quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (ESPIRITUAL)


“Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR,
teu Deus.... O SENHOR te ferirá com loucura, com cegueira
e com perturbação do espírito. Apalparás ao meio-dia,
como o cego apalpa nas trevas, e não prosperarás
nos teus caminhos” (Dt 28.28-29).


José Saramago escreveu o livro e Fernando Meirelles filmou “Ensaio sobre a Cegueira”. É um filme denso, pesaroso, apocalíptico. Narra a história dos habitantes de uma cidade que desenvolvem uma forma de cegueira contagiosa; eles são, então, confinados numa espécie de campo de concentração para não passarem a doença para o restante da população. Logo, porém, todos perdem a visão, menos a personagem principal.

Instintos primitivos começam então a se manifestar nessa situação extrema: violência, mesquinhez, luxúria, dominação e estupro. Porém, nesse cenário de “juízo final” aflora também o lado humano, solidário e piedoso de alguns.

São as situações limites da vida que mostrarão quem de fato nós somos e quem são aqueles nos rodeiam. Não, não é na missa, no culto, nas festas ou durante os cânticos da igreja que nos é dado a conhecer o irmão e companheiro, mas quando os fundamentos do mundo são implacavelmente sacudidos: máscaras caem, largueza de gestos desaparece, palavras carinhosas tornam-se duras e o sorriso dá lugar a rostos crispados.

É normal desejarmos conviver em meio a uma comunidade onde todos sejam amáveis, solícitos, e prontos a compreender nossas necessidades, mas desconfio seriamente que às vezes Deus nos envia de encontro aos intolerantes, agressivos e estreitos de espírito só para ver como reagimos. Não que o Eterno não saiba o que vai dentro de nós, mas nós não sabemos.

É para o desamparo e solidão que às vezes Deus envia seus filhos queridos, que precisam conhecer o que vai dentro de si. Ezequias era um grande rei, mas não correspondeu aos benefícios que lhe foram feitos e o seu coração se exaltou. Tinha ele riquezas e glória em abundância: “prata, ouro, e toda sorte de objetos desejáveis” (2Cr 32.27). Mas então, quando tudo parecia bem, “Deus o desamparou, para prová-lo e fazê-lo conhecer tudo o que lhe estava no coração” (2Cr 32.31).

No filme, não é o passado das pessoas que conta – o que fizeram, ou a história de cada um – mas o que elas fazem de suas vidas a partir do “Juízo” que se abate sobre elas. De igual modo, o nascimento de Cristo inaugurou o início dos últimos dias, e desde então Sua mensagem continua questionando: - “E agora, o que você vai fazer de sua vida”?

Observe como a maioria das pessoas à sua volta reagem diante do drama da vida humana da qual todos nós somos personagens: continuam presas às futilidades, brigando por bobagens? Ou expressando tolerância, gratidão e bondade?

Diante de acontecimentos últimos, tais como a morte, a tragédia ou guerra, alguns encontram dentro de si uma simplicidade, um amor, e uma grandeza, que agradecemos a Deus por conhecer pessoas assim. Outros, por sua vez, exacerbam e potencializam o mal que habita dentro de si, e é por isso que nas guerras, homens até então pacatos se transformam em impiedosos carniceiros que perderam toda humanidade.

A cegueira está presente por toda a bíblia como uma metáfora da condição humana. Paulo afirma que o deus deste século “cegou” o entendimento dos incrédulos (2Co 4.4). Não por acaso Jesus chama os dirigentes religiosos de sua época de “guias cegos”. É verdade que há uma severa advertência para o líder cego: “ai daquele que fizer tropeçar a um destes meus pequeninos” (Mt 18.6), mas não é menos verdade que nem todos pequeninos são tão inocentes assim. Na vida espiritual não dá para jogar a responsabilidade para outrem: Deus nos concede os instrumentos necessários para discernir e conferir coisas espirituais com espirituais, pondo à prova mensagens, doutrinas e ensinamentos com a Palavra, conferindo supostas revelações e profecias com o discernimento que o Espírito nos confere no íntimo. E toda ovelha está aparelhada para distinguir o lobo do pastor.

São inúmeros os textos que mostram Jesus curando alguns portadores de cegueira. O que há de especial nestes? São cegos que reconheceram sua condição de miséria. Eles não pretendem saber alguma coisa, eles não pretendem guiar a ninguém, sofrem com a escuridão, e desejam abandonar essa situação. Comumente dizemos que o pior cego é aquele que não quer ver. Entretanto há um tipo ainda pior e perigoso: é o cego que pensa ver.

Cegueira é a condição natural da humanidade. Aquilo que meus olhos vêem carrega as deformações das sombras e da penumbra. Somente “na Tua luz veremos a luz” (Sl 36.9).

Faço a Deus minha oração nestas horas crepusculares: “Abre os meus olhos para ver, e mesmo diante do inevitável, da injustiça e das trevas que querem me seduzir, que eu seja bom, solidário, afável e profundamente humano. E quando acordar desta vida, eu me satisfarei com a tua semelhança”.



Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Creio na vida como uma escola

Por Dr.Luiz Carlos Ramos


Cremos na vida como uma escola

que nos ensina a conhecer as razões e a respeitar os mistérios;

Cremos na vida como uma escola

que nos ensina a cooperar para construir e a confrontar para resistir;

Cremos na vida como uma escola

que nos ensina a pensar com o coração e a amar com inteligência;

Cremos na vida como uma escola

que nos ensina a humanidade divina e a divina humanidade:

Cremos na vida como uma escola

que nos ensina que a felicidade é um verbo que se conjuga no plurale que a miséria é o antônimo de Deus;

Cremos na vida como uma escola

que nos ensina a ser, a conhecer, a fazer, a conviver e a saber transmitir a própria vida, na força da esperança, com a ternura da paze no compromisso da justiça para todos.

Amém.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Bênção do novo Dia


Luiz Carlos Ramos
Senhor,
A diversidade da tua criação,
a criatividade da vida em nós
e a pluralidade das estradas
nos surpreendem.
Teus misteriosos
propósitos nos reuniram,
nos aproximaram
e nos fizeram conviver.
Agora, esses mesmos propósitos nos enviam,
nos dispersam e conduzem,
por diferentes caminhos,
a diferentes destinos.
Ontem, éramos crianças que brincavam nos campos do Senhor,
personagens dos sonhos de Deus.
Hoje, somos gente peregrina,
cuja estrada se conjuga no plural.
Mas amanhã será um outro dia.
— Como será o dia de amanhã?
Senhor, tu o sabes!
Suspiramos, em nossas preces,
na esperança de que seja
um novo dia de plena alegria.
Abençoa-nos, Senhor, para que,
de forças recobradas,
vejamos o raiar do dia
no qual os ódios serão aplacados
e os temores abrandados.
Que o teu amor nos envolva
e a tua vida em nós seja plena.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amém.
Acesso dia 8 de fevereiro de 2009.