domínio. Fazemos isso, conscientes ou inconscientes, às vezes pelo simples prazer ou necessidade de desabafar!

Numa atitude incontrolável na tentativa de aliviar a minha tensão, ou aquilo que me aflige e angustia, fujo do gigante: fujo dos problemas reais! Conseqüentemente eu ataco alguém que é um irmão, uma irmã da casa de meu pai.

A “geração Eliabe” também não aceita que um pastor de ovelhas, e/ou um entregador de lanches, derrube gigantes. Isso nos parece estranho demais aos olhos e soa desconectado nos nossos ouvidos.

Imagine o Jornal Nacional noticiando que um caseiro, zelador da fazenda do patrão, ou um entregador de pizza, conseguiu sozinho montar a defesa de seu filho acusado injustamente diante de um tribunal implacável – defesa que o libertou definitivamente. Isso sabemos ser possível, mas a verdade é que algo parece ficar fora dos seu “devido lugar”; a pergunta que salta é: mas e o/ advogado/a?

Pois foi algo semelhante que aconteceu com Davi, vítima da agressão de seu irmão mais velho que havia sido preparado para ser guerreiro. No manual de “Eliabe-ísmo”, guerreia quem foi preparado para guerrear; meu irmão mais novo do que eu, um menino, um cuidador de animais, um entregador de lanches, não derruba gigantes: sua função não é essa!

A atitude de Davi nos serve de inspiração
Nesse mesmo capítulo 17, no versículo 30, percebemos uma atitude fantástica da parte de Davi. Ele não argumentou com seu irmão numa tentativa de prová-lo alguma coisa; ele simplesmente desviou-se de Eliabe. Desviar-se? nós precisamos aprender mais sobre isso!

Tempos modernos exigem de nós que nos especializemos cada vez mais num montão de coisas. Exige de nós habilidades diversas, e mais do que isso, nos faz ser o que sabemos fazer. “Funcionamos” nos confundindo com as máquinas, transformando-nos em seres funcionais, e somente isso. Recebemos pela nossa função, nos relacionamos por elas, nos organizamos à partir delas, sobrevivemos por elas; etc, etc, etc.

Davi nos mostra que podemos sim: cuidar de ovelhas, e entregar o lanche quando nosso pai mandar; mas podemos também derrubar gigantes. Não existe aqui a discussão da “função”, a questão é se estou ou não disposto à derrubar “o gigante de cada dia”. O exército de Israel, embora preparado, amedrontado pelo tamanho do gigante se escondeu; não estavam dispostos e determinados a derrubá-lo. Davi, além de determinado, tinha a fé em Deus de que aquele gigante cairia por terra.

O que precisamos aprender e guardar é que, antes de partir para a luta contra o gigante Davi precisou cuidar da fúria do seu irmão; um de dentro da própria casa. Muitas vezes nos vemos nessa situação, saímos para derrubar o gigante, mas perdemos a batalha porque alguém “de dentro” ainda acha que eu não deveria ou não poderia fazer isso.

Antes de sair para derrubar o Golias, desvie-se dos iracundos que teimam em te dizer onde é o seu lugar, de onde nunca deveria ter saído. Isso parece um detalhe bobo, mas ninguém vence o gigante que está “lá fora”, se antes não se desviar dos irmãos de dentro, aqueles que querem te amarrar nas suas funções e ler você à partir do que você sabe ou não fazer.

Conclusão

Deus quer usar você, não importa a sua função, antes sim sua fé disposição em derrubar gigantes. Mas antes disso você precisa de disposição de se desviar dos que tentam te aprisionar nas funções e fazer dela sua camisa de força.

Frase: uma daquelas que mexe com a gente ...

"O verdadeiro sinal do cristianismo não é uma cruz, mas uma língua de fogo" (S. Chadwick).

Não que eu concorde plenamente com ela, mas a verddade é que ela nos faz pensar ....

Frase: uma daquelas que mexe com a gente ...

"O verdadeiro sinal do cristianismo não é uma cruz, mas uma língua de fogo" (S. Chadwick).

Não que eu concorde plenamente com ela, mas a verddade é que ela nos faz pensar ....

sábado, 12 de junho de 2010

NEM TUDO VAI DAR CERTO (BEM-VINDO À FÉ)

Seu mundo caiu, a doença chegou, a oração não vingou, a esperança falhou? Mas você ergueu a cabeça, enxugou as lágrimas e agradeceu a Deus pela vida? Bem-vindo à fé.

Acabaram-se as certezas, não há garantias, e os amigos sumiram? E mesmo assim você sorri à criança que passa, e de repente se pega cantando? Então, você adentrou ao círculo da fé.

A família lhe questiona: “O teu Deus, onde está?”, e quando você ora, costuma pedir: “Senhor, ajuda-me na minha falta de fé”? Então saiba que você foi admitido a um restrito grupo de pessoas espalhadas pelo mundo afora, que nos últimos dois mil anos se uniram em torno de uma cruz.

Que fique claro: não se trata de “fé na fé”, e nem de “fé em si mesmo”, como tentam nos passar os livros de auto-ajuda, mas fé no Deus da vida que é Senhor sobre todas as coisas.
Esqueça aquela visão do “venha para Jesus e dê adeus aos seus problemas”. Não dê ouvidos se lhe disserem que agora é só vitória, alegria e ausência de dificuldades. Jesus nunca prometeu que elas acabariam, mas pediu que tão somente crêssemos Nele.

Confesso que é bastante tentador viver a fé no modo condicionante, à maneira de Jacó:
“Se Deus for comigo, e me guardar na jornada... e me der pão para comer.... e me der roupa para vestir... e eu volte em paz para casa, então o Senhor será o meu Deus” (Gn 28.20-22).

Ou seja, Jacó apresentou um “pacote” a Deus: pediu a Sua presença, proteção, roupas, provisão, e sucesso na empreitada.... e caso recebesse, então, o Senhor seria o seu Deus. É a fé que coloca Deus contra a parede.

Mesmo com todas as promessa divinas estampadas claramente nas páginas das Sagradas Escrituras a todo aquele que crê, também somos como “Jacós” modernos, e fazemos lá nossas propostas para arrancar algo de Deus, numa clara demonstração que ainda não compreendemos muita coisa do seu amor.

Os pregadores da prosperidade vivem barganhando com Deus. E multidões indo atrás. Não se impressione com aqueles testemunhos de gente que tirou a “sorte grande” com Deus. Pra cada um que vai lá falar, há milhares que estão virando as costas ao Eterno por Ele não ter “cumprido” sua parte. Mas isso jamais será mostrado.

Tudo vai dar certo? Não, nem tudo vai dar certo! Coisas ruins podem acontecer a pessooas. Habitamos um mundo decaído, onde a morte, as doenças, e a injustiça podem resvalar em nós.

O profeta Habacuque nos leva para uma trilha dos que já entenderam melhor o amor de Deus. É a fé dos que não precisam de provas constantes da fidelidade divina, é a fé dos que perderam, mas na derrota ganharam, é a fé dos que nada tem, mas vivem como se tivessem tudo, e se aquietam mesmo diante do mais absoluto silêncio dos céus. Amar ao Eterno também é compreender a Sua ausência e os seus “nãos” para a nossa vida.
Esses são os que foram “apedrejados, provados, afligidos, maltratados” (Hb 11.37) e que não obtiveram a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a eles (Hb 11.39-40). Sim, é isso: aos nossos olhos, fracassaram, perderam. Aos olhos da fé, venceram.
A palavra-chave na vida desses cavaleiros da fé não é “se”, mas “ainda que”:

Ainda que a figueira não floresça,

Ainda que não haja fruto na videira;

Ainda que os campos não produzam mantimento....

Todavia, eu me alegro no Senhor.

Normalmente ficamos nos perguntando o porquê de certos acontecimentos, se é ação do Mal ou mera contingência da vida.... mas como explicar alguma coisa se a própria bíblia diz que “há justo que perecerá na sua justiça, e há perverso que prolongará os seus dias na perversidade” (Ec 6.15)?

Não se sustenta a idéia de que os filhos de Deus só receberão "coisas boas" na vida. Quando Paulo diz que “todas coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”, esse “bem” não significa necessariamente vida confortável, riqueza ou saúde, mas um “bem” que não está restrito à nossa limitada e finita visão material... Charles Spurgeon sofreu de gota e artrite a maior parte de sua vida, Calvino de uma dor de cabeça crônica, John Wesley não teve propriamente um casamento feliz, e Lutero lutava diariamente contra a depressão. Isso apenas para ficarmos em alguns homens de fé do passado.

Por isso, quando você orar, não espere que somente as coisas exteriores sejam passiveis de mudança. Possivelmente a resposta de Deus já foi dada, onde não foi mudado “lá fora”, mas “dentro” de você.

No mundo sempre haverá aqueles como Jacó que crerão em Deus somente se forem “abençoados” Há os como Habacuque que não se importarão e dirão sob quaisquer circunstâncias: “ainda que”. Estes aprenderam a viver contente em qualquer circunstância.

Viver pela fé é reconhecer que o Eterno de alguma forma estará por perto quando os dias maus chegarem.... e eles vão chegar. É saber que mesmo andando no deserto, às vezes Deus coloca um oásis para nós, para renovar nossas forças e nos alegrar. E nada neste mundo, nem morte, dor, doenças, solidão, incompreensão, poderá nos separar do amor de Cristo.
Deus é sensível aos mais leve movimento do coração em sua direção. Faça isso agora. Ele se agrada dos que esperam por Ele.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 17 de maio de 2010

CONVERSÃO GENUÍNA

Vivemos momentos onde a mais profunda confusão religiosa se abateu sobre nós. Novos profetas surgem a cada dia, novas mensagens e rituais, mudanças de paradigmas. A fé, sob o ponto de vista institucional enfrenta uma crise de credibilidade irreversível. Não há mais volta. Enormes catedrais e luxuosos templos de mármore servirão de mausoléu daquele Cristianismo perpetrado por Constantino e seguido até hoje. É o que já acontece na Europa.
Nada tenho contra templos, mas eles de forma alguma são Igreja quando ali falta o que existiu de mais precioso nos primeiros cristãos: a proclamação autêntica e transformadora da Palavra (kerygma), e o compartilhar de amizade e comunhão verdadeiras (koinonia). Foram esses os pilares da Igreja nos seus primórdios. Hoje, ao invés da koinonia, reina a pleonexia, que consiste no desejo de possuir “cada vez mais”, segundo a paixão humana de ter pelo ter.
Ser participante de um grupo religioso nem sempre testemunha favoravelmente sobre alguém. Aliás, existe a possibilidade dessa pessoa ter “piorado”. Foi o que aconteceu com uma parcela dos crentes de Corinto, porquanto eles se ajuntavam “não para melhor, senão para pior” (1Co 11.17). Reunir-se para buscar privilégios para si, ou fechar-se em guetos como forma de separação do mundo, não leva ninguém a se tornar melhor, ao contrário.

Logo, então, nos vem à mente a pergunta: Toda igreja é boa? Obviamente, não. Se a Igreja não for um canal de Deus para levar ao crescimento da fé, à comunhão, ao amor, ao desenvolvimento de nossa humanidade e ao serviço, ela se torna uma instituição estéril. Ouvir incontáveis pregações-chavão vazias de conteúdo, e participar de aglomeração que nenhum proveito maior traz, é melhor ir a uma livraria e ler um bom livro. Fará mais bem à alma.

Vida cristã aliada ao consumismo, às futilidades e espiritualidade desconectada do Espírito é pura religiosidade. Não é a toa que haja tanta doença, tanta neurose, tantos escândalos, líderes desafeiçoados, e performances midiáticas para agradar multidões. Sistemas religiosos que criam regras, leis, e dogmas contrários aos valores do Evangelho, provocam a anti-vida. Sacerdotes que, por decisão institucional não podem expressar sadiamente o Eros presente na constituição humana, o farão sadicamente. Repressão só pode reproduzir doença.

Cristãos nominais que só procuram a igreja para casar e batizar, e evangélicos que idolatram seus cantores e líderes, mostram que muita gente ainda não passou por uma conversão genuína.

Dizer que “segue” a bíblia, sem compreensão, também está longe da conversão. “Mas está na bíblia, meu irmão!”. Quantas vezes já ouvi essa frase para justificar idéias estapafúrdias, pontos de vista deturpados, e condenação de pessoas ou grupos ao fogo eterno.

“Está” na bíblia, mas não significa que “é” a Palavra. Poderia dar inúmeros exemplos de textos transformados em letra que mata. Um pequeno conhecimento bíblico às vezes é pior que nenhum. Alguém pode imaginar estar seguindo a bíblia, mas estará errando o alvo, se não compreendeu aquilo que o Espírito quis mostrar.

Se permanecermos somente na letra correremos sério risco de nos tornar cruéis, maldosos e justiceiros. Quantos pastores, zelosos por Deus, mas não com entendimento (Rm 10.2), têm destruído vidas apontando para versos bíblicos, vidas que poderão rejeitar o Eterno pelo restante de seus dias, pois conheceram um “Deus” feito à imagem e sentimento dos homens.

Quando falamos de conversão, a questão não é somente acreditar em Deus. É o de menos: isso até os demônios fazem e tremem (Tg 2.19). Aliás, o povo brasileiro é extremamente crédulo: ele acredita em Deus, em Jesus, em Macedo, Expedito, Krishna, Daime, vai à igreja aos domingos e frequenta alguma mesa-branca às sextas.

O que falta é a conversão genuína a Deus. E isso nada tem a ver com “adesão” a ministérios e é infinitamente mais que ter agradáveis sentimentos religiosos. Essa conversão atinge o homem na sua vida integral: toca a mente, o corpo, a atitude, a ética, o trabalho, os relacionamentos, confere nova disposição mental, e permite ser tomado por Aquele que é.

Antes da conversão genuína separamos as áreas da vida entre sagrado e secular, onde sagrado é aquilo que é competência de Deus: a oração, a igreja, o culto, e secular é aquilo ao qual eu detenho controle: o meu tempo, o meu dinheiro, minha diversão, meus planos.... Quando eu tenho uma conversão genuína, Deus adquire nova importância e age sobre tudo. Conversão genuína nos leva a uma vida de submissão a Cristo.

Ou Deus é o centro de nossa vida ou Ele não é nada.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

terça-feira, 11 de maio de 2010

A verdade: Texto base para nossa Reflexão João 18.33-40

“Que é a verdade?” (v.38)

Essa foi a pergunta feita por Pilatos à Jesus pouco antes de entregá-lo ao povo, que por interesses diversos, inclusive políticos, pediu, ao mesmo tempo que incentivou, o veredicto de morte.

Depois de seu questionamento apavorado, quase atrapalhado, o bem sucedido Imperador Romano Pilatos nem se quer aguardou a resposta de Jesus – de costas para Ele – foi ao povo sedento por ver sangue derramado: e tinha que ser o do nazareno. Fico tentando imaginar como soou nos ouvidos do Mestre, e nos corredores da morada celeste (Jo 14.2), a frase mais hedionda que a humanidade já proferiu: não soltem esse Jesus, o galileu, soltem Barrabás! (Cf. v. 40)

Ele começou a morrer bem antes de ser pregado na cruz

Relatos dos momentos que antecedem a morte de Jesus nos trazem uma sensação mista e controversa de pavor (pela crueldade romana), e de revolta (pelo assassinato de Jesus); mas também de alívio (porque seu sangue derramado é vida). Mas quase não percebemos que cometemos um erro ao relacionarmos estritamente a morte de Jesus ao madeiro, à cruz; como se pudéssemos celebrar o evento como uma data perdida na história; recuperada só na comemoração da ressurreição! um evento externo à mim, isolado do hoje da minha vida!

Nesse caso acabamos por incorrer num reducionismo patogênico e não nos avaliamos a nós mesmos na nossa caminhada de fé, sobre o que sabemos e cremos acerca da verdade chamada Jesus.

Podemos entender Jesus na cruz como o resultado da ausência e/ou morte de Deus e do temor à Deus no coração do povo; foi por isso que Deus se empenhou num plano ousado (Jo 3.16); a morte de Jesus foi necessária por ausências infinitas que separam o ser humano de Deus; evocada pelo pecado que afasta criatura do criador.

Significa que quando eu olho para Jesus na cruz e choro de emoção; e agradeço à Deus pelo seu amor incondicional; e quando eu olho para a cruz vazia tenho a feliz sensação de esperança na certeza do porvir: sim, eu entendo - o meu redentor vive! No entanto, se deixo de ver o evento de Cristo na cruz como se esse fosse um espaço isolado e distante de mim e olho com sinceridade para a minha história, sondando cada batida descompassada do meu coração, percebo: quase sempre, Jesus está às portas de um novo sepultamento!

Não havia espaço para Jesus no Império Romano, muito menos no coração de Pilatos; tampouco em nossos controversos corações. A crise hodierna com relação à verdade pode ser um indício da crucificação moderna do Jesus que deveria estar habitando dentro de cada um de nós; que ficou reduzido e perdido no evento da cruz.

As mesmas perguntas de Pilatos: Uma pessoa que passa pela crise de Pilatos, assim como ele, entrega a discussão de Jesus para o povo

Constantemente me vejo tentado discutir “verdades e o quanto elas são ou não são absolutas”. Tenho entendido que isso é um erro! Jesus disse que Ele é a verdade (Jo 14.6); isso significa que a verdade está garantida em Deus. Tudo o mais são pseudo-verdades, conceitualizações transitórias – porque fruto de teorizações humanas: o próprio ser humano é transitório. Paulo entendeu isso quando disse aos de Corinto que conhecemos “em parte”, o perfeito está por vir e quando Ele vier o “em parte” será aniquilado! (1Co 13.9-10).

Quando não tenho o entendimento de que a verdade está garantida em Jesus Cristo; quando não conheço e reconheço à Jesus como o Messias, Senhor e Salvador da minha vida, entro num conflito existencial interminável: comigo mesmo, com irmãos/ãs e com Deus. O resultado desse conflito existencial é que num momento de tensão, pressionado, acabo por crucificar Jesus ao consultar unicamente as expectativas do povo com relação à Ele; é exatamente quando perco a capacidade de acreditar e crer no que o meu coração me indica com relação à verdade (Rm 10.9-10).

O problema de Pilatos não foi ouvir “segundas e terceiras opiniões” (ouvir o povo), consideremos isso como atitude saudável! Pilatos sentenciou Jesus à morte quando não soube reconhecer n’Ele “O Caminho, A Verdade, e A Vida” (Jo 14.6). O erro não foi ir ao povo, e sim ir ao povo sem estar convicto em seu coração sobre a identidade divino-messiânica de Jesus.

Quando não estou certo da verdade: Jesus é o Cristo, Filho de Deus (Mt 16.16), acabo por conviver com “ares de morte”; até que esse vai ficando impregnado em mim, e domesticado nem me incomoda mais (1Timóteo 4.1-5): o evento real fica esquecido dentro de mim, reduzido na eventualidade da cruz. Não percebo que minha vida vai obedecendo aos contornos de um grande ponto de interrogação. Para nos certificarmos sobre isso, basta percebermos no texto bíblico compartilhado (Jo 18), a quantidade de perguntas através das quais Pôncio Pilatos se aproxima de Jesus.

Conclusão

Se ando em crise com relação à verdade, a mesma crise de Pilatos, estou muito perto de num momento tenso em que o nome de Jesus estiver em xeque, lavar as minhas mãos sobre o efeito real da vida abundante possível através do Messias. Consultar a opinião do povo não é essencialmente ruim, no entanto nesses momentos cabe uma auto-avaliação de à quantas anda a minha história com Jesus e Jesus na minha história; sobre a porção de Deus no meu coração e a minha intimidade com Ele.

Frente à frente com Jesus ...

Perguntas excessivas falam muito mais do descontrole com relação à minha existência, e minha inabilidade para com a verdade. Questionamentos filosóficos, palavras verbalizadas que buscam unicamente o relativismo extremo, se o meu coração está vazio de fé, não são tentativas sinceras de aproximar-me de Jesus; não me levam à lugar algum à não ser ao evento isolado da cruz: o que ficou perdido em alguma parte da história, na minha história, e em algum lugar dentro de mim - onde a pedra do sepulcro nem mesmo foi removida. Fica-nos a reflexão, na esperança de que ela, de alguma forma, nos oriente para a eternidade.

sábado, 17 de abril de 2010

Minha caminhada na/com a Igreja: três ensinamentos de Deus para mim nessa caminhada

Leia o texto bíblico que é base para reflexão desse artigo: 1 Sm 30.1-20

Introdução

Muitos não percebem em Davi um modelo ideal a ser abordado quando o assunto é caminhada cristã; no entanto, não podemos ignorar que Lucas ao reler a história de Davi menciona-o como “homem segundo o coração de Deus” (Cf. Atos 13.22).

O texto mencionado de 1 Samuel é muito interessante porque fala da situação de Davi e seus soldados ao chegarem das terras de Gate (dos filisteus) em Ziclague (cidade no Sul de Judá); Davi havia fugido para terra dos filisteus pela segunda vez pelos intentos de Saul: matar Davi!
Ziclague era uma terra de relevo sinuoso onde Davi e seus 600 soldados habitavam junto com seus familiares. Segundo relatos bíblicos, quando eles retornaram de Gate para Ziclague, ao chegar se depararam com a desolação da aldeia imposta pelos amalequitas; relata também que eles sentem profundamente a ausência de seus familiares. Tudo havia sido destruído e suas famílias levadas cativa.

É nesse contexto que a história bíblica se desenvolve e nos revela 3 grandes ensinamentos acerca da postura de Davi, e nos atualiza sobre qual deve ser nossa postura hoje na/com a/ em contexto de Igreja.

O primeiro ensinamento

Quando os 600 soldados de Davi chegaram em Ziclague, a Bíblia fala que eles choraram até perder suas forças (v.4) e pensaram inclusive em apedrejar Davi por raiva (v.6). Davi também chorou, e mais, ele se angustiou pela tentativa de linchamento. Seus companheiros de guerra agora queriam apedrejá-lo! No entanto, devemos nos atentar para o fato de que antes mesmo de consultar a Deus (v.8), e saber d’Ele as orientações devidas, Davi se reanimou no Senhor, seu Deus (v.6).

A palavra reanimar traz consigo todo um processo que ficou para trás, e para o hoje fala de recuperação dessa parte do processo passado: Significa que houve ânimo, houve desânimo, e por fim, reânimo! A Igreja precisa estar atenta à esse processo inerente ao cristão. De reânimo!

Nem sempre estamos bem! Nem tudo em nossa caminhada é sucesso, nem sempre estamos animados e fortalecidos para suportar os dias difíceis. Mas Davi nos dá uma lição incrível sobre confiar em Deus antes mesmo de saber a reposta que virá d’Ele. Não importam as circunstâncias, o processo de estar reanimado por Deus e em Deus é o que faz toda a diferença em nossa caminhada na/ com a Igreja.

Me lembro do trecho da letra de uma música muito bonita chamada “O meu Deus é soberano”, do cantor de música gospel Fernandinho; o trecho ilustra muito bem essa sensação de estar “reanimado” ...

“O meu Deus é soberano,
 O meu Deus é soberano;
 Se o meu coração parar de bater
 Ele sopra em minhas narinas e me traz de volta à vida”.

Deus já soprou sobre nós uma vez para nos dar a vida, Ele mesmo pode nos reanimar quando estivermos vivendo os tantos processos de “C.T.I. da alma”. Davi se reanimou, reanime-se você também existe uma caminhada proposta por Deus onde já somos mais do que vencedores em Cristo Jesus (Rm 8.37).

O segundo ensinamento

Depois que Davi consultou a Deus, ele obteve resposta favorável: Se ele fosse atrás dos salteadores conquistaria vitória; recuperaria seus pertences e família; e aos seus homens Deus permitiria o mesmo (v.8).

Na ida, durante a caminhada, Davi e 400 de seus homens encontraram um egípcio muito fraco por estar sem comida e sem bebida havia 3 dias e 3 noites (v.12). Após recobrada suas forças, alimentado, Davi lhe fez a seguinte pergunta: de quem és tu e de onde vens? (v.13). Essa pergunta certamente era crucial para aquele homem! Sua resposta foi sincera; mais ou menos assim: fui com os amalequitas na sua terra, destruímos tudo o que vimos pela frente e trouxemos com a gente seu gado e sua família. Ele contou ainda à Davi que era servo de um amalequita e que por ter ficado enfermo foi abandonado pelo seu senhor pois não poderia mais para auxiliar nos saques do bando. Logo à seguir, Davi, sempre estratégico, perguntou ao que antes estava enfermo se ele poderia guiá-los ao bando.

E foi exatamente o que aconteceu.

O segundo ensinamento para nossa caminhada na/com a Igreja nos é precioso. Deus pode nos surpreender usando quem Ele quer e do jeito que Ele quer. Lembremo-nos de 2 Rs 6 e 7; Deus honra a profecia de Eliseu contra os Assírios e ameniza o período de fome em Samaria usando 4 leprosos.
No caso do texto lido Deus usa para guiar Davi e seu exército um enfermo, invalidado pelo seu senhor. Se não fosse os conhecimentos desse homem Davi demoraria muito mais tempo de caminhada até alcançar os amalequitas, “saqueadores de bênçãos”: Deus colocou na frente de Davi e de seus homens, um abandonado, aquele que os levaria à possibilidade de recuperar suas famílias e pertences.

A Igreja não pode ignorar e passar de largo, e nem abandonar os soldados enfermos que vão ficando feridos no meio do caminho. Frequentemente me vejo num gabinete ouvindo alguém que quer terminar de matar o solado ferido por ser ele/a um peso para o ministério, para a Igreja. É muito difícil no meio de uma guerra a tropa ter que dar conta de seus companheiros feridos; não raras às vezes eles vão para cima das costas de alguém que além de se proteger tem agora que suportar os pesos de um colega que caiu ferido em combate. Mas é exatamente essa que deve ser a postura da Igreja em batalha; como um grande grupamento na guerra contra satanás (Ef 6.10) dar suporte real, em tempo real, aos realmente feridos (Ef 4.2). Não podemos fazer isso tão somente em troca de alcançarmos objetivos, isso seria egoísmo e um “des-Evangelho”, embora essa pareça ser a realidade da Igreja hoje, num mundo onde perdeu-se a perspectiva de gratuidade. Mas, certamente Deus usará nosso cuidado para com os combatentes feridos e abandonados no meio do caminho à nosso favor (1 Co 9.17).

Quando a Igreja faz a opção de não abandonar no meio do caminho os soldados feridos, certamente ela chegará com maior eficácia aos seus objetivos de edificação do Reino de Deus entre nós e para o mundo.

O terceiro ensinamento: os despojos!

Após Davi ter alcançado os amalequitas, a Bíblia nos relata que ele ressarciu para si tudo quando havia perdido – de certa forma foi restituído; aos recuperados de Davi foi dado o nome de despojos (cf.: v. 20).
Podemos então qualificar despojo como sendo “o algo” que antes era meu; mas que por algum motivo eu perdi, e agora recuperei novamente.
Uma pérola para nós cristãos!
Muitos de nós ficamos pedindo à Deus bênçãos incontáveis, e não cessamos de pedir. Mas na verdade não nos prontificamos, às vezes por medo, e outras por dificuldades diversas, em vencermos nossos gigantes. Para isso teríamos que identificar nossos inimigos e localizar num segundo passo nossos despojos. Mas em nossa caminhada na/com a Igreja, quase nunca nos preocupamos em vencermos nossos inimigos, e fechar as nossas brechas, esse é o caminho mais difícil. O caminho mais fácil é pedir outro para Deus.

Deus não abençoa mais uma vez, e mais outra (...) - e sempre assim num processo monótono, de quase monólogo: “eu peço e Ele me dá!”. O próprio Jesus disse que se eu pedir pão é isso o que eu terei das mãos de Deus: pão. Todavia se o pão for roubado, eu preciso lutar por ser restituído, e isso demanda energia para alcançar os amalequitas espirituais, os que saquearam minha Ziclague, e pegar meus despojos.

Deus quer que nos levantemos e marchemos, rumo a restituição do que um dia já foi bênção para nós; eia, fechar as brechas, vencer nossos inimigos espirituais (Ef 6.19; 2 Co 10.4) - aos despojos! Quando eu como parte da Igreja entender isso na minha caminhada de fé, certamente estarei disposto a verificar o meu passado, rever os meus erros e consertá-los; isso me aprimorará no processo de caminhada cristã, processo de santificação.

Conclusão

Minha caminhada cristã depende de eu querer estar reanimado em Deus e com Deus antes mesmo de saber o desfecho da minha história; depende do suporte que eu dou às pessoas que estão dentro e fora da Igreja, magoadas por algum motivo, feridas! E depende da minha disposição em visitar meu passado, meu presente e projetar por meio de Deus o meu futuro, para identificar os inimigos da minha mente, os que militam contra mim (Gl 5.17; Tg 4.1), vencê-los e reaver meus despojos.

Onde celebraremos a páscoa? (Mc 14.12-16)

O relato de Marcos sobre a pergunta que os discípulos fizeram à Jesus pode ser uma chave de leitura para nós cristãos entendermos o significado da celebração pascal em nossos dias.
A celebração

No Primeiro Testamento a Páscoa era uma celebração cultural, portanto localizada! Era o tempo em que o povo Hebreu trazia à memória o período do cativeiro em terras egípcias; e celebravam, com boa recordação, o livramento que Deus deu aos primogênitos das famílias cujas portas estavam marcadas nos umbrais com sangue do cordeiro imolado. Podemos afirmar também, que na Páscoa o Hebreu celebrava a libertação do povo caracterizada no êxodo, e a entrada na terra que emana leite e mel: terra prometida por Deus!

No Novo Testamento a celebração pascal vai aos poucos adquirindo um caráter festivo-universal; deixa portanto de ser uma festa localizada, ou hebréia somente. Deixa de ser específica de uma cultura e se transforma num compromisso cristão de famílias, e de cada um dos membros da mesma, para com Deus. Temos um exemplo esclarecedor disso quando, nas palavras do Apóstolo Paulo em sua epístola aos corintos (1Co 5.7-8), Cristo é o Cordeiro-Pascal imolado. Na medida em que Cristo foi sendo difundido Ele mesmo foi ficando universal; acontece o mesmo com a festa da páscoa e dos pães asmos. A dimensão do fermento que ficou de fora dos pães asmos no êxodo, concreta para o povo hebreu, agora é elevada à dimensão de “pecado-pureza”: no “ser”, no culto doméstico, na Igreja, e assim por diante.

Mas e hoje, o que significa a Páscoa? onde vamos celebrar então?

Essa pareceu ser a essência da pergunta dos discípulos à Jesus no relato do Evangelista Marcos. Vamos observar atentos o texto bíblico e ver o que estava implícito na resposta de Jesus.

Vimos que Jesus envia os discípulos à uma casa; o envio foi específico (o verbo apostello, no grego pode ser lido como “ir a um lugar estabelecido”). Alguns detalhes me chamaram atenção nesse envio a um local pré-estabelecido. Por exemplo, a ênfase que Jesus dá no “espaço-disponível”.

a. Espaço disponível fora da casa do homem – Trazendo um cântaro de água (v.13). Conforme Lv 23.2-3, no primeiro e último dia da celebração da páscoa e dos pães asmos não poderia haver esforço físico, de forma alguma; a menos que fosse para a preparação do que se haveria de comer. É possível que esse moço soubesse do risco de vida que ele corria por carregar um cântaro de água no primeiro dia da celebração. Seria isso uma afronta à cultura, ou uma forma de subversão? Ou um esforço necessário para que a celebração fosse possível? Consideramos essas duas possibilidades como plausíveis, mas não podemos fazer maiores afirmações nesse sentido. No entanto, sabemos com certeza que o homem estava indo para sua casa com um cântaro de água. Fica-nos claro a ênfase na caminhada desse homem fora da casa onde haveria de acontecer a celebração pascal: ele não temeu, por algum motivo, sofrer as penalidades da lei judaica.

b. Espaço disponível dentro da casa do homem – havia um cenáculo espaçoso, mobiliado e estava pronto (v.15). Conforme Jesus orientou seus discípulos, já havia o espaço necessário na casa; ali eles/as já estavam preparados/as para receber Jesus e seus discípulos/as para a celebração.

c. Espaço disponível no coração do homem – Diga ao dono da casa que é o Mestre (gr.Didaskalos, professor) quem pergunta (v.14). É muito interessante Jesus referir-se a si mesmo como “o professor”; certamente era uma família de corações aprendizes; uma família que estabeleceu com Deus uma relação de sala de aula, onde eles eram os alunos.

Conclusão

Já temos condições de, ainda que de forma básica, respondermos pelo significado de páscoa para nós hoje, e qual é a família que tem condições de celebrar uma páscoa genuína? Acredito que, com base nesse trecho lido do evangelho de Marcos, sim! Páscoa é Deus em Cristo, ressurreto e com a gente onde quer que estejamos; é Deus com a gente na nossa casa, nossos espaços!

Jesus tem buscado corações, e famílias, que “tenham condições” de oferecer-lhe hospedagem! Contrariando a lógica atual, onde “ter condições” significa gozar de espaços amplos para lazer, entretenimento e uma “conta bancária gorda”, Jesus busca uma família que trabalhe espaços cristãos; isso é ter condições de oferecer-lhe hospedagem. Ele busca a família que leva as Boas Novas para “o lado de fora”; e que não teme correr riscos quando isso for necessário. Famílias que tenham o espaço da casa preparado para sua chegada e para acomodar seus discípulos; um cenáculo precisa estar preparado em nossos lares, em nossos corações: Deus tem buscado, para estabelecer seu Reino de amor e justiça, famílias que gozem de um espaço favorável à fé.

Finalmente, a páscoa é celebrada onde os corações são um espaço vivo para a atuação de Deus; o espaço possível de estabelecermos com Ele uma relação de aprendizado: Ele é o Mestre e Professor, e nós alunos/as.

terça-feira, 30 de março de 2010

Páscoa Cristã: a fidelidade de Deus em meio à infidelidade humana


Pr. Ronan Boechat de Amorim*
Com toda certeza, a Páscoa Cristã é tempo de alegria, louvor, festa, gratidão e vitória, pois Jesus venceu a morte e ressuscitou, oferecendo-nos generosamente o perdão pela sua morte na cruz por todos os nossos pecados e a salvação para uma vida abundante e eterna.

Mas se a Páscoa Cristã, por um lado, fala do amor, da generosidade, do perdão e da fidelidade de Deus; por outro, denuncia a infidelidade humana a Deus, ao Evangelho, ao Reino de Deus, à Aliança estabelecida em Jesus.

Apenas alguns dias após ser aclamado e reverenciado durante a sua entrada triunfal na cidade de Jerusalém (Mt 21.1-7), Jesus experimenta rejeição, traição, abandono e uma tremenda solidão. Se a multidão, num momento, aplaude e louva; no outro, troca Cristo e seu Evangelho de Paz por Barrabás e sua luta armada contra o Império Romano. E, além do desprezo notório, a multidão quer espetáculo. E, como num show de horrores, pede a crucificação de Jesus.

Algumas infidelidades e traições humanas:

1. Jesus foi perseguido cruelmente pelos religiosos supostamente em nome do Deus (que se encarnou e veio em Jesus para nos salvar), matando, assim, o Filho de Deus em nome do próprio Deus.

2. Jesus foi traído por Judas Iscariotes, um de seus 12 discípulos, por 30 moedas de prata (Mt 26.14-16).

3. Pedro, um dos discípulos mais chegados a Jesus, o trai, negando-o por três vezes seguidas (Mt 26.69-75).

4. Marcos ou João Marcos, que mais tarde será discípulo de Paulo e Barnabé e que escreverá a primeira versão do Evangelho, foge nu, deixando para trás as próprias roupas (Mc 14.51-52).

5. Praticamente todos os discípulos e discípulas de Jesus, desesperançosos, abandonam o seguimento de Jesus, retornando para a "velha vida" de antes de conhecerem a Jesus. É o caso, por exemplo, dos discípulos que fogem de Jerusalém para retomar a "velha vida" em Emaús (Lc 24.13-35).

6. Os que não fogem ficam de longe, escondidos no meio da multidão, tal como as mulheres mencionadas em Mateus 27.55.

7. Outros continuam em Jerusalém amedrontados e escondidos numa casa com as portas bem trancadas (Jo 20.19 e 26).

Pode parecer bobagem, mas faço questão de explicitar que a infidelidade e traição a Deus é natural e obrigatoriamente também infidelidade e traição ao Reino de Deus, ou seja, à justiça, à ética, à solidariedade, à paz, à tolerância, ao projeto igualitário, à humanização das relações pessoais, etc.

A traição e infidelidade a Deus é traição ao projeto de sermos realmente pessoas humanas. Quanto mais distante e rompido com Deus, seu Evangelho e seu Reino, mais desumanos nos tornamos. É a presença e o amor de Deus que nos humanizam, nos convertendo às relações humanas e humanizadas, nos capacitando para o amor ao próximo, à promoção e construção da paz e da solidariedade, à prática da justiça e da tolerância...

O ser humano distante ou sem Deus é um ser profundamente desumano, por mais religioso e supostamente cristão que possa parecer. Felizmente a Igreja e Deus são diferentes. Graças a Ele que não são a mesma coisa nem se confundem. Pois há gente que está na Igreja há cinco, dez, vinte, cinquenta anos e que ainda não conheceu o amor, a graça salvadora e a intimidade do Senhor. Há gente que está na igreja, ocupa cargos importantes e de liderança, às vezes são religiosos(as), padres e pastores(as), bispos(as), etc, e que não conhece o amor e a graça salvadora e a intimidade do Senhor. Tão religiosos e nada espirituais. Supostamente tão pertos de Deus, mas na prática distantes infinitamente. Supostamente discípulos, seguidores, fiéis... mas na prática indiferentes, traidores, infiéis.

O próprio Senhor Jesus disse que se conhece a árvore pelos seus frutos. Mesmo uma árvore centenária plantada nos átrios do Senhor. De onde está pode-se ouvir os louvores e a proclamação da Palavra Sagrada. Mas isso não quer dizer absolutamente nada em termos de espiritualidade. Pois, como diz o apóstolo Paulo, só quem ama cumpre toda a Lei (mandamentos, vontade) de Deus.

Páscoa Cristã, a manifestação da fidelidade de Deus em meio à infidelidade e traição humanas. Páscoa Cristã, tempo de reafirmar nosso amor para com Deus, nosso compromisso para com o Evangelho, nossos serviços em prol do Reino de Justiça e Paz, nossa vida em prol de um mundo segundo o coração de Deus (tão claramente anunciado, publicado e explicitado em Jesus).

Celebremos com gratidão e alegria a ressurreição de Jesus, sem a qual nossa fé seria vã. E oremos para não cairmos na indiferença, tentação, infidelidade e alienação em relação ao Reino de Deus.

Feliz Páscoa! Que o Ressuscitado esteja em seu coração, iluminando sua vida, seus relacionamentos, seus caminhos e seu jeito de caminhar


* Ronan Boechat de Amorim é pastor da Igreja Metodista de Vila Isabel e coordenador do Conselho Editorial do Jornal Avante

quarta-feira, 17 de março de 2010

NOSSO DEUS NÃO É SÁDICO! SEU AMOR NÃO PRECISA DE CORDAS


É recorrente no meio cristão cantarmos músicas, às quais reputamos por “louvor e adoração à Deus”. No entanto, poucas vezes nos alertarmos para o que estamos difundindo no nosso discurso com o conjunto da letra. Isso me preocupa sim porque o que cantamos em nossas Igrejas é o que vai edificando a base teológica da Igreja, é o que orientará as “atividades na comunidade de fé daqui em diante”. Basta estudarmos um pouquinho mais sobre a importância da música na própria sociedade brasileira, também em outras culturas, e como ela foi e é usada. Por exemplo, no processo de colonização para catequetizar os ameríndios, e hoje como serva do marketing – vender produtos é o mais importante.

Quando estudamos a música, seu potencial e efeitos sob a mente humana, e como ela difunde doutrinas e costumes, teologias, dentre outros, percebemos o quanto ela pode calcificar valores que nem sempre prezam pela moral cristã e pela verdade. Certamente que não somos totalmente passíveis à esses valores mas instaura-se um processo sinergético onde ficamos vulneráveis. Isso não é ruim, mas só é saudável quando nos atentamos criticamente ao que cantamos.

Uma de minhas preocupações recentes são letras de músicas, não poucas, que deixam aparecer a expressão “o Senhor me amarrou à Ele com cordas de amor”. É o caso da música “Cordas de Amor”, composição de David Quinlan; e a música “Preso ao Teu Amor (Cordas de Amor)” cantada pelo “Ministério Salmistas Profetas e Adoradores (SPA)”, composição de Pra. Priscila Cruz.

Tenho entendido que tal expressão “o Senhor me amarrou à Ele com cordas de amor”, no sentido de “me capturou para Ele e me prendeu n’Ele” foi pinçada do texto bíblico cuja referência é Oséias 11.4a. Mas o sentido que essa expressão tem assumido no todo dessas músicas não corresponde ao sentido bíblico; especialmente se buscamos fidelidade ao contexto em que o versículo está citado. O pior é que tal expressão pode sugerir e discutir tendendo à incentivar, de forma subliminar, a busca pelo “amor possessivo de um deus sádico”. Percebe-se que outros desvios aparecem nas letras, mas não cabe aqui a discussão.

● Prossigo com o texto bíblico: Os 11.1-7

1 Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho. 2 Quanto mais eu os chamava, tanto mais se iam da minha presença; sacrificavam a baalins e queimavam incenso às imagens de escultura. 3 Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços, mas não atinaram que eu os curava. 4 Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me inclinei para dar-lhes de comer. 5 Não voltarão para a terra do Egito, mas o assírio será seu rei, porque recusam converter-se. 6 A espada cairá sobre as suas cidades, e consumirá os seus ferrolhos, e as devorará, por causa dos seus caprichos. 7 Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; se é concitado a dirigir-se acima, ninguém o faz .
● Em linhas gerais

Eu selecionei os vs. 1-7 para registrar no corpo desse texto, mas na verdade nem mesmo esse intervalo é suficiente para captarmos o contexto em que se insere o v. 4; esse que é retirado de seu contexto original para “caber como der” nas letras de músicas gospel. O ideal é recorrermos à unidade maior da discussão do tema proposto pelo profeta que está nos seguintes endereços: Oseías caps. 11 – 14.

Em linhas gerais, o texto nos fala da “frustração” de Deus por ter Ele se aproximado primeiro de Israel e ter atraído o seu povo para fora do Egito, e perceber que o povo agora se desviava d’Ele para a prática da iniqüidade.

Quando no v. 4 aparece a palavra “cordas”, precisamos ficar atentos porque o texto nos indica que a atração foi uma iniciativa divina sim, mas as cordas são humanas. O que isso significa? Se compararmos essa indicação com a cultura de peregrinação do povo nômade, e considerarmos no cap. 12 o v.9 - Ainda te farei habitar em tendas; percebemos que “cordas” remontam ao povo que nesse período habitam, ou deveriam estar habitando, em tendas.

Não podemos deixar de considerar que na cultura semita, os termos hebraicos expressam o cotidiano do povo, as palavras estão calcadas no dia a dia e em coisas concretas, e do concreto assumem sentidos que tentam exprimir a ação divina. Podemos ler então que Deus atrai para si um povo - peregrinos para fora do Egito, para fora da escravidão – povo que no trajeto habita em tendas; por isso a expressão “cordas humanas”. Portanto, se considerarmos a Bíblia, o termo não pode ser “Cordas de Amor que amarram”, isso é um erro de interpretação Bíblica, um equívoco teológico grave, e uma concepção prejudicial à Igreja.

O que prende o povo à Deus conforme as palavras expressas no livro do profeta Oséias é o laço: os laços sim são de amor! E isso é muito diferente. As cordas permanecem humanas, elas não amarram, e não são de amor - elas não prendem; antes, foram usadas no texto para designar a saída do povo do cativeiro – como se Deus arrastasse seu povo para fora com elas. Já a palavra hebraica traduzida por laço é עבתה ̀abothah, que pode ser traduzida como “folhagens entrelaçadas”. Nesse caso seria “folhagens entrelaçadas de amor”. O que nos faz presos à Deus é um amontoado de folhas que por Ele mesmo foram trançadas. Esse é o sentido do texto.

Espero que esse texto seja esclarecedor. Deus continue nos abençoando!
Pr. Antônio Luiz de Freitas Junior.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A ERA DOS INSATISFEITOS

“Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes” (Mt 11.17)
Insatisfação com o emprego, insatisfação com a escola, com o presidente eleito, com o cônjuge, com os rumos da vida, com a comunidade de fé... Adolescentes entediados, esposas frustradas, maridos desanimados. Essa é uma geração de insatisfeitos. A tecnologia e as facilidades da vida não nos tornaram pessoas mais felizes. Ao contrário.

E quando fatos desagradáveis acontecem, e orações demoram a ser respondidas, logo essa insatisfação é dirigida também a Deus. Há hoje espalhados pelo mundo um exército de decepcionados com Deus, pois Ele “permitiu” que acontecessem certas coisas que deveria ter impedido, ou então não respondeu da forma esperada aos desejos tantas vezes manifestos no coração.

Muitos mostram desgosto com Deus porque Ele não se “comporta” da maneira que se espera de um Todo-Poderoso. Na verdade, quando desconhece-se o caráter de Deus revelado nas Escrituras e o seu papel na História e na minha vida, é fácil ficar desapontado.
Insatisfação gera cobranças, destrói relacionamentos, e inventa culpados. Refiro-me à insatisfação crônica, repetitiva, padronizada, que já não consegue enxergar beleza, nem extrair prazer. Eliminando-se a hipótese de um diagnóstico de anedonia, que é a incapacidade de sentir qualquer forma de alegria na vida, é preciso ter coragem para buscar a origem desses sentimentos.

É prova de maturidade saber discernir se o problema está fora ou dentro de nós. Embora às vezes pareça estar no mundo exterior, na maioria das vezes reside no próprio interior. Pretendo demonstrar que o problema pode não estar exatamente no “objeto” da nossa insatisfação.

Jesus mostrou aos religiosos de sua época a eterna insatisfação que viviam, dizendo que eles eram como meninos que não queriam brincar: “Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações e não pranteastes” (Mt 11.17). Ou seja, quando deveriam dançar e cantar, ficavam carrancudos, e quando a brincadeira mudava, também não pretendiam participar. Quer Jesus realizasse milagres, ou quer João Batista pregasse, não havia reação positiva, eles permaneciam insatisfeitos.

Creio que essa doença sempre esteve presente junto ao povo de Deus. A grande murmuração que os judeus levantaram no deserto, com o maná enviado pelo Eterno, era uma forma de insatisfação. Foi-lhes dado este “cereal do céu”, mas o povo preferia claramente as carnes do Egito. O que havia de errado com o maná? O problema não era o maná em si, mas o estômago de quem comia o maná. Lição: Aquilo que Deus dá, muitas vezes não agrada ao paladar, e a as carnes do Egito (nossa antiga vida) parecem ser mais palatáveis.

A contrariedade e o aborrecimento com as pessoas que nos rodeiam, logo pode ensejar um pensamento de afastamento delas: “Ó Deus, em ‘algum lugar’ deve haver gente mais amável, mais solícita, e que mereça a minha presença....”. Se o caminho fosse promover a “troca” daqueles que provocam aborrecimento, geraria uma instabilidade tal que tornaria impossível qualquer relacionamento duradouro, pois tão logo atualizasse sua satisfação, em pouco tempo o mesmo problema voltaria a se repetir com as novas pessoas.

Quando temos dificuldade em aceitar a falibilidade do outro e a incapacidade do próximo de gerar satisfação para mim o tempo todo, eu me decepciono.

Os profissionais em educação sabem que quando a criança está dispersa, agitada ou agressiva em sala de aula, ela está simplesmente refletindo as perplexidades e a impotência existentes em seu coraçãozinho, provavelmente originadas em sua casa. Quando esta mesma criança atinge a idade adulta, e se torna integrante de uma comunidade de fé que siga os padrões bíblicos, percebemos que a maior parte da insatisfação e contrariedade demonstradas por ela tem mais a ver com seus problemas familiares, seus conflitos emocionais e existenciais, e menos com a fé, a pregação, os dogmas ou doutrinas da igreja.

É por isso que se torna quase impossível agradar a um insatisfeito contumaz, pois a queixa dele não é somente pelo que você “faz”: há um componente interior que precisa ser trazido à luz. Em última análise, a insatisfação recorrente é uma doença dos olhos, é um “não-estar-presente-aqui”, pois a alma está vagando sonhadora em algum lugar.

Talvez o personagem bíblico mais mal-humorado e insatisfeito, tenha sido o profeta Jonas. Sua cruzada evangelística havia sido um sucesso, e sua pregação convertera toda uma cidade. Nenhum profeta jamais conseguira tal feito. Era para estar feliz. Mas não estava. Havia uma predisposição interior que o impedia de se alegrar. Deus lhe passa uma reprimenda: “É razoável esta tua ira?”.
Talvez o Senhor também esteja nos perguntando: “É razoável o teu descontentamento, o teu desprazer, o teu olhar de enfado, onde nada está bom?”

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O QUE REALMENTE IMPORTA


Há muito poucas coisas na vida que realmente importam. E saber reconhecê-las é prova de sabedoria. Por isso eu creio que não seja possível saber o exato valor das coisas enquanto a alma não for banhada pela luz que vem do Alto. Ou seja, se o Eterno não tocar profundamente o nosso coração, e não mudar os nossos olhos, teremos uma existência marcada por constantes erros de valores.

A ausência de Deus na vida do homem o impulsiona a gastar-se por “nada”, a lutar por “coisa nenhuma” e a se enriquecer com “contas de vidro”. É famosa a história do desbravador Fernão Dias que no século XVII se embrenhou pelo interior obcecado pela beleza das esmeraldas e morreu apertando entre às mãos um punhado de pedras verdes, que imaginava serem aquelas, quando na verdade tratava-se de um mineral sem grande valor.

Há muita gente com os olhos vidrados correndo atrás do vento, correndo atrás de prestígio, de reconhecimento, agarrados às coisas que imaginam serem preciosidades, e de repente os anos passam, a vida é perdida, e o prazer se esvai entre os dedos....

Conta-se que um milionário texano encontrou uma freira no Pacífico cuidando de leprosos, e lhe falou: -“Irmã, eu não faria isso por dinheiro nenhum do mundo”. E ela respondeu: -“Eu também não meu filho, eu também não”. Ela possuía a paz e a serenidade de alguém que descobriu o que realmente importava.

Não saber o que de fato importa na vida é perder-se em frivolidades, em sensibilidades, é se machucar por nada. Uma jovem médica infectologista foi trabalhar com pacientes terminais contaminados com o HIV. Questionada sobre o que isso mudou em sua vida, ela disse: -“Aprendi a me alegrar com as pequenas coisas... e perdi a paciência de lidar com pessoas que reclamam de tudo na vida”. Assim como ela também acabou minha paciência em lidar com cristãos mimados presos à futilidades.

Valorizar as pequenas coisas... não foi isso justamente o que Jesus veio nos ensinar? Ao homem que queria construir celeiros para armazenar sua produção, e passar o resto de seus dias comendo , bebendo e regalando-se, Ele chama de “louco” (Lc 12.20). Também é pedagógico o texto em que um jovem rico se aproxima do Mestre e pergunta o que precisa fazer para herdar a vida eterna. Jesus, olhando para ele, o amou e lhe propôs: “Uma coisa ainda te falta: vai vende tudo o que tens e dá aos pobres” (Mc 10.21). O jovem, sem dizer palavra, retirou-se dali triste, pois possuía muitas propriedades.

Que fique claro: o problema não está em possuir bens ou dinheiro, mas Jesus conhecia aquele coração e queria mostrar-lhe que o seu apego aos bens materiais deturpava-lhe a visão correta da vida, e por isso pediu a ele uma renúncia. Aquele jovem precisava resolver essa questão existencial. O mesmo vale para nós: o que precisamos renunciar?

“Marta, Marta, andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa...” (Lc 10.42).

Somos as “Martas” de hoje que correm, se fatigam, vivem ansiosas, necessitam de remédios para dormir – pois não conseguem se “desligar”.... Somos as Martas que transformaram a simplicidade da vida em uma busca sôfrega de “mais e mais”, aliados a uma preocupação excessiva com tudo que se refere ao amanhã.

Em sociedades competitivas como o Japão as crianças são incentivadas desde cedo a se destacarem. E a escola deixou de ser lugar de aprender, mas de competir. Tragicamente isso tem provocado as maiores taxas do mundo em suicídio infantil.

Edwin Aldrin foi o segundo astronauta a pisar no solo lunar, logo após Neil Armostrong. Ao retornar, a pergunta que ouviu de seu pai foi: “Por que você não foi o primeiro?”. Depois disso sofreu de depressão e alcoolismo por dezoito anos.

Creio que todos concordamos que não há maior prazer que “comer, beber e gozar do fruto do trabalho”, como ensina Eclesiastes. Mas o homem simples de fé reconhece que tudo isso “vem da mão de Deus, e separado Dele ninguém pode se alegrar verdadeiramente”. Ou seja, separado de Deus tudo perde o seu valor.

O Evangelho nos remete a uma nova forma de viver. Lançar um novo olhar é fundamental para a compreensão do exato valor das coisas. Para o Evangelho, o mais importante não é ser o primeiro, nem ter o melhor salário, ou obter maior reconhecimento....

Peça para o Pai lhe mostrar o que realmente é fundamental em sua vida. Você vai ficar surpreso ao descobrir que se trata de coisas simples às quais, quem sabe, nunca se importou de verdade.

Poucas coisas são necessárias para uma existência feliz. Espero que você faça as melhores escolhas.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

DE QUAL “DEUS” VOCÊ ESTÁ FALANDO?


Para uns, “Deus” é uma força impessoal, uma energia emanada do cosmo ou da natureza, e basta você procurar os lugares e objetos de emanação para ficar cheio “Dele”.

Para outros, “Deus” é a natureza, são pessoas, e em algumas religiões ele é visto nas aves e nos animais. É a confusão entre Criador e criatura.

Os gregos tinham um panteão de “deuses” e para não ofender a nenhum que porventura tivessem esquecido, havia lá também um altar a um tal “deus desconhecido” (At 17.23).

Embora a caridade dignifique o homem e seja uma virtude desejável a todos, pois “Deus é amor” (1Jo 4.8), não podemos, entretanto, inverter a proposição. Em outras palavras: “amor não é Deus”.

Por conta dos meios midiáticos, tem crescido entre nossa gente a idéia de que “Deus” é uma espécie de gênio da lâmpada, pronto para ser “esfregado” e atender ao seu pedido.

Diante de tantos entendimentos contrários é bom saber de que “Deus” se está falando. Hoje há “deus” para todos os gostos, e todas as tribos urbanas tem o seu, criados na mente do homem à sua imagem e semelhança. Esses deuses não me interessam, e nada tem a ver com o Deus das Escrituras. Explico:

Eu não creria num Deus passivo, previsível, enquadrado, e que aceitasse barganhas dos fiéis toda vez que ouvisse o tilintar de moedas caindo no gazofilácio.

Não poderia crer jamais num Deus “pau mandado” que obedecesse a comandos de homens que determinam o que Ele precisa fazer.

Duvidaria sim, de um Deus que esquecesse milhões de famélicos descalços em algum canto perdido da África e do Haiti para abençoar uma elite de fiéis com um carro novo e reluzente, só porque lhe fizeram alguma espécie de sacrifício ou usaram as palavras “certas” em suas orações.

O Deus que eu deposito minha fé não faz milagres à “baciada” nem freqüenta os programas de TV que levam o Seu Nome. De igual modo também não creio que seja possível dissecar o Todo Poderoso sob a luz dos holofotes, e dizer quais são os seus desígnios, só porque um pastor, bispo ou apóstolo afirma que “conversou” a viva voz com Ele nesta manhã.

O Deus que eu confio não é um produto exposto nas prateleiras, ao qual se pega para resolver algumas questões mais urgentes, como se fosse um talismã. Ao contrário, Ele deseja ser conhecido pelos que o buscam com infinita paixão e amam a Sua Palavra.

Creio num Deus que surpreende. Ele se permite encontrar em meio aos louvores, nas preces, e nas reuniões que fazemos em seu Nome, mas é impossível tentar retê-lo aos quadrantes do templo. Seu Espírito é livre, e sopra onde quer, por isso se dá a conhecer também nos lugares mais improváveis. Querer vê-Lo apenas na igreja é fechar os olhos à Sua presença na vida.

Creio num Deus que está comigo, na minha dor, que entende minhas fraquezas e limitações, e reconhece a minha fé relutante, que continuamente suplica: “ajuda-me, Senhor, na minha falta de fé”. Aprendi, com o tempo, a aceitar que Ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e cair a chuva sobre quem merece e sobre quem não merece. Aliás, ninguém é merecedor, simplesmente Deus é bom, e isso independe de nossas ações.

O Deus que eu amo e prego atrai as pessoas por sua benevolência, pois “é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento” (Rm 2.4) – e não o medo do inferno. Ele tem sua morada na luz, mas pode se ocultar na escuridão, anda em meio à tempestade, afofa a cama do doente, habita no imponderável, e me diz que mesmo em meio às mais difíceis circunstâncias Ele tem o mundo em Suas mãos.

Deposito a fé num Deus capaz de reverter os maus desígnios do meu Adversário, transformando o mal em bem, pois “nenhum dos seus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). Descanso na certeza que Ele anula todas as maldições imprecadas contra mim, e que não prevalece feitiço ou encantamento contra ninguém do seu povo (Nm 23.23).

Temo a um Deus que relativiza os diagnósticos médicos. Para Ele é indiferente se os exames dizem que se trata de um mal curável ou incurável, pois o Senhor do Universo está acima das categorias de “possível” ou “impossível” dos homens, simplesmente porque nada lhe é difícil: é Ele “que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela” (1Sm 2.6).

Sirvo a um Deus infinitamente maior que Aquele pregado pela igreja católica, pelos ortodoxos, protestantes ou pentecostais, simplesmente porque nenhum sistema religioso tem o pleno conhecimento de Sua mente, de Seus mistérios e de Sua Sabedoria, e nenhum grupo ou igreja possui a primazia do Seu Nome!


Pr. Daniel Rocha
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