sábado, 26 de dezembro de 2009

SÓ POR HOJE


“Não há um justo; nem um sequer”


Não há nada mais nefasto na vida do cristão que a presunção. Presunção de justiça própria, presunção de bondade, presunção de virtuosidade. É o orgulho espiritual em sua forma bruta. Em contrapartida, quem freqüenta os Alcoólicos Anônimos (AA) – que não são igreja – possui uma consciência muito clara de seu estado e de sua doença. No “Programa dos 12 Passos”, criado por eles em 1935, há várias confissões, entre elas: “Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”. Como afirmou Blaise Pascal: “A grandeza do homem é saber-se miserável”.

Cada um que chega às reuniões com o seu vício é recebido com sorriso largo e gestos de apoio. Fiquei pensando que nenhuma igreja saudaria com alegria alguém que se confessasse alcoólico ou dependente de drogas. Nos AA o participante admite a responsabilidade total e completa por todo o seu comportamento. Nas igrejas a culpa quase sempre acaba caindo nas malvadezas do Diabo. Lá ninguém diz que “era” alcoólico cada vez que se apresentam, pois percebem que diariamente lutam contra o mal que continua “existindo” dentro de si. Seria muito bom que cada cristão também reconhecesse sempre que “é” pecador.

Não há espaço para a opulência ou superioridade. “Se tenho de me gloriar, me gloriarei nas minhas fraquezas”, diz humildemente Paulo.

A vida do cristão se dá dia após dia. Se ontem falei e agi em santidade, não há garantias de perpetuidade desses gestos agradáveis a Deus amanhã. Se eu der ocasião à carne, por achar que preguei um piedoso sermão, a vaidade me dominará. O mesmo Pedro que acabara de confessar “tu és o Cristo”, logo em seguida ouve de Jesus um “arreda-te Satanás”, quando ele tenta impedir o Mestre de caminhar para a cruz.

Ninguém cai de uma vez, mas cai-se aos poucos. O salmista confessa que faltou pouco para escorregarem os seus pés (Sl 73.2). É preciso vigiar, é preciso descobrir as artimanhas e artifícios que o nosso inconsciente se utiliza para parecermos bons a nós mesmos.

Lidar com os pecados mais visíveis e grosseiros sempre foi a primeira grande preocupação do neoconvertido. Em pouco tempo ele se mostrará todo gabola porque já não bebe mais, não furta, ou adultera, enquanto vai sendo derrotado diariamente pelas “pequenas raposinhas”: má vontade, mau humor, intolerância, olhos maus, pensamentos mórbidos, descontrole verbal, inimizades..... Antes “furtasse”, ao menos isso o envergonharia e tomaria consciência de seu estado (“Sê pecador e peca fortemente, mas crê muito mais fortemente na Graça de Cristo”, escreveu Lutero a Melanchton). Entretanto esses problemas sutis passam imperceptíveis aos seus próprios olhos, pois quem convive diariamente com uma “leve” febre acaba achando-a normal, sem necessidade de tratamento.

Mas por que muito cristão sincero não percebe essas mazelas? Há um mecanismo de defesa em ação que tenta “eliminar” o impulso mal dos domínios da consciência através da repressão, mas ele continua a agir e a exercer profunda influência sobre a pessoa, apesar dela não se aperceber. Resumindo: sempre há uma distorção no olhar que lançamos sobre nós mesmos, e requer coragem olhar-se no espelho da Palavra e ser sensível ao Espírito Santo que habita em nós.

Não tenho dúvidas que estes precisam tanto de Deus quanto os AA, os NA (Narcóticos Anônimos) e os N/A (Neuróticos Anônimos). Ambos carecem da misericórdia divina: a diferença é que um reconhece e outro não. Um luta diariamente com sua fraqueza, seu pecado, suas tendências, permanecem atentos a cada impulso do inconsciente e a cada desejo que aparece de forma subreptícia (dissimulada). Outro se enxerga acima do mal.

Seguir Jesus implica em passar pelo crivo do Espírito as pulsões, vontades e desejos. Precisamos de cura, e isso não é fácil, ela vem devagar, com consciência, com vontade, e com ajuda do Eterno. Não creio em atos heróicos de supressão da carne, mas num processo que pede minha atenção dia após dia. Por isso:

Só por hoje quero fazer um silêncio interior, e ouvir a voz de Deus sussurrando em meu coração. Tentarei não murmurar das circunstâncias difíceis.

Só por hoje quero aprender a viver a minha vida presente, não ser dirigido pelo passado, nem ser tomado de ansiedade pelo futuro.

Só por hoje mostrarei simpatia por alguém que me tira do sério, terei mais paciência nas adversidades, e falarei devagar e com mansidão.

Só por hoje não exigirei das pessoas que as coisas sejam exatamente da maneira que eu quero: respeitarei a forma que os outros vêem.

Só por hoje não quero ficar me remoendo com os erros cometidos. Quero viver pela Graça e saber que em Cristo sou amado, liberto e perdoado.

Somente por hoje não farei drama de meus problemas, e orarei por um amigo distante.

E amanhã? Bem, se hoje eu conseguir viver de forma agradável a Deus, já serei mais feliz. Quando amanhã chegar será outra vez mais um hoje.... então vou começar tudo novamente.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

TEMPO DE ANUNCAR

Por Rev. Antônio Luiz de Freitas

"Está escrito na lei: Por homens de outras línguas e por lábios de estrangeiros falarei a este povo; e nem assim me ouvirão, diz o Senhor" (I Coríntios 14. 21)

Dentre as coisas mais difíceis para todo ser humano está a mudança de hábito. A força de um hábito adquirido leva as pessoas a agirem de forma mecânica e instintiva. Isto também pode estar ligado aos paradigmas e às crenças que herdamos de nossos antepassados pelas coisas que ouvimos e que vamos absorvendo em pequenas doses diárias tornando-se a "nossa verdade".

Muitas pessoas têm dificuldades tremendas em relação ao evangelho porque, em grande parte, o que receberam foi algo distorcido e, por vezes, mesclado com práticas destituídas da verdade. Há um provérbio popular que afirma que "quem conta um conto sempre aumenta um ponto".

Parece-me que Deus quis preservar-se deste perigo delegando aos próprios anjos a anunciação dos eventos mais importantes da história. No que tange ao Messias, o Cristo, sem fazer alusão ao AT, o "Ministério da Comunicação Celeste" entra em ação começando pelo anúncio do precursor a Zacarias (Cf. Lc 1. 1-20) e depois à própria Maria (Cf. Lc 1. 26-37). Mais tarde, o nascimento de Jesus foi também anunciado por anjos aos pastores que guardavam seus rebanhos na vigília da noite (Cf. Lc 2. 8-15). Depois de cumprido seu ministério terreno e haver consumado na cruz o plano de salvação, mais uma vez iremos encontrar a figura do anjo anunciando sua ressurreição (Cf. Mt 28. 1-8).

Temos que admitir que de todas as religiões que se propõem aproximar o ser humano de Deus o cristianismo é a mais difícil de ser entendida porque caminha na contramão da lógica humana: Concepção virginal, sem a participação do homem; A cruz, símbolo de maldição, que toma a forma de redenção; o sangue humano que contaminava os judeus torna-se o elemento purificador; a ressurreição, algo inadmissível para os gregos torna-se a razão da nossa esperança; a graça de Deus que chega a ser "escandalosa", conforme descreve Phillip Yansey em seu livro Maravilhosa Graça. Enfim, não há como nos dispor a anunciar este evangelho sem esperar resistência, porém, é impossível, mesmo aos mais descrentes, omitir o evento mais importante de todos os tempos: o nascimento de Jesus que dividiu a história em duas partes; antes e depois de Cristo! Nossos primeiros irmãos enfrentaram até à morte as mais cruéis perseguições por causa do amor a Cristo e assim a Igreja do Senhor, espalhada por todo o mundo, seguiu anunciando o evangelho, escrevendo a sua história. O Livro de Atos dos Apóstolos termina de forma muito diferente dos demais livros do NT. Nele não há uma saudação nem uma bênção final. É um livro que vai continuar sendo escrito pela Igreja enquanto estiver na terra e cada cristão é um personagem desta história. Gosto de me imaginar no lugar de algum dos antigos cristãos perguntando-me a qual deles mais me assemelho: João Batista; Herodes; Barnabé; Ananias e Safira; Filipe; Estevão; Pedro; Paulo; João; (...)? O marco histórico do nascimento de Jesus não deixa ninguém fora desta história. O mundo tornou-se um grande palco onde se desenrola este enredo. O que irá fazer a grande diferença é o papel que nos dispomos a desempenhar!

Em tempo de advento somos chamados não apenas a esperar, mas também a anunciar. "Mas também, se padecerdes por amor da justiça, bem-aventurados sereis; e não temais as suas ameaças, nem vos turbeis; antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós" (I Pd 3. 14-15).

Feliz Natal e um grande abraço do menor de todos os vossos conservos no Senhor Jesus. Aguardando a sua volta, sou,



PRALF/14/12/2009.

domingo, 20 de dezembro de 2009

NATAL: o milagre de um Deus que ama

Por Rev. Ronan Boechat de Amorim

Por muitos séculos o mundo não cristão e até mesmo a Igreja cristã tiveram dificuldades de explicar o mistério do Natal, ou seja, o mistério que envolve a encarnação de Deus em Jesus, que se fez feto na barriga de Maria, criança dependente dos cuidados e proteção da família e homem que morreu cruel e injustamente assassinado na cruz.

Influenciada pela filosofia grega, uma grande parcela do mundo daquela época em que Jesus nasceu acreditava que o mundo humano, histórico e material (esse mundo onde vivemos!) era uma espécie de purgatório, para onde algumas almas eram condenadas a vir e aqui serem provadas, até serem “remidas” (salvas). Essa salvação acontecia depois de sucessivas reencarnações até que a alma (a pessoa) em questão tivesse alcançado um grau de sabedoria tamanho que pudesse voltar ao mundo perfeito das idéias (qualquer semelhança com o espiritismo kardecista não é mera coincidência!). O mundo me que vivemos era mal, lugar de sofrimento, de provação... uma prisão para a alma!

Como pode um Deus onipotente e onipresente se tornar um feto e caber dentro da pequenez e fragilidade de um corpo hu-mano? Como pode um ser tão transcendente tornar-se depen-dente do amor familiar para poder nascer e sobreviver? Como um oceano poderia caber num balde?
Para muitos – gente de dentro e de fora da Igreja! – a encar-nação era um grande absurdo, pois um Deus soberano que se humilhava assim não merecia ser temido e adorado! Diante des-ses questionamentos alguns cristãos caíram na cilada de tornar o mistério mais palatável, compreensível e aceito e o reduziram a explicações que foram consideradas heréticas pela igreja: Jesus não era Deus, havia sido adotado na hora do seu batismo por Deus para ser o seu Filho. Ou: Jesus não era Deus, foi a primeira criatura criada por Deus.

Coube aos Evangelhos afirmarem a verdade: Jesus era Deus desde o princípio (cf. Jo 1:1-14), que por amor (Jo 3:16) veio ao nosso encontro para nos ensinar a viver bem (Jo 10:10).
Assim como a redenção oferecida por Jesus nos faz “nascer de novo” e nos torna em novos homens e novas mulheres, a redenção divina também transforma o velho mundo numa nova terra e num novo Céu (Is 65:17-25). A presença de Deus em algum momento, nós cremos, reencherá a terra da sua Glória. Jesus traz as primícias (primeiros frutos) desse Reino, desse momento novo. Jesus fez-se homem para que os demais homens e mulheres pudessem ver Deus. Ele veio ao nosso encontro para nos oferecer sua Palavra, seu exemplo, seu amor e sua própria vida para que nós pudéssemos ter vida abundante, vida eterna, reconciliados uns com os outros e reconciliados com Deus.

Segundo Fp 2:5-11, Deus esvaziou-se de sua Glória (humilhou-se) e fez-se carne (gente), mostrando que o mundo não é purgatório, mas o “palco” da redenção, lugar da ação salvadora de Deus, lugar profético onde vida, paz, justiça e salvação vencerão as forças da morte e do mal. Parte integrante do Reino de Deus (cf. Rm 8:18-25) e de onde o diabo e seus anjos serão lançados fora para dentro do poço de enxofre cujo fogo não se apaga nunca (Ap 19:19-21; Ap Ap 20:14). E a cerca e o portão do velho Éden vigiados por querubins (cf. Gn 3:23-24) cairão por terra e a Glória de Deus será derramada e alcançará toda a terra. E Jesus é o "sinal" mais latente e poderoso dessa derrubada: é o véu que se rasga, é o lugar do templo chamado Santo dos Santos que transborda e invade a nave do templo onde fica a congregação e começa a transbordar pelos átrios e pátios, pelas circunvizinhanças, por Jerusalém, Judéia, Samaria e os confins do mundo... É a santidade de Deus que santifica e santificará o mundo que agora vive parcialmente em trevas. É em caráter cósmico o que é descrito na relação conjugal e familiar em 1Co7:14. A terra não será o Céu, mas a terra e o mundo limpo pela palavra de Deus (Jo 15:3) será parte do Céu.
Portanto, não nos esqueçamos do centro do Natal: um Deus amoroso e salvador que vem ao nosso encontro para nos salvar.

Não nos esqueçamos do mistério do Natal: um Deus tão grandioso surpreendeu a todos (inclusive à ciência, à cultura, à teologia) e de modo misterioso foi gestado pelo Espírito Santo no ventre de Maria e tornou-se um de nós.

Não nos esqueçamos do significado do Natal: um Deus que por amor a nós faz o possível e o impossível, que opera sinais e milagres, que move céus e terra para poder nos salvar. O Natal cristão é o milagre de um Deus que ama.

Aleluia!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SEM TÍTULO .... E SEM FIGURINHA .... É SÓ UMA DICA ...

De tanto olhar, tentando entender,
fui perdendo o jeito de ouvir para entender.
Quando parei para tentar ouvir percebi o quanto era difícil - só ouvir, sem olhar!
Aí foi a visão que em mim, aos poucos, atrofiou.
E o conhecimento me faltava se eu estacionava em um desses extremos.

E eu ia vivendo e tentando entender!

Mesmo quando exercitava os olhos e os ouvidos, buscando sincronizar ao máximo suas potencialidades, algo parecia me faltar: era o cheiro que escapava aos olhos e aos ouvidos! E eu continuava sem entender!

Quando me dei conta do sabor; do toque que pega! Tudo me parecia tão distante, e tudo ficava tão confuso!

Eu sempre parava para tentar entender!

Me dei conta também do quanto era angustiante o vazio! Não queria ter amigos, pois tinha medo de me abrir à relacionamentos; não queria traçar objetivos significantes para minha vida.

E eu vivia tentando entender!

Hoje olho para tras, e entendo! Que os sentidos não funcionam se penso e vivo eles numa dimensão privativa, eu em mim mesmo!

Assim sou incompleto, sou sem vida, sempre falta!

Quando me abri às possibilidade de amizades ... e não temi correr os riscos inerentes à toda possibilidade de relacionamento que brotava feito água na rocha diante de mim ... minha vida pareceu fazer mais sentido! Porque onde duas ou mais pessoas se encontram aí existe a completude de todas as percepções mais importantes do ser ....

... cada qual na sua especialidade, desenvolvendo seus sentidos, exercitando sentido, gerando sentidos infinitos ....

Hoje eu entendo ... eu queria tentar sozinho, ter meus próprios méritos quando fosse mostrar minha sala de troféu! No meu egoísmo eu queria viver “eu para mim”! Mas foi tentando entender, sem nunca ter entendido que eu aprendi ...... sozinho eu não sou ninguém!

Aprendi que ..... se os sentidos do ser estão fundamentados numa percepção monológica de uma existência exclusiva, isso resultará sempre numa alma sem aspirações, num sujeito sem sentido, e que vai sempre tentar entender .... estagnado sem nunca entender!

Ainda não entendi tudo ... mas fica o convite: se abra à novas amizades, se relacione mais, viva mais seus sentidos ..... de forma comunitária ao invés de refugiado em si mesmo dentro de um quarto frio e sem vida!

Aposte no aprimoramento de seus relacionamentos! Quaisquer que sejam eles, só assim serão de verdade: intensos e reais!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

DA FRAQUEZA TIROU FORÇA


“...quando estou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.10)



O perfil de uma pessoa poderosa e bem sucedida normalmente está associado à sua capacidade de vencer, convencer e impor-se, seja pela beleza, pelo talento ou pela fortuna que detém. Anualmente é publicado o ranking das 100 pessoas mais influentes do mundo. Nele estão presidentes, generais, estrelas do cinema e bilionários. Há algo em comum em todos eles: o poder que exercem e o fascínio que suscitam.

Fecha o pano e corta rápido para a Bíblia. Entramos num mundo paradoxal. Ali não é mais o forte ou o poderoso que conta, mas o pobre, o fraco, o simples. A Bíblia é um livro que contém relatos surpreendentes de lutas e desafios que contam de um lado os fracos e impotentes e de outro lado os detentores de força e poder. É o jovem Davi lutando “mano a mano” com o gigante Golias, é Elias versus 450 profetas de Baal, é o povo de Israel tentando escapar do faraó e seus carros de guerra, ou os primeiros cristãos diante das feras no Coliseu romano. Desde o seu nascimento, Jesus já nos ensinava que há algo de diferente no universo da fé.

A força nunca foi característica da fé cristã, e sim o amor. As bem-aventuranças lançadas por Jesus no sermão do monte apontam justamente para aquilo que é considerado fraqueza diante do mundo: mansos, humildes, perseguidos, promotores da paz.... estes são felizes.

Diariamente constatamos que os poderosos, os ricos, e os que pretensamente possuem domínio da situação, “não precisam” de Deus. Quem teve dinheiro para embarcar no Titanic em sua viagem inaugural, entrou ali na certeza que estava num navio que “nem Deus poderia afundá-lo”. Os auto-suficientes desdenham tudo o que se refere ao Eterno. Certamente esta sensação mudou quando milhares se viram lançados nas águas geladas do Atlântico Norte.

É bom saber-se fraco. Faz-nos solidários, despretensiosos. Ao confessarmos nossa fragilidade e vulnerabilidade, podemos ser transparentes, sem nada a esconder. Reconhecer a limitação impede a indolência e nos leva a lutar para superar as dificuldades.

Sempre me fascinou o fato de que quando Deus precisa de pessoas para realizar a Sua Obra, Sua escolha recai nos que demonstram alguma forma de deficiência. Moisés , chamado para liderar um povo, reconhecia-se tímido e com dificuldades para falar em público. Jeremias achava-se imaturo para a carreira proposta. Amós era um “caipira” sem as credenciais formais de um profeta. E Gideão se surpreende ao ser escolhido para livrar Israel: “minha família é a mais pobre de toda a tribo e eu o menor na casa de meu pai” (Jz 6.15). Lutero era um homem atormentado por conflitos interiores, Agostinho também.

Essas fraquezas resultam num senso de insuficiência e numa sede por Deus muito grande. Eles precisam de algo maior, da transcendência em suas vidas. Deus se agrada em mostrar a Sua Salvação ao mundo através da fraqueza de alguns. Ela não é empecilho, mas é o caminho que Deus se utiliza. A Sua Face, Seus desígnios e Seu Amor para com a humanidade, se valem constantemente de nossas debilidades.

Quando Paulo orou para que lhe fosse tirado o espinho na carne, que o humilhava e o debilitava, Deus negou, mas em sua fraqueza logo descobriu uma força que não era dele, e que o sustentaria dali pra frente. Ou seja, a “doença” de Paulo era o canal por onde passaria o amor de Deus. Ele cedeu para Deus.

É comum encontrar nas livrarias literatura do tipo “a arte de vencer”, ou “dez lições como ser um vencedor”, mas não há nada sobre a arte de ceder, a não ser na bíblia. A bíblia, como sempre, vai na contramão do senso comum. O evangelho não pretende me fazer vencedor aos olhos do mundo: Jesus terminou sua vida pendurado numa cruz, todos os seus discípulos – à exceção de João – foram martirizados, e o maior apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso terminou sua carreira sozinho numa cela fria, “desamparado por todos” (2Tm 4.16).

Fico atento quando encontro na caminhada da vida, companheiros que estão no limite de suas forças, outros no limiar da sanidade, e ainda outros lidando com a doença e fragilidade física. Sim, fico atento, pois sei que são neles que o Eterno haverá de se mostrar.

Um soldado francês com amnésia por traumas de guerra, após a II Grande Guerra, estava sendo conduzido com outros pacientes para uma clínica em uma cidade no interior da França. O trem em que estavam precisava parar em um vilarejo. Como teriam de esperar, ele pediu permissão para caminhar por aquele lugar, que lhe parecia familiar. Andava um pouco e parava pensativo. Em frente a uma casa, parou, e timidamente bateu à porta. A porta se abre e um homem já idoso olhou surpreso para o jovem à sua frente e de seus lábios brota uma frase: "- Meu filho". O jovem, surpreso, respondeu: "- Meu pai....”. E correu para abraçá-lo. “Pai, agora eu sei quem eu sou!", disse ele chorando.

Deus é aquele que nos desperta de nossa “amnésia” existencial provocada pelos traumas causados pelo pecado, e nos mostra quem somos. Somente com a aceitação de nossa filiação divina é que nossos olhos se abrirão para conhecer os valores que realmente importam na vida. Jesus veio em fraqueza, humildade e mansidão. Não há outra forma legítima de viver. O resto é ilusão.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

PERGUNTAS HONESTAS PARA CRISTÃOS SINCEROS


Maiêutica [do Gr. maieutikós: parto] era um processo pedagógico utilizado por Sócrates (IV sec. a.C.) que consistia em uma sequência de perguntas e respostas que ele fazia aos seus interlocutores, “parindo” deles idéias complexas a partir de perguntas simples. De igual forma, Jesus, inúmeras vezes também questionou aos seus discípulos e aqueles que o rodeavam, esperando respostas e posicionamentos, e a partir delas anunciava-lhes um novo entendimento.

Mesmo o cristão mais sincero normalmente não se anima a rever conceitos que foram se estratificando na alma durante anos, e permaneceram na forma ainda “deficiente” de um neófito na fé. Talvez por isso o apóstolo Paulo se preocupava tanto em reparar continuamente “as deficiências da fé” que os primeiros cristãos apresentavam (1Ts 3.10).

Elaboramos algumas questões para confrontar convicções e paradigmas que nem sempre resistem a uma acareação mais acurada. Vejamos:


I. É razoavelmente aceito no meio evangélico que o crente enfrente certas enfermidades, como taquicardia, hipertensão ou miopia. Entretanto, não se admite que algumas debilidades venham atingir a sua mente, o que gera uma grande resistência caso tenha de fazer terapia ou tomar drogas psiquiátricas. Por que só o corpo sofreria as conseqüências de um mundo decaído, mas a mente não?

II. Muito cristão usa e abusa do bordão “foi da vontade de Deus” para explicar mortes que ocorrem pelo descaso dos governantes e pelas injustiças sociais. Somente em nosso país cerca de 102 mil crianças morrem por ano de doenças ligadas à desnutrição. Faz parte do plano divino que elas morram no Brasil, mas não na Suécia?

III. “Nenhum pardal cai no chão sem o consentimento do Pai”, diz a bíblia. Ainda assim os pardais caem no chão e morrem. Proteção divina significa salvo conduto e a certeza que nenhum mal acontecerá a quem tem fé? O que significa para você ser protegido de Deus?

IV. Por que os pecados relacionados à sexualidade causam aos cristãos reação muito maior que a vaidade, a inveja, a maledicência e a falta de amor? Você se sentiria mais à vontade ouvindo o sermão de um homem sabidamente orgulhoso ou de um adúltero que se confessa arrependido?

V. Por que alguns segmentos cristãos julgam com severidade os apreciadores de um bom vinho, mas se calam contra os que se empanturram de comidas gordurosas, frituras e carnes vermelhas, e tomam bebidas fabricadas com corantes, acidulantes, aromatizantes e conservantes, tudo isso reconhecidamente nocivo à saúde? Não é contraditório?

VI. Se alguns pastores modernos realizam de fato inúmeros milagres na frente das câmeras, porque eles não separam um dia por semana do seu tempo para fazer a alegria de centenas de pacientes nos corredores do Hospital das Clínicas ou então às crianças internadas no Hospital do Câncer?

VII. Se a teologia da prosperidade realmente “funciona”, porque os que promovem tais coisas não fazem um bem para a humanidade instalando seus ministérios nos piores lugares do planeta, tais como a Nigéria, o Haiti ou o Sudão? Por que ela não funciona no vale do Jequitinhonha, a região mais pobre do Brasil?

VIII. Depois de mais de duas décadas de igrejas pregando a prosperidade e atingindo milhões de pessoas nas periferias das grandes cidades, já não era tempo do IBGE ter constatado que os bolsões de miséria na periferia desapareceram, e que bairros de classe média surgiram no seu lugar?

IX. Se Jesus ama as criancinhas, colocando-as como nosso modelo e afirmando que é delas o Reino dos Céus – para desgosto dos discípulos que queriam afastá-las de Sua presença – porque hoje, na prática, as igrejas impedem a efetiva inserção delas no seio das comunidades? Colocamos mais em prática a orientação de Jesus ou a repreensão dos discípulos?

X. Jesus aceitou de bom grado o gesto que uma prostituta lhe fez, chorando muito e adorando-o, causando espanto a todos os convidados que estavam à mesa. Que tipo de pessoas ou grupos, que se derramassem hoje perante Cristo, lhe causaria grande indignação?

XI. Por que Jesus, ao ressuscitar, não foi direto ao palácio de Herodes e de Pilatos, mostrando-se a eles, para causar assombro e admiração aos formadores de opinião da época? Dar visibilidade à fé com marchas e shows faria parte dos propósitos de Jesus hoje?

XII. Por que damos tanta importância aos empreendedores, vitoriosos, e famosos, e mal reparamos nos simples e desprovidos de atrativos, se Jesus falou que aquilo que é “elevado entre os homens é abominação diante de Deus”? Preferimos as coisas humildes ou as que exercem fascínio?

XIII. Se Jesus pede para cada um tomar a sua cruz e segui-lo, por que tanta gente vai atrás Dele pedindo facilidades na vida?

XIV. O que você acha de deixar noventa e nove ovelhas no aprisco para ir atrás de uma rebelde que se perdeu? Você concorda com essa aritmética divina ou é adepto do pragmatismo que privilegia as multidões?


As respostas a todas estas perguntas estão nas Escrituras. Confronte o que você “sabe, pensa ou acha” com a Palavra. Busque-a, leia com honestidade, esqueça tudo o que já ouviu de terceiros não confiáveis, peça orientação ao Espírito Santo e sabedoria que vem do Alto. Amém!


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SAUDOSISMO OU INDIGESTÃO?

Por: Rev. Antônio Luiz de Freitas

“Porque por amor de ti tenho suportado afrontas; a confusão me cobriu o rosto. Tornei-me como um estranho para os meus irmãos, e um desconhecido para os filhos de minha mãe.
Pois o zelo da tua casa me devorou, e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Salmo 69. 7-9).

Não é necessário, em qualquer meio relacionado ao povo evangélico em nossos dias, um acurado estudo sobre conduta ética ou moral para sermos acometidos de uma dispepsia religiosa e/ou teológica. Os próprios meios de comunicação em massa nos poupam deste trabalho, pois nos oferecem diariamente um farto cardápio. Não dá nem para reclamar da variedade das iguarias, porém, elas corroem como câncer e têm a cada dia vacinado um grande número de pessoas contra o genuíno evangelho que salva e que liberta. Torna-se cada vez mais difícil ser um “Pastor aprovado diante de Deus” nesta geração consumista que vai continuar sempre precisando de algo mais. Escândalos sobre escândalos se multiplicam e trazem à tona todo o excremento gerado pelos ventres insaciáveis dos modernos “mercadores gospel” para quem o dinheiro nunca basta e que, para consegui-lo, se utilizam de todos os meios possíveis. Eles estão por toda parte e podem ser encontrados nas versões: teológica, religiosa ou política. Alguém menos avisado poderia até lançar toda a culpa nos últimos, porém, penso que estes só refletem aquilo que acostumaram a ouvir de seus líderes, somando-se a isto a falta de escrúpulo da própria classe. Diante deste quadro funesto faltam-me palavras, mas não vou mesmo precisar de muitas; tampouco será necessário recorrer à verborréia latente do meio para exprimir toda minha decepção. Bastam-me apenas duas palavras: “Estou cansado!”. Li, há algum tempo atrás, um artigo do Rev. Ricardo Gondim com este mesmo título e é exatamente assim que me sinto: Cansado, frustrado e dispéptico! Sinto saudades do meu tempo de criança e adolescência, quando o pastor visitava nossa casa e meus pais nos ensinavam que deveríamos manter silêncio para ouvirmos tudo o que ele tinha para dizer. Era como se o próprio anjo de Deus tivesse chegado à nossa casa. Até os vizinhos que não eram crentes o honravam. A figura do pastor era respeitada e reverenciada, pois a isso fazia jus. Esta foi a maior razão do despertar em mim a vocação pelo ministério pastoral. Sinto saudade das máquinas com as quais lidei por toda minha vida, pois elas nunca me decepcionaram; nunca me injuriaram nem tramaram contra mim. Nunca tive que confrontá-las por mau testemunho, por obstinação em continuar pecando, nem por reincidência de desvio de conduta. Nunca vi nenhuma carta do SPC ameaçando alguma delas, nem soube de alguma que tenha adulterado, caluniado às outras, boicotado a programação da empresa, mas me entristeço ao deparar-me com estas coisas dentro da Igreja, “Corpo de Cristo”. Diferentemente das pessoas, elas poderiam até estar sujas, mas não rejeitavam quem poderia limpa-las nem se voltavam contra quem se dispunha fazê-lo. Um único procedimento era suficiente para a manutenção de todas as que eram do mesmo modelo. Acho que é exatamente aí que reside um dos pontos cruciais de todo este contexto: Os crentes de nossa geração não estão sendo mais gerados do mesmo Modelo; Jesus. Antes, se gabam de ser “um dos doze do Ap. X, Y ou Z. Não estou preocupado em que ordem me colocam na escala em relação ao bispo de minha região – pois ele, apesar de toda autoridade da qual se encontra investido e do respeito que lhe devo é, assim como eu, tão carente e dependente da graça e da misericórdia de Deus - mas se de fato meu nome está registrado no “Livro da Vida”.

Desde o início desta semana nosso país tem assistido exaustivamente pelos telejornais a notícia de um fato que foi apenas mais um dos muitos que já ocorreram e dos que continuarão acontecendo até a volta do Senhor Jesus. Políticos da chamada “Bancada Evangélica” apanhados no mais nefando ato de corrupção recebendo propina. E o que mais me chocou foi a ousadia de orar agradecendo (a Deus?) pela vida daquele que fazia chegar o suborno até eles, pedindo que aquele dinheiro desse a eles a vitória sobre seus inimigos políticos, evocando sobre eles o Sangue de Jesus. O que devemos esperar destes a quem delegamos a tarefa de nos representar quando este é o exacerbado testemunho que apresentam? Se os “evangélicos”, de quem no mínimo deveríamos esperar o respeito aos atributos inerentes ao que nos identifica como tal, agem desta forma o que devemos esperar dos outros?
Tenho evitado, sempre que posso, me identificar como evangélico. Nunca me identifico como pastor ao preencher algum cadastro porque corro o risco de não tê-lo aprovado. Prefiro deixar que as pessoas descubram o que sou por elas mesmas; não por aquilo que digo ser, mas pelo que de fato faço. Sinto vergonha de ser comparado a eles! Temos, nas palavras do Senhor Jesus, quando disse a seus discípulos que eles eram o sal da terra e a luz do mundo, uma grande lição: A luz e o sal não emitem nenhum som, mas é impossível não notar sua presença. Creio que nunca houve em tempo nenhum tanta sujeira manifesta no meio do chamado “Povo de Deus”. Que tristeza! Uma verdadeira lástima!
Estes fatos são apenas a práxis do discurso gospel alienado e triunfalista que está sendo pregado nas “igrejas modernas”, destituído da cruz de Cristo, do autoconhecimento de pecado e do arrependimento, do novo nascimento e da santidade bíblica.
Não é este o contexto do “Posso todas as coisas naquele que fortalece” (Cf. Fp 4. 13) que escreveu o “antigo” apóstolo Paulo; antes, é totalmente o oposto do pregam os “modernos” para justificar seus abomináveis intentos. Sua afirmação apenas expressa sua disposição em continuar servindo ao Senhor mesmo nas circunstâncias adversas que o acometeram. Diante destas coisas fico imaginando Satanás diante do trono de Deus apontando seu dedo imundo para a terra perguntando: “Foi por aqueles que Você entregou seu único Filho para morrer naquela cruz...?” (Cf. Ap 12. 10).

Gosto de meditar nas palavras da terceira estrofe do Hino 203 HE: “Desperta, Igreja! E vem o teu dever cumprir! A todos faze a Cristo conhecer; A tua mão estende com paciente amor; Não deixes pecador nenhum se vá perder”. Ao mesmo tempo fico preocupado ao ver o povo cantando sem ao menos pensar no que está expressando: “Satanás debaixo do meu pé” quando, na verdade, podemos vê-lo claramente nos ombros e na mente das pessoas; “Deus sabe que pode contar comigo” enquanto é quase necessário orar para que Deus levante outras jumentas que falem, a exemplo da de Balaão; As pessoas cantam a plenos pulmões: “Abro mão dos meus sonhos e das minhas vontades...”, enquanto vemos a rebeldia, o egoísmo, o orgulho e a vaidade se sobressaindo; “Eu não preciso ser reconhecido por ninguém...”, mas na verdade isto é tudo o que eu quero!

Hoje, no culto doméstico, assentado com minha família à mesa na hora do almoço, enquanto falávamos de frases notáveis esculpidas nas lápides de alguns finados, disse aos meus filhos que seria uma grande honra para qualquer mortal ter em seu túmulo a expressão bíblica compreendida entre os versículos 6 e 8 do prólogo de João: “Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”. Oxalá possa eu conquistar esta bênção, embora reconheça que no momento esteja mais para Jeremias que para João.
Encerro minha catarse tomando emprestadas as palavras do profeta Isaias: “O Senhor chamou-me desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe fez menção do meu nome e fez a minha boca qual espada aguda; na sombra da sua mão me escondeu; fez-me qual uma flecha polida, e me encobriu na sua aljava; e me disse: Tu és meu servo; és Israel, por quem hei de ser glorificado. Mas eu disse: Debalde tenho trabalhado, inútil e vãmente gastei as minhas forças; todavia o meu direito está perante o Senhor, e o meu galardão perante o meu Deus” (Is 49. 1-4).
Resguardadas as devidas proporções, é exatamente assim que me sinto! Oro para que o Senhor tenha misericórdia de nós.
Um grande abraço a todos os que, sinceramente, amam e aguardam a volta de Nosso Senhor e Salvador Jesus. MARANATHA!!!
Do menor de todos os servos do Senhor, pela sua maravilhosa graça e sua grande misericórdia para comigo e para sua honra e glória, sou para servir,

Pr. Antônio Luiz de Freitas
Igreja Metodista em Santa CruzVolta Redonda, 03 de dezembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

JESUS FICOU PRA TRÁS




“Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém,
sem que seus pais o soubessem... três dias depois, o acharam no templo” (Lc 2.43-46)

- “José, você viu o nosso filho?”, perguntou a mãe aflita.

- “Ora, pensei que ele estivesse com você, Maria. Por isso nem notei a ausência dele”.

Já passara um dia de viagem quando os pais perceberam que o filho de 12 anos não estava entre eles. Voltavam em caravana da Festa da Páscoa em Jerusalém, em meio aos amigos e parentes, e estavam tão absortos na alegria das festividades que Jesus ficou pra trás, e nem se deram conta.

Não tenho dúvida que essa mesma perda continua ocorrendo ainda hoje. Muita gente boa já pregou com lágrimas nos olhos e o coração em chamas; muitas bandas começaram desconhecidas, mas davam uma audição para o Eterno; muito ministério que não tinha “nem prata nem ouro” compensava a sua pobreza com o amor e a simplicidade. O tempo passou para eles, os movimentos cresceram, mas agora é perceptível – ao menos para os que possuem discernimento – que agora há outros interesses e motivações. Jesus acabou ficando pra trás.

Hoje você ouve horas de cânticos ou pregações e percebe que Aquele que é Digno de Toda Honra, foi esquecido, e no seu lugar entrou a vitória, o poder, o sucesso, a saúde, a oferta, o sacrifício, a unção, o sopro, o shofar, e tudo o mais que desvia a atenção do que realmente importa. Não é mais a busca de um relacionamento com o Eterno, mas a satisfação dos desejos do eu. Não é mais a conversão a um Pai Amoroso que anseia caminhar conosco, mas a adesão a um grupo que propagandeie sucesso em sua vida.


O garoto das fotos acima é Marjoe Gortner**, um menino-evangelista que começou sua carreira de “pregador” aos 4 anos. Na adolescência fazia cruzadas que arrecadava milhões de dólares e milhares de “conversões”. Mas aos 28 teve a coragem de admitir que não acreditava em nada que pregava, e resolveu desistir daquela carreira de fama. Como ato final, realizou um documentário de sua ultima campanha. Ele foi filmado falando em línguas, pedindo doações, fazendo apelos e “derrubando” pessoas com o “poder divino”. Ao final ele aparece nos bastidores rindo muito, contando o dinheiro e explicando para a câmera os truques que utilizou.

Assistimos hoje, igualmente, o desfile de homens que outrora tinham uma caminhada de fé, mas no decorrer do tempo deixaram Jesus pra trás. São almas que secaram e se tornaram figuras caricatas, em “pastores que a si mesmos se apascentam; nuvens sem água impelidas pelos ventos, estrelas errantes... aduladores dos outros, por motivos interesseiros” (Judas v.12-16).

Precisa ser muito crédulo para crer que os shows que assistimos são de fato para a “glória de Deus”, precisa de muita boa vontade para admitir que os mármores de templos suntuosos, as luzes, os holofotes, a maquiagem pesada, e o glamour, são para exaltação do Nome Dele.

A mais famosa banda gospel da atualidade acabou de assinar contrato com a gravadora Som Livre do conglomerado Globo. Será que essa poderosa empresa esotérico-espiritista de repente resolveu divulgar o Nome de Jesus e sua Palavra? Raciocine em que tipo de canção essa gravadora investirá: a que agrada ao Eterno, ou a que desperta o consumo de milhões de ouvidos? Gravará a letra que alimenta com a verdade ou a de conteúdo adocicado? Ora, o negócio dela não é Jesus: é o lucro, é o dinheiro, é Mamom! Jesus ficou pra trás.

A veneração das multidões a tudo que brilha não passa por nenhum filtro crítico porque as massas não se valem de critérios bíblicos. Cantar bonito, ter uma bíblia na mão e dizer alguns surrados chavões já é considerado suficiente.

Credulidade é um mal que sempre afetou a alma de nossa gente. Credulidade é pecado, porque aplaude a tudo e até mesmo o que Deus rejeita. Por isso a bíblia afirma “laço é para o homem dizer precipitadamente: é santo” (Pv 20.25.) Passamos cinco séculos venerando homens que foram elevados à condição de ídolos, e agora nós, evangélicos, temos os nossos também.

Quem não perdeu Jesus de vista vive para agradá-lo, busca intimidade, visa a santidade. Quem não perdeu Jesus de vista aprendeu que não busca uma vida de futilidades, mas de fidelidade. Não é o quanto você ganha que conta, mas o quanto você é fiel.

Somente depois de três dias que Maria encontrou Jesus. Foi uma longa e infrutífera busca por ele, até que tivessem a súbita idéia (que devia ser a primeira): - “Ele está no templo!”.

Quem perdeu Jesus pelo caminho deve refletir, “onde”, “quando” e “como” começou a perdê-lo. É somente voltando ao princípio, aos rudimentos, onde recebemos com avidez as primeiras letras do Evangelho, e onde a suave brisa do Espírito um dia encheu nossa alma, sim, é voltando ali com humildade e desejo de reencontrar o primeiro Amor, é que haveremos de Tê-lo para sempre conosco. Amém.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

P.S. **Assista ao vídeo de Marjoe, e compare com o que você vê diariamente na TV:
http://www.youtube.com/watch?v=KxfThlCcfHI

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O DIA QUE O DIABO PREGOU


Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque
não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. (Mateus 16.23
)

E se fosse concedida ao diabo a oportunidade de pregar um sermão? Como seria essa pregação? Obviamente ele não falaria que estava fundando uma nova “igreja” com o seu nome para arrebanhar gente, pois ele pode ser tudo, menos estúpido. É mais prático entrar na seara dos fiéis e pregar um “Deus” que não existe, expor um simulacro do Eterno e um Jesus que vai além das Escrituras, pois com isso ele semearia o joio em meio ao trigo e exporia meias-verdades valendo-se de textos piedosos, por saber muito bem que a mentira mais destrutiva é aquela que mais se parece com a verdade.

Qual seria o texto básico de sua mensagem? Com certeza ele fugiria do tremendo drama humano existente no livro de Jó, nada teria a dizer sobre o amor delicado dos dois amantes, em Cantares de Salomão , e se calaria diante do pessimismo existencial de Eclesiastes, mas pinçaria algum relato do Antigo Testamento, sobre um personagem heróico como Moisés ou Abraão, mudaria o contexto original do texto, e transporia pura e simplesmente para os dias atuais , passando por cima das mais elementares regras de hermenêutica.

O propósito do sermão versaria sobre as necessidades do homem que precisam ser supridas, e que não há espaço na vida do cristão para tristeza, derrota, perda ou cansaço. Sim, o diabo está muito interessado em “suprir”, em oferecer uma solução rápida, em apresentar um atalho, em todas aquelas situações que Deus pretende ensinar pela solidão, pela caminhada no deserto, pela disciplina, e até mesmo pela dor.

Então, um sermão “diabólico” seria mais ou menos assim:

Caríssimos irmãos (arghhh):

Vocês precisam parar de pedir e começar a reivindicar. Ao orar, não apenas peçam, mas determinem. Deus quer sentir que você tem gana, que você sabe o que quer. Encurrale o Eterno contra a parede, e exija a parte que lhe cabe no Reino.

Não aceite mais a doença em sua vida. Você não nasceu são? Você não nasceu perfeito? Pois então não aceite nada, mesmo aquelas enfermidades que são contingentes da situação humana, e revolte-se contra Deus quando elas chegarem. Se Paulo aceitou com resignação aquele “espinho na carne”, faça Deus saber que com você não será assim.

Os títulos são muito importantes para que o mundo lhe reconheça. Quem pode ser alguma coisa na vida sendo chamado de servo? Tente o título de missionário ou evangelista para começar, depois passe para pastor, mas não fique muito tempo, pois já existem muitos por aí. Se na sua denominação você não conseguir subir, funde a sua própria e autodenomine-se “bispo”. O povo gosta disso. Mas se você é de fato um homem de visão, chame alguns companheiros para ungi-lo “apóstolo”. Isso é irresistível e logo haverá uma multidão de pessoas querendo tocar nesse homem de Deus. Se for casado, conceda à sua esposa a honra de ser “bispa”, mesmo que ela não fale coisa com coisa. O importante é que percebam que a sua família é ungida.

Também é hora de começar a exigir o melhor. Nada de pedir uma casinha simples para morar ou um carro usado. Vá a uma concessionária, escolha o modelo que mais lhe agrada, dê sete voltas em torno dele e determine que será seu. Vamos deixar de pensar pequeno. Se Davi dizia que não andava “à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais” para si (Sl 131.1), isso era pensamento dele, mas com você não será assim.

Disseram que eu vim pregar um “outro evangelho” (Gl 1.8). Na verdade estou pensando no bem-estar de vocês, eu quero o melhor para cada um. Certa feita o Filho de Deus mandou-me afastar de Pedro dizendo que eu não cogito das coisas de Deus, mas dos homens (Mt 16.23). E é verdade: eu só quero lhes oferecer uma qualidade de vida melhor. Eu não tenho culpa se Jesus não aceitou as propostas que lhe fiz. Que mal há em pedir que pedras sejam transformadas em pães? Afinal , há tanta gente faminta no mundo.... Que mal há em oferecer os reinos e glória deste mundo para alguém? Eu vim para facilitar, sou pragmático. Se as coisas podem ser resolvidas de forma rápida, com um simples ritual ou com uma oferta, porque demorar?

Jesus no inicio pregava às multidões, mas depois Ele começou a fazer duros discursos (Jo 6.60) e não soube segurar aquela gente toda. Eu jamais deixaria eles irem embora porque eu dou o que eles desejam: querem pregação de prosperidade, saúde o tempo todo e que o céu aqui na terra? Eu lhes dou.

Agora, para terminar, uma dica aos que gostam de pregar de forma incisiva como eu: ao subir ao púlpito, não é preciso ter uma mensagem preparada, pois eu darei uma a você. Grite muito, gesticule, aponte o dedo, ameace, profetize alguma coisa e diga ao povo que você pisa na minha cabeça. Se alguém ousar desmascará-lo, ameace-o, exponha a pessoa à frente de todos e diga que ela possui um espírito maligno. Funciona sempre, e nunca mais irão questioná-lo. Quem tem ouvidos para me ouvir, ouça.

Bem, talvez você já tenha escutado pregações assim em algum lugar, mas não sabia de onde vinha a inspiração. Agora você sabe. O diabo detesta hermenêutica – que é a interpretação correta dos textos (ele deturpou a ordem que Deus deu no Éden, e fez uma horrível exegese do Salmo 91 ao tentar Jesus no deserto). Certa vez alguém afirmou com propriedade que “as palavras de Deus mal interpretadas são palavras do diabo”. Concordo plenamente!


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O CAVALEIRO DA FÉ


Nos fins do século XIX, um jovem pastor dinamarquês, chamado Soren Kierkegaard, descreveu em um livro como seriam os traços, a postura, a fala e o modo de vida de um autêntico “cavaleiro da fé”. Desde que o li, fiquei imaginando, como se apresentaria hoje, num mundo tecnológico pós-moderno, materialista e individualista, alguém que tivesse de fato compreendido verdadeiramente o que é o Evangelho e o que é ter fé autêntica, e como ele enfrentaria as contradições de nossa época. Atrevo-me aqui, a discorrer um pouco sobre essa existência:

Por ser um homem – ou uma mulher – de fé centrada na Pessoa de Jesus, ele não dá atenção a nenhuma forma de religiosidade constituída por crenças em objetos, nem leva à igreja peças de roupas, documentos, ou qualquer outra coisa, pois à semelhança da fé do centurião romano, seus lábios não se cansam de repetir: “Senhor, basta uma palavra sua...” (Mt 8.8).

É capaz de ver a bondade de Deus presente em toda a Terra. Agradece pelo sol, pela chuva, pelo pão de cada dia, e até pelas dificuldades e provações. Embora, às vezes pareça que suas forças minaram, os seus olhos são como quem vê o Invisível, por isso nunca perde a esperança.

Interessa-se por todos os assuntos, e conversa animadamente sobre tudo sem restrições. Nada do que é humano lhe causa espanto, e a ninguém julga, pois conhece muito bem as contradições e ambigüidades que existem dentro de si.

Aprecia as Artes em geral, a pintura, a música, lê romances e poesia, pois no fundo sabe que, embora sejam prazeres efêmeros, eles representam antecipadamente as coisas do céu, como um vislumbre da Eternidade, um aperitivo que nos é dado. Só quem tem olhos para apreciar as artes pode reconhecer em Deus um Artista Supremo que pintou o pôr-do-sol com aquelas cores, criou cada flor com o seu toque de beleza e perfume, e arquitetou o cintilar intermitente das estrelas para iluminar a noite.

Ao contrário de muitos cristãos, ele crê na “Graça comum”, onde Deus em sua infinita bondade outorga a todas as pessoas inumeráveis bênçãos, dons e talentos. Por esse motivo, ele se agrada da boa música sem se preocupar se ela vem de um selo gospel ou não, pois entende que só há dois tipos de música: a boa e a ruim. Entretém-se com as Bachianas de Villa-Lobos, vibra com o vozeirão de Pavarotti e de Bocelli, e sabe que há um toque da centelha divina em Elvis. Mesmo que estes não reconheçam de onde vêm tão brilhantes aptidões, o Cavaleiro da Fé sabe que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do Alto” (Tg 1.17).

Embora ame o infinito, e deseje a eternidade, sabe saborear as coisas finitas com pleno prazer. Não se deixa paralisar pelos cuidados da vida, e em sua mente não há nenhuma preocupação com o amanhã, pois aprendeu a viver dia a dia e descansar no Senhor.

Sente-se bem quando está reunido com seus irmãos no templo, mas também se alegra em poder se encontrar com aqueles que não expressam sua fé, já que não faz acepção de pessoas, nem alimenta qualquer preconceito na alma. Como é um filho da Luz, irradia por onde passa o amor de Deus, pois aprendeu que na Velha Aliança quem entrava em contato com algo contaminado, tornava-se imundo e impuro. Mas agora, desde que Jesus se deixou tocar por uma mulher hemorrágica, e tocou leprosos, ao invés de ser contaminado, a Sua Presença santifica e purifica.

Sua fé não é vivida de maneira sôfrega, com culpas e temores infundados. Está em paz com Deus, e em Cristo aprendeu a perdoar o mundo. Tudo o que ele faz é para o Senhor: seu trabalho, seus estudos, e até quando se diverte. Não tem bloqueios com o seu corpo, por isso, quando feliz, se expressa também através dele, pulando e dançando como uma criança, e não dá a mínima para os olhos maus.

Sente-se amado pelos que o cercam, mas também reconhece que nem todos o compreenderão. Por isso, às vezes parece meio solitário. E não cobra ninguém por isso, pois percebe que na vida será sempre assim – uns entenderão a gente, outros não.

O cavaleiro da fé não cultua a Deus apenas no templo. Para ele não há mais dia, nem hora, nem lugar certo para prestar culto: onde ele está tem reverência ao Senhor. Todos os dias são santificados, os lugares mais comuns podem ser sagrados, bem como as coisas cotidianas da vida. Quanto aos alimentos, não rejeita nenhum: “recebidos com ações de graça, nada é recusável” (1Tm 4.4).

Não vive temeroso com o diabo, não fica mencionando o seu nome, nem obcecado por suas ações. Sua vida pertence a Deus, é Deus quem o dirige, e reconhece que “todas as cousas cooperam para o seu bem”.

Não se encaixa em nenhum rótulo religioso: não é gospel, nem renovado, carismático ou tradicional. De igual modo, também não aceita ser designado por termos próprios do judaísmo, como levita, gadita ou profeta. Ele é simplesmente um discípulo de Cristo, e como tal quer ser reconhecido.

Bem.... Kierkegaard terminou o seu relato confessando que jamais encontrou um só exemplar autêntico do cavaleiro da fé. Eu também não, mas estou disposto a persegui-lo em minha vida, ou ao menos aproximar-me dele. Desejo o mesmo para você.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

HERÓ - (I) - RONISMO

No título o "I" fica propositalmente dividido entre concluir o termo "herói" e começar o termo "ironia" (ou ironismo). Foi a dinâmica textual que encontrei para definir a cena exaustivamente exibida pelas mídias onde um marginal que estava fazendo uma refén, no Rio de Janeiro, é atingido na cabeça por um major atirador de elite.
É interessante notarmos como o "jornalismo" de hoie [sei que não posso generalizar mas esse não é o espaço para discutir as excessões], tão afeito ao espetáculo, conforme a demanda social atual, nos faz tão parcialmente cientes de determinada situação; e embora pareça nos informar sobre o ocorrido, na verdade nos instiga à consumir "imagem" na medida em que de tudo fazem um grande espetáculo teatral.

Sobre a cena citada, foi veiculada em horário nobre de audiência, editada na medida tal à atingir IBOPE; percebemos que não é o interesse das mídias discutir o caos social que atinge as grandes cidades. Sem pessimismos, "cá-pra- nóIs", as pessoas que vivem em megalópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, dentre outras, estão fartas de tanta violência e corrupção, e miséria (ETC ... ETC ... ETC). As mídias espetacularizam o ocorrido para estimular o consumo cada vez maior dessas porcarias chamadas "notícias" - que nada informam; pelo contrário, é mantenedora de um sistema que alimenta verdadeiros monstros.

Mais um "bandido" foi abatido! está morto! Alguns comemoram. Outros: pobre da mãe pobre que não terá mais a compania de seu filho, "uma família de gente como nós, que chora o assassinato de um ente querido". Sobre a moça que era refén, à salva, com a família, devendo sua vida ao atirador de elite! O pior é que a fábrica de violência está à plenos vapores, a questão aqui não é matar o "bandidinhho" e noticiar que seu caixão está aberto - é ter coragem de pegar a diretoria do "bandidismo" - no Congresso que está alinhado com a corrupção, a má administração brasileira da "terra pública", do tesouro público; a nossa péssima distribuição de renda; etc; etc.

Falta saúde! Autoridades, menos atiradores de elite na "telinha" (viu FANTÁSTICO!); nós brasileiros nos cansamos de escolher entre o bandido e o mocinho, esse "jogo real" engendrado por vocês é perverso e amedronta nossa gente.

Por isso não vejo o major como um herói, conforme discursado por vocês; ele também é vítima dos verdadeiros bandidos - do crime de "colarinho branco". Para mim o que foi divulgadi não passou de ironismo; mas o povo não é bobo, e clama por menos violência, por menos desigualdades, por mais saúde e educação, por mais vida!

Fonte da foto: disoponível em http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/09/25/e25098609.asp; acesso dia 28/09/2009.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

TEXTOS BÍBLICOS QUE INCOMODAM


Sinto na alma, a cada dia, a dificuldade que é ser um cristão. O padrão que Jesus espera de mim nem sempre vai de encontro aos meus anseios e vontades. Confesso que há certas coisas difíceis de praticar, e imagino que a caminhada se tornaria mais “fácil” se alguns versos fossem simplesmente suprimidos da Bíblia. Eles me deixam perplexo, constrangem, expõem minhas fragilidades, e alguns conceitos que emanam deles parece não funcionar na prática.

Como é possível a Bíblia afirmar que “os mansos herdarão a terra” (Mt 5.5), se estamos vendo que quem conquista, vence e manda, são os fortes, os guerreiros e os que detém as armas?

Como concordar com a parábola em que o trabalhador da última hora recebe ao entardecer o mesmo salário de quem malhou duro o dia inteiro (Mt 20)?

E a matemática divina, então? Deixar noventa e nove ovelhas no deserto, à mercê dos lobos, para ir atrás de uma só ovelha desgarrada? Deixa-a ir embora. Quem sabe ela não fosse uma desajustada que não merecia estar junto ao rebanho.

Uma viúva pobre vai, deposita duas moedinhas no gazofilácio e Jesus afirma que ela ofertou mais que todos os “graúdões” cheios de posses (Lc 21.3). Se eu for aplicar isso em minha igreja, não terei dinheiro para pagar sequer a conta de luz no próximo mês.

O corretivo que Jesus usa parece depor contra o bom senso: um filho vai embora de casa, vive dissolutamente desperdiçando todos os seus bens, retorna de mãos vazias, e ainda “ganha” uma festa (Lc 15.25). O irmão, que permaneceu na casa teve de trabalhar em dobro durante a sua ausência, e parece que não recebeu nada por isso.

Amo a minha família, amo meus irmãos, tenho prazer em estar com os amigos. Mas vem Jesus e diz que eu não estou fazendo nada demais, pois até os incrédulos fazem o mesmo. O que Ele quer afinal? Que eu demonstre amor aos inimigos e abençoe quem me persegue? Acreditem: é exatamente isso que Ele deseja (Mt 5.43-48)! Isso é demais!

Até aqui falei como tolo. Jesus incomoda e vai continuar incomodando sempre. Por vezes agimos como o povo geraseno, que perturbados com a presença Dele, rogaram-lhe educadamente que se retirasse daquelas terras (Mc 5.17). Pretendemos afastar Jesus de tudo aquilo que Ele pode “atrapalhar”. Afinal, temos nossa vida, nossa visão, nossa maneira de pensar.

Todavia, a “loucura” do Evangelho é a nossa cura. É a verdadeira forma de encarar a vida. Quem ousar mergulhar de cabeça compreenderá, quem se arriscar verá. Aquele que aceita o Evangelho como o único modo de vida que vale a pena viver, faz como o homem que encontrou um tesouro oculto no campo, e transbordante de alegria, vai vende tudo o que tem e compra aquele campo. É preciso arriscar tudo... não há meia aposta.

O Evangelho abre a nossa mente e nos dá novos olhos. E lendo a Bíblia com esses olhos percebo que os mansos não haverão de conquistar a terra, mas a receberão do Senhor, como herança, pois só Aquele que possui todas as coisas pode herdar aos seus filhos.

O trabalhador da última hora, assim como todos aqueles que encontram o amor Divino, ainda que tardiamente, também experimentarão da bondade do Pai. Para o Supremo Pastor, uma só ovelha é tão digna de ser salva, que Ele deixaria tudo para alcançar este “único”, que sou eu e é você. A viúva pobre ofertou mais do que os outros porque eles deram do que sobrava, ela deu tudo o que tinha. O filho mais moço foi recebido de volta pelo pai porque Ele jamais nos trata segundo as nossas transgressões, entretanto rasga as cadernetas dos “justos”, com suas anotações de cobrança.

Realmente há textos que incomodam, mas ao invés de tirá-los da Bíblia, devemos vive-los, pois é justamente onde eles “pegam” que precisamos ser curados. Pense nisto.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

NO OLHO DO FURACÃO


“O Senhor tem o seu caminho na tormenta
e na tempestade” (Naum 1.3)


Hecatombes, desastres, revoluções, perseguições, pandemias, dívidas, doenças diagnosticadas, família incorrigivelmente desestruturada... como viver a fé em meio ao caos? Como estar em paz quando nos encontramos no olho do furacão? Essas coisas desestabilizam, sacodem, desequilibram, tiram o chão.

Basta um pequeno aneurisma no cérebro, basta o surgimento de um nódulo no seio, ou a comprovação de uma traição, para que de repente sejamos jogados no olho do furacão.

Faz parte do ser humano buscar a segurança e a previsibilidade, e é comum imaginar que vida boa é vida sem sobressaltos, e livre de más notícias. Mas creio que pode haver um elemento de transformação do ser que somente é despertado em meio à borrasca. Uma mudança de perspectiva e de postura pode surgir em meio ao turbilhão. Quem pode afirmar que ali não se iniciará uma caminhada de volta ao Pai? Uma mudança de olhos daquilo que é temporal e efêmero para o que é eterno? O Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade (Naum 1.3)!

Estar no olho do furacão nos faz repensar a vida. Há um aprendizado em curso. Quem já passou pelo vale da sombra da morte, com um diagnóstico “irreversível” num hospital, aprenderá agradecer a Deus fervorosamente cada manhã vivida. Quem um dia perdeu tudo, foi humilhado, e sentiu-se sozinho, saberá valorizar a amizade, o companheirismo e a solidariedade. Aquele que um dia passou necessidade extrema reconhecerá o valor que há em comer um simples pedaço de pão.

Há algo de paradoxal nos acontecimentos da vida. Davi admitiu que foi “bom ter passado pela aflição” (Sl 119.71), ou em outras palavras, ter estado no olho do furacão, para que ele compreendesse coisas que antes não compreendia.

A consciência da iminência da morte faz o homem relembrar a sua finitude e temporalidade. A solidão, o medo, o vazio, possuem o bendito valor terapêutico de resgatar sentimentos que até então encontravam-se adormecidos dentro da alma.

Acho de uma beleza comovente quando Davi se refugia numa caverna, a caverna de Adulão, fugindo de um ensandecido Saul, que desejava matá-lo. Seus irmãos e toda a casa de seu pai souberam, e foram para a caverna para estar com ele. E o mais surpreendente: ajuntaram-se a Davi todos os homens que “se achavam em aperto, endividados, e todos os amargurados de espírito”, e Davi se fez chefe deles (1Sm 22.1-2). Quem está no olho do furacão não está só.

Desdenho a “fé” dos falastrões da TV, mas me comovo com a fé daquelas mães que levam seus filhos todos os dias para tratamento na AACD. Não me comovo com testemunhos patéticos de “prosperidade”, mas me emociono vendo filhos cuidando de seus velhos com o mal de Parkinson ou Alzheimer, que nem os reconhecem mais. Acho que agora compreendo quando o Pregador diz que “melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens” (Ecl 7.2). Sim, precisamos conhecer o fim para saber viver o meio.

Hoje não nos reunimos mais em uma caverna em torno de um homem – seja ele sacerdote, pastor ou apóstolo – mas em torno Daquele que compreende o que é sofrer, pois passou por esse caminho antes de nós. Jesus, o Filho de Davi está preparado para receber as almas angustiadas que se unirão à Sua volta, obedecendo à sua vontade. Ele recebe a todos, por mais miseráveis que sejam.

Nossas reuniões não são para os felizes, nem para os sãos, e nem para os que bastam a si mesmos, mas para quem tem algo difícil de suportar, e vem até a Cruz para chorar, pedir, suplicar. Venha se unir em torno de Cristo.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

POR QUE NÃO SE CALA?


“Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei...
cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria” [Jó 33.31-33]


Correu o mundo a resposta que o rei Juan Carlos deu ao ditador venezuelano Hugo Chávez numa cúpula de governantes quando este disparou a falar em momento inoportuno: “Por que no te callas?”.

Vivemos a época da verborréia, que é a quantidade excessiva de palavras para dizer coisas de pouco conteúdo. Políticos, pastores, apologistas de diversas crenças, e “marqueteiros” em geral querem “vender o seu peixe”, e a vida é transformada num grande mercado onde os grupos disputam quem grita mais.

Acabamos entrando nessa onda. Há um ímpeto de responder a tudo. Não há tempo de digerir o que nos foi dito, pois tudo merece resposta imediata. Ocorre a poucos seguir o preceito bíblico de deixar para Deus, o Justo Juiz, a resposta, e permanecer em silêncio. Que importante lição nos dá Jesus, que diante do Sinédrio testemunhavam falsamente contra Ele, “guardou silêncio e nada respondeu” [Mc14.61].

No mundo da fé, a palavra tem sido usada para desvirtuar, ludibriar, e confundir. Diante de um grupo que pregava falsos fundamentos na igreja, Paulo suplica a Tito: “É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância!” (Tito 1.11). Também balbucio isso diariamente!

Em tempos de confusão de ruídos, vozes e multidões falando, é imperioso ao cristão apertar a tecla “pause”. Sossegue. Desligue o rádio, o CD, não ouça mais nada até ouvir a voz do teu ser.

É preciso silenciar o ser para poder escutar o corpo, suas sensações, suas dores e tensões; escutar a alma gemendo, mas inaudível quando não nos desligamos dos ruídos; escutar o outro, sem nenhuma pressa. E o mais sublime: escutar Deus sussurrando ao nosso coração, escutar Deus falando nas entrelinhas das canções, falando através da natureza, e falando pela Sua Palavra – diretamente, sem intermediários.

Há uma diferença qualitativa entre “ouvir” e “escutar”. Escutar é mais do que ouvir, é perceber, é levar em conta, considerar e ponderar. Ouvir atua apenas no campo dos sentidos, mas quem escuta percebe até mesmo aquilo que não foi dito. Nem sempre o que ouve escuta, porque escutar exige silêncio interior. Como diz o poeta:

“Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma” (Alberto Caeiro)

A verdadeira transformação do ser não vem de fora, vem de dentro, do interior para o exterior. Deixar de escutar a voz interior é continuar convivendo com a tensão dos conflitos internos – justamente por não serem percebidos.

O Eterno deseja tanto nos falar que Ele se refere ao seu povo como uma amada a qual leva para o deserto, e lhe fala com ternura ao coração (Os 2.14). Deserto, lugar de prova, de silêncio, de solidão, de esvaziamento, lugar ideal para abandonar as ilusões. Mas é também no deserto que se ouve a voz das tentações. Ali é o espaço para o demoníaco manifestar suas intenções: “tudo te darei se prostrado me adorares” (Mt 4.9). Quem suporta esse tempo de silêncio e abandono sai dele fortalecido, não mais dominado pelas futilidades, nem pelas fantasias e obsessões. Seus fantasmas são deixados para trás.

“Somente em Deus ó minha alma, espera silenciosa...” [Sl 62.1]. É no silêncio que Deus fala, é no silêncio da noite, enquanto dormimos, que Deus age. Quando o Senhor quis se mostrar a um depressivo Elias escondido na caverna, primeiro veio um vento forte, depois um terremoto, e depois um fogo, mas o Senhor não estava em nenhum desses elementos poderosos. Finalmente, um “cicio tranqüilo e suave”. E lá se encontrava o Eterno.

Agora, o mais importante não é falar a Deus. É hora de escutar Deus. “Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei... cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria” (Jó 33.31-33). Há muita gente vivendo desatenta de Deus, absorta e mergulhada em seus afazeres, idéias e projetos. Deus deseja falar-lhes, mas eles acham que têm coisas mais “importantes” a fazer.

A voz de Deus num coração silencioso e atento traz repouso, um apaziguamento da alma. É o estado da simplicidade total, de quem aprendeu a descansar o olhar, e não anda à procura de grandes coisas, mas fez calar e sossegar a sua alma.

Por que não se cala?


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

domingo, 23 de agosto de 2009

USAIN BOLT


A capacidade humana de dizer que somos maiores que os números dados e “certificados” pelas ciências, contrariando todas as estatísticas

Usain Bolt, um jovem corredor jamaicano com 23 anos de idade, no domingo dia 16 de agosto no Mundial de Atletismo em Berlim, e quebrou um recorde mundial que permanecia intacto há pelo menos 21 anos na corrida dos 100 metros rasos. Conforme a Revista Veja “é uma revolução no mundo das bioestatísticas” O atleta contrariou os dados de agências conceituadas no campo de pesquisas científicas acerca da possibilidade de velocidade máxima que um ser humano pode alcançar até 2080. Na reportagem da Veja, parte final do texto, o autor conclui que “só Usain Bolt pode dizer qual é o limite do homem” (Cf.: Edição 2127/ 26 de agosto de 2009/disponível em: http://veja.abril.com.br/260809/um-atleta-alem-limites-p-098.shtml).

Como bom leitor, estava “zanzando” pelas páginas da Veja dessa semana, e essa história me chamou especial atenção. Ufa!! Oportunidade para respirar!! - depois da edição anterior – sobre os embates entre Rede Globo de Televisão e Rede Record [aqui representada e reduzida aos escândalos de Edir Macedo, bispo da IURD – aliás, acredito que todos/as acompanhou a “guerra estratégica” que tirou Sarney e o presidente Lula do cenário escandaloso mostrado na TV. Ôpa! Eu ia me esquecendo: e as duas secretárias].

Usain Bolt é um ser humano que testemunha a superação. Mas ele também ilustra o fato de que o ser humano transcende qualquer teoria empírica, e numérico-estatística, superando as máquina e os limites do valor numérico que não raras as vezes subordinam a natureza e capacidade humanas ao funcionamento das máquinas. Mais uma vez fica patente que a prática transcende as teorias.

Não quero enfatizar a fragilidade científica, tão pragmática! - antes, acentuar a superação humana como dádiva de Deus que incorporou no nosso DNA a capacidade de sermos surpreendentes, e isso independentemente daquilo que dizem acerca de nós. Também não quero ser adepto de um espiritualismo escapista, tão ingênuo! Muito menos pregar ativismos quaisquer que sejam eles, e fugas da rotina vital.

Minha proposta com esse texto é mostrar que você é capaz de se superar. Não fique parado/a, lendo estatísticas e vivendo de probabilidades, depositando sua fé em dados meramente numéricos; deposite sua fé no Deus que prima pela evolução como a capacidade que o ser humano tem de se superar, evolução curativa. Confie na esperança do Deus presente na história; aposte sua vida por estar saudável e quebrando os limites de alguns gessos do cotidiano que geram doenças das mais diversas.

Mesmo sem maiores aprofundamentos exegéticos, para mim, esse tema pode ser fundamentado em bases claras do seguinte texto bíblico:

Quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará. Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. (Ec. 11.4-5).
Abraços.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Interpretação dos sonhos ...

Interpretar o sonho de alguém é ter a capacidade de sistematizar e explicitar para a própria pessoa aquilo que ela esconde dela mesma: uma vez que sonhos são vozes interiores-pessoais que gritam a verdade em símbolos. (ALFJr)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

TENDÊNCIAS PERIGOSAS


“Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; se é

concitado a dirigir-se acima, ninguém o faz” (Oséias 11.7)


Somos seres bondosos e agradáveis, nosso olhar é sempre manso para com todos, não levamos ninguém a mal, quando nos ofendem desejamos imediatamente perdoar o ofensor, e oramos diariamente pelos nossos inimigos, certo? Provavelmente errado.

Não precisa muito esforço para perceber que há em nós uma espécie de “tendência natural” que predispõe a todos numa mesma direção de comportamento. E justificamos: somos seres humanos normais que simplesmente seguem suas inclinações interiores.

Some-se a isso o fator “circunstância”. Certa feita o rei Saul desobedeceu às ordens do profeta Samuel, e fez o que não devia ter feito. Samuel chega e o reprova, mas ele se sai com essa: “fui forçado pelas circunstâncias” (1Sm 13.12). Já reparou que em todas as suas quedas, as circunstâncias colaboraram para que elas ocorressem?

A natureza humana é decaída, com propensão ao desvio, à dissimulação, ao pretexto, e à autojustificação. Nossos ouvidos estão mais abertos ao engano e aos sofismas que à Verdade. Até os que professam a fé são mais inclinados a desviar que se aproximar do Divino.

É difícil dizer “não” às tendências, mesmo quando estas ferem os valores de nossa fé. Estamos propensos a ir sempre com a multidão, e de repente nos pegamos falando e agindo como a massa, e quem vai na contramão é visto como estranho. É engraçado que até hoje pessoas se espantam quando digo que não assisti ao “Titanic”, que recebeu a maior campanha publicitária da história, e todos à época se viram “empurrados” em direção ao cinema.

Somos por natureza idólatras, e qualquer coisa serve como ídolo para ocupar o lugar do Eterno. Bastaram alguns dias de ausência de Moisés para que Israel fundisse um bezerro de ouro e exaltasse seu poder de tirá-los do Egito. Fica fácil entender então porque as multidões fabricam ídolos: há os da MPB, do rock, dos esportes, e pra seguir a “tendência”, os evangélicos também possuem os seus que falam, cantam (e gemem).

Confundimos com facilidade as coisas criadas – como árvores, animais ou rios – com o Criador. Somos por natureza mesquinhos, e a generosidade não faz parte dos relacionamentos diários. Nossa propensão é para o orgulho, não a humildade. Para dominar, não servir. Para o bem individual, não o coletivo. Somos servos dos impulsos e paixões, tomamos decisões consultando o fígado, e escorregamos facilmente para o destempero.

Jesus nunca se deixou levar pelos que tinham aparência “religiosa”, pois “ele mesmo sabia o que era a natureza humana” (Jo 2.25).

Não sei quais são suas “tendências” naturais. Mas posso dizer-lhe: cuidado! Muito provavelmente elas não expressam aquilo que o Eterno deseja ver em você. Permitir ser dirigido pelos impulsos e tendências mantém-nos presos às reações mais primitivas do nosso ser. Não é bom para nós, e não é bom para ninguém.

É preciso reconhecimento, humildade, e um mínimo de disciplina para dizer “não”. Mas, acima de tudo é preciso permitir que o Eterno conduza nossas vidas. O Pai deseja ver cada vez mais em nós a imagem de Seu Filho. O caminho de um ser pacificado interiormente haverá de passar por Cristo até o ponto de dizermos que “já não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus” (Gl 2.20).

Li certa vez a oração de um puritano anônimo do século XVII, que falou muito a mim. Espero que fale com você também:

"Quando Tu quiseste me conduzir, eu tomei o controle da minha vida.

Quando Tu quiseste me governar, eu me dirigi a mim mesmo.

Quando Tu quiseste cuidar de mim, eu me bastei a mim mesmo.

Quando eu devia depender de tuas provisões, eu me abasteci de mim mesmo.

Quando eu devia me submeter à Tua providência, eu segui o meu desejo.

Quando eu devia estudar, amar, honrar e confiar em Ti, eu trabalhei para mim mesmo:

Eu sou por natureza um idólatra .

Senhor, meu maior desejo é levar meu coração de volta a Ti.

Convença-me que não posso ser meu próprio deus ou me fazer feliz a mim mesmo,

nem ser meu próprio Cristo para restaurar minha alegria,

nem ser meu próprio Espírito para me ensinar, me conduzir e me dirigir.

quando meu dinheiro for deus, tu me jogues para baixo,

quando meus bens forem meus ídolos, tu os faças voar para longe,

Mostre-me que nada destas coisas pode curar uma consciência ferida,

sustentar um esqueleto cambaleante, segurar um espírito desviante.

Então, leva-me para a cruz e me deixe lá".

Pr. Daniel Rocha

dadaro@uol.com.br

sábado, 15 de agosto de 2009

Frase para reflexão.

A eterna tentação do homem é a de não querer reconhecer-se como criatura diante do Criador, é revoltar-se contra essa sua condição de dependência radical e querer ultrapassar os seus próprios limites, fazendo de si mesmo um deus. Carlos Mesters

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

MAROLAS ESPIRITUAIS


“E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós.” I Coríntios 11.19 (RC)

Observa-se em cada marola espiritual pessoas, líderes e igrejas que passam a ter uma visão mais profunda do diabo e seu reino, do que de Deus e seu Reino. Assim passam a ver o demônio na cruz do altar, em fachadas de templos, cortinas, genuflexório e até em carpetes. E a ordem, sempre acompanhada de muito “afundamento” bíblico, é destruir o inimigo escondido nesses objetos e lugares.

Examinando os fatos e as pessoas que conheço envolvidas nessas marolas espirituais, vejo um superficialismo, uma mediocridade e uma falta de teologia da graça que constrange e incomoda. Muitos sobem na prancha do oportunimismo e do puxa-saquismo sem saber o tamanho da marola espiritual e sem medir um milímetro das conseqüências.

Como pastor Metodista causa-me preocupação quando vejo um presbítero em quem a Igreja investiu tanto em sua preparação, não saber pregar a palavra em condições básicas de homilética. E por não saber lança mão de frases prontas e frases de efeitos, todas aprendidas nas madrugadas com pregadores televisivos de duvidosas reputações.

Finalmente, aquieta-me sobremaneira, quando recordo que a nossa amada Igreja Metodista tem por tradição histórica a seu favor, a capacidade de enfrentar não só marolas espirituais, mas também tempestades de heresias. A Igreja Metodista é uma igreja de comunhão e convivência prezando seus princípios doutrinários firmados na Palavra de Deus. Por isso sigo alegre servindo ao nosso Senhor certo de que a Igreja é dEle...

Texto escrito, e autorizada pupblicação, pelo Rev. Gilmar C. Rampinelli, pastor da Igreja Metodista Central de São João Nepocumeno/MG.

Texto disponível também em http://www.metodistacentral.org/index.php?option=com_content&view=article&id=59:marolas-espirituais&catid=2:reflexoes&Itemid=14

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Frase do coração


Quanto mais amigos tivermos e relacionamentos mais intensos edificarmos, mais eternos seremos! Talvez eternidade não se resuma nisso, mas que tal começarmos a pensar em fazer amigos/as - acerca de relacionamentos mais profundos?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A cultura do "estar em constante trabalho”: com “a Cabeça” X com “o Braço”


Nem todo ato de estar “em” serviço e/ou trabalho, ou exercendo uma atividade seja ela qual for, é tão digno quanto se apregoa por aí. Tem gente que se gaba e bate no peito: “meu nome é trabalho e sobre nome serviço”; mas qual seria seu "apelido" se perguntássemos para os membros de sua família? Quem sabe seria: ausente!! Dentre outros. Eu mesmo, por esses dias, fui surpreendido por minha esposa me fazendo enxergar essa realidade. Aí eu comecei a refletir melhor acerca disso (...).


A verdade é que muita gente acaba “se atolando” de atividades, para fugir de coisas, de pessoas e compromissos, ou até para se auto-afirmar. A desculpa é sempre a mesma, quase uma estrofe que se repete: “alguém tem que trazer o dinheiro pra casa”. Na verdade, “trabalhar” aqui é sinônimo de uma série de artifícios lógicos e ficticiamente plausíveis, porque se reveste de uma suposta “boa intenção”, que as pessoas usam para se esconderem, e também fugir: do compromisso de amadurecer, de serem curadas, ou da necessidade de liberar perdão, ou fogem de interagir com pessoas, para fugir da realidade da casa, do tipo: “eu vou trabalhar todos os dias, você não percebe o quanto estou cansado? não posso te ajudar com essa criança" - etc.


E especialmente sobre isso, sobre essa realidade, me ocorreu outro fato: há os/as que se acham melhor porque ganham dinheiro “pensando-refletindo”, o mesmo que administrando com destreza, ou na linguagem popular - “usando a cabeça”; etc. Mas há também os que se acham melhor porque utilizam-se mais da força física no trabalho, os braços, as pernas - para conquistar “o pão de cada dia”. Não que eu considere que quem usa mais a força física no trabalho não pensa, e quem usa mais ao raciocínio não tem esforço físico – e desgastes físicos. No entanto, a verdade é que essa divisão imaginária existe, pode ser até ideológica, mas está mais presente no nosso dia a dia do que podemos imaginar, faz parte do nosso cotidiano. Foi o que eu chamei, para fins didáticos, de cultura de trabalhar: com a cabeça X com o braço.



Várias possibilidades de “limites” e “potencial” poderiam ser listadas em uma tabela acerca dessas duas culturas de trabalho, mas minha intenção não é enfatizar as diferenças, e/ou tomar partido, isso as pessoas já fazem naturalmente, quase sempre criticando sua metodologia de trabalho – cultura. Para ilustrar: Outro dia mesmo recebi uma crítica pesada acerca do horário que eu estava acordando com minha esposa – a crítica veio de um senhor de idade cuja profissão exige dele que deite muito cedo e que acorde também muito cedo. Não sei o direito que ele viu de me criticar, e ele nem se informou sobre o horário que fomos dormir - isso é o mais interessante: o certo e o errado estão subordinados à uma série de conceitos egoístas-subjetivos.



Sei que, com o advento da filosofia grega o trabalho físico ficou subordinado aos ofícios dos pensadores - filosofar. Nesse período, quem filosofava - “quem pensa”, é mais valorizado do que quem faz o trabalho físico, quase sempre os escravos. Hoje a sensação que eu tenho é que existe uma intensa rivalidade antropológica, do tipo “guerra fria”, desses segmentos. Ela acontece no âmbito subliminar e seus efeitos podem ser devastadores à psique por exemplo.



Retomo o que eu disse no início desse texto, e faço uma costura com a segunda parte para a elaboração da seguinte pergunta: Seu trabalho e/ou serviço, sua atividade qualquer que seja ela, é legítima? É fruto de um relacionamento saudável de “você com você mesmo?” De você com o seu próximo? e de você com Deus? Mas se for o contrário, com base em que tipo de “joguinho bobo e infantil” você está saindo de casa para trabalhar, ou que seja, está trazendo seu serviço para casa? Se atolando de atividades, que supostamente são boas, mas que na verdade só te escondem de suas responsabilidades? Pense, mude, ainda resta tempo! Sua família te aguarda.



Eu tive que pensar seriamente sobre isso. Fica o convite.
Abraços.