quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O CAVALEIRO DA FÉ


Nos fins do século XIX, um jovem pastor dinamarquês, chamado Soren Kierkegaard, descreveu em um livro como seriam os traços, a postura, a fala e o modo de vida de um autêntico “cavaleiro da fé”. Desde que o li, fiquei imaginando, como se apresentaria hoje, num mundo tecnológico pós-moderno, materialista e individualista, alguém que tivesse de fato compreendido verdadeiramente o que é o Evangelho e o que é ter fé autêntica, e como ele enfrentaria as contradições de nossa época. Atrevo-me aqui, a discorrer um pouco sobre essa existência:

Por ser um homem – ou uma mulher – de fé centrada na Pessoa de Jesus, ele não dá atenção a nenhuma forma de religiosidade constituída por crenças em objetos, nem leva à igreja peças de roupas, documentos, ou qualquer outra coisa, pois à semelhança da fé do centurião romano, seus lábios não se cansam de repetir: “Senhor, basta uma palavra sua...” (Mt 8.8).

É capaz de ver a bondade de Deus presente em toda a Terra. Agradece pelo sol, pela chuva, pelo pão de cada dia, e até pelas dificuldades e provações. Embora, às vezes pareça que suas forças minaram, os seus olhos são como quem vê o Invisível, por isso nunca perde a esperança.

Interessa-se por todos os assuntos, e conversa animadamente sobre tudo sem restrições. Nada do que é humano lhe causa espanto, e a ninguém julga, pois conhece muito bem as contradições e ambigüidades que existem dentro de si.

Aprecia as Artes em geral, a pintura, a música, lê romances e poesia, pois no fundo sabe que, embora sejam prazeres efêmeros, eles representam antecipadamente as coisas do céu, como um vislumbre da Eternidade, um aperitivo que nos é dado. Só quem tem olhos para apreciar as artes pode reconhecer em Deus um Artista Supremo que pintou o pôr-do-sol com aquelas cores, criou cada flor com o seu toque de beleza e perfume, e arquitetou o cintilar intermitente das estrelas para iluminar a noite.

Ao contrário de muitos cristãos, ele crê na “Graça comum”, onde Deus em sua infinita bondade outorga a todas as pessoas inumeráveis bênçãos, dons e talentos. Por esse motivo, ele se agrada da boa música sem se preocupar se ela vem de um selo gospel ou não, pois entende que só há dois tipos de música: a boa e a ruim. Entretém-se com as Bachianas de Villa-Lobos, vibra com o vozeirão de Pavarotti e de Bocelli, e sabe que há um toque da centelha divina em Elvis. Mesmo que estes não reconheçam de onde vêm tão brilhantes aptidões, o Cavaleiro da Fé sabe que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do Alto” (Tg 1.17).

Embora ame o infinito, e deseje a eternidade, sabe saborear as coisas finitas com pleno prazer. Não se deixa paralisar pelos cuidados da vida, e em sua mente não há nenhuma preocupação com o amanhã, pois aprendeu a viver dia a dia e descansar no Senhor.

Sente-se bem quando está reunido com seus irmãos no templo, mas também se alegra em poder se encontrar com aqueles que não expressam sua fé, já que não faz acepção de pessoas, nem alimenta qualquer preconceito na alma. Como é um filho da Luz, irradia por onde passa o amor de Deus, pois aprendeu que na Velha Aliança quem entrava em contato com algo contaminado, tornava-se imundo e impuro. Mas agora, desde que Jesus se deixou tocar por uma mulher hemorrágica, e tocou leprosos, ao invés de ser contaminado, a Sua Presença santifica e purifica.

Sua fé não é vivida de maneira sôfrega, com culpas e temores infundados. Está em paz com Deus, e em Cristo aprendeu a perdoar o mundo. Tudo o que ele faz é para o Senhor: seu trabalho, seus estudos, e até quando se diverte. Não tem bloqueios com o seu corpo, por isso, quando feliz, se expressa também através dele, pulando e dançando como uma criança, e não dá a mínima para os olhos maus.

Sente-se amado pelos que o cercam, mas também reconhece que nem todos o compreenderão. Por isso, às vezes parece meio solitário. E não cobra ninguém por isso, pois percebe que na vida será sempre assim – uns entenderão a gente, outros não.

O cavaleiro da fé não cultua a Deus apenas no templo. Para ele não há mais dia, nem hora, nem lugar certo para prestar culto: onde ele está tem reverência ao Senhor. Todos os dias são santificados, os lugares mais comuns podem ser sagrados, bem como as coisas cotidianas da vida. Quanto aos alimentos, não rejeita nenhum: “recebidos com ações de graça, nada é recusável” (1Tm 4.4).

Não vive temeroso com o diabo, não fica mencionando o seu nome, nem obcecado por suas ações. Sua vida pertence a Deus, é Deus quem o dirige, e reconhece que “todas as cousas cooperam para o seu bem”.

Não se encaixa em nenhum rótulo religioso: não é gospel, nem renovado, carismático ou tradicional. De igual modo, também não aceita ser designado por termos próprios do judaísmo, como levita, gadita ou profeta. Ele é simplesmente um discípulo de Cristo, e como tal quer ser reconhecido.

Bem.... Kierkegaard terminou o seu relato confessando que jamais encontrou um só exemplar autêntico do cavaleiro da fé. Eu também não, mas estou disposto a persegui-lo em minha vida, ou ao menos aproximar-me dele. Desejo o mesmo para você.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

HERÓ - (I) - RONISMO

No título o "I" fica propositalmente dividido entre concluir o termo "herói" e começar o termo "ironia" (ou ironismo). Foi a dinâmica textual que encontrei para definir a cena exaustivamente exibida pelas mídias onde um marginal que estava fazendo uma refén, no Rio de Janeiro, é atingido na cabeça por um major atirador de elite.
É interessante notarmos como o "jornalismo" de hoie [sei que não posso generalizar mas esse não é o espaço para discutir as excessões], tão afeito ao espetáculo, conforme a demanda social atual, nos faz tão parcialmente cientes de determinada situação; e embora pareça nos informar sobre o ocorrido, na verdade nos instiga à consumir "imagem" na medida em que de tudo fazem um grande espetáculo teatral.

Sobre a cena citada, foi veiculada em horário nobre de audiência, editada na medida tal à atingir IBOPE; percebemos que não é o interesse das mídias discutir o caos social que atinge as grandes cidades. Sem pessimismos, "cá-pra- nóIs", as pessoas que vivem em megalópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, dentre outras, estão fartas de tanta violência e corrupção, e miséria (ETC ... ETC ... ETC). As mídias espetacularizam o ocorrido para estimular o consumo cada vez maior dessas porcarias chamadas "notícias" - que nada informam; pelo contrário, é mantenedora de um sistema que alimenta verdadeiros monstros.

Mais um "bandido" foi abatido! está morto! Alguns comemoram. Outros: pobre da mãe pobre que não terá mais a compania de seu filho, "uma família de gente como nós, que chora o assassinato de um ente querido". Sobre a moça que era refén, à salva, com a família, devendo sua vida ao atirador de elite! O pior é que a fábrica de violência está à plenos vapores, a questão aqui não é matar o "bandidinhho" e noticiar que seu caixão está aberto - é ter coragem de pegar a diretoria do "bandidismo" - no Congresso que está alinhado com a corrupção, a má administração brasileira da "terra pública", do tesouro público; a nossa péssima distribuição de renda; etc; etc.

Falta saúde! Autoridades, menos atiradores de elite na "telinha" (viu FANTÁSTICO!); nós brasileiros nos cansamos de escolher entre o bandido e o mocinho, esse "jogo real" engendrado por vocês é perverso e amedronta nossa gente.

Por isso não vejo o major como um herói, conforme discursado por vocês; ele também é vítima dos verdadeiros bandidos - do crime de "colarinho branco". Para mim o que foi divulgadi não passou de ironismo; mas o povo não é bobo, e clama por menos violência, por menos desigualdades, por mais saúde e educação, por mais vida!

Fonte da foto: disoponível em http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/09/25/e25098609.asp; acesso dia 28/09/2009.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

TEXTOS BÍBLICOS QUE INCOMODAM


Sinto na alma, a cada dia, a dificuldade que é ser um cristão. O padrão que Jesus espera de mim nem sempre vai de encontro aos meus anseios e vontades. Confesso que há certas coisas difíceis de praticar, e imagino que a caminhada se tornaria mais “fácil” se alguns versos fossem simplesmente suprimidos da Bíblia. Eles me deixam perplexo, constrangem, expõem minhas fragilidades, e alguns conceitos que emanam deles parece não funcionar na prática.

Como é possível a Bíblia afirmar que “os mansos herdarão a terra” (Mt 5.5), se estamos vendo que quem conquista, vence e manda, são os fortes, os guerreiros e os que detém as armas?

Como concordar com a parábola em que o trabalhador da última hora recebe ao entardecer o mesmo salário de quem malhou duro o dia inteiro (Mt 20)?

E a matemática divina, então? Deixar noventa e nove ovelhas no deserto, à mercê dos lobos, para ir atrás de uma só ovelha desgarrada? Deixa-a ir embora. Quem sabe ela não fosse uma desajustada que não merecia estar junto ao rebanho.

Uma viúva pobre vai, deposita duas moedinhas no gazofilácio e Jesus afirma que ela ofertou mais que todos os “graúdões” cheios de posses (Lc 21.3). Se eu for aplicar isso em minha igreja, não terei dinheiro para pagar sequer a conta de luz no próximo mês.

O corretivo que Jesus usa parece depor contra o bom senso: um filho vai embora de casa, vive dissolutamente desperdiçando todos os seus bens, retorna de mãos vazias, e ainda “ganha” uma festa (Lc 15.25). O irmão, que permaneceu na casa teve de trabalhar em dobro durante a sua ausência, e parece que não recebeu nada por isso.

Amo a minha família, amo meus irmãos, tenho prazer em estar com os amigos. Mas vem Jesus e diz que eu não estou fazendo nada demais, pois até os incrédulos fazem o mesmo. O que Ele quer afinal? Que eu demonstre amor aos inimigos e abençoe quem me persegue? Acreditem: é exatamente isso que Ele deseja (Mt 5.43-48)! Isso é demais!

Até aqui falei como tolo. Jesus incomoda e vai continuar incomodando sempre. Por vezes agimos como o povo geraseno, que perturbados com a presença Dele, rogaram-lhe educadamente que se retirasse daquelas terras (Mc 5.17). Pretendemos afastar Jesus de tudo aquilo que Ele pode “atrapalhar”. Afinal, temos nossa vida, nossa visão, nossa maneira de pensar.

Todavia, a “loucura” do Evangelho é a nossa cura. É a verdadeira forma de encarar a vida. Quem ousar mergulhar de cabeça compreenderá, quem se arriscar verá. Aquele que aceita o Evangelho como o único modo de vida que vale a pena viver, faz como o homem que encontrou um tesouro oculto no campo, e transbordante de alegria, vai vende tudo o que tem e compra aquele campo. É preciso arriscar tudo... não há meia aposta.

O Evangelho abre a nossa mente e nos dá novos olhos. E lendo a Bíblia com esses olhos percebo que os mansos não haverão de conquistar a terra, mas a receberão do Senhor, como herança, pois só Aquele que possui todas as coisas pode herdar aos seus filhos.

O trabalhador da última hora, assim como todos aqueles que encontram o amor Divino, ainda que tardiamente, também experimentarão da bondade do Pai. Para o Supremo Pastor, uma só ovelha é tão digna de ser salva, que Ele deixaria tudo para alcançar este “único”, que sou eu e é você. A viúva pobre ofertou mais do que os outros porque eles deram do que sobrava, ela deu tudo o que tinha. O filho mais moço foi recebido de volta pelo pai porque Ele jamais nos trata segundo as nossas transgressões, entretanto rasga as cadernetas dos “justos”, com suas anotações de cobrança.

Realmente há textos que incomodam, mas ao invés de tirá-los da Bíblia, devemos vive-los, pois é justamente onde eles “pegam” que precisamos ser curados. Pense nisto.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

NO OLHO DO FURACÃO


“O Senhor tem o seu caminho na tormenta
e na tempestade” (Naum 1.3)


Hecatombes, desastres, revoluções, perseguições, pandemias, dívidas, doenças diagnosticadas, família incorrigivelmente desestruturada... como viver a fé em meio ao caos? Como estar em paz quando nos encontramos no olho do furacão? Essas coisas desestabilizam, sacodem, desequilibram, tiram o chão.

Basta um pequeno aneurisma no cérebro, basta o surgimento de um nódulo no seio, ou a comprovação de uma traição, para que de repente sejamos jogados no olho do furacão.

Faz parte do ser humano buscar a segurança e a previsibilidade, e é comum imaginar que vida boa é vida sem sobressaltos, e livre de más notícias. Mas creio que pode haver um elemento de transformação do ser que somente é despertado em meio à borrasca. Uma mudança de perspectiva e de postura pode surgir em meio ao turbilhão. Quem pode afirmar que ali não se iniciará uma caminhada de volta ao Pai? Uma mudança de olhos daquilo que é temporal e efêmero para o que é eterno? O Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade (Naum 1.3)!

Estar no olho do furacão nos faz repensar a vida. Há um aprendizado em curso. Quem já passou pelo vale da sombra da morte, com um diagnóstico “irreversível” num hospital, aprenderá agradecer a Deus fervorosamente cada manhã vivida. Quem um dia perdeu tudo, foi humilhado, e sentiu-se sozinho, saberá valorizar a amizade, o companheirismo e a solidariedade. Aquele que um dia passou necessidade extrema reconhecerá o valor que há em comer um simples pedaço de pão.

Há algo de paradoxal nos acontecimentos da vida. Davi admitiu que foi “bom ter passado pela aflição” (Sl 119.71), ou em outras palavras, ter estado no olho do furacão, para que ele compreendesse coisas que antes não compreendia.

A consciência da iminência da morte faz o homem relembrar a sua finitude e temporalidade. A solidão, o medo, o vazio, possuem o bendito valor terapêutico de resgatar sentimentos que até então encontravam-se adormecidos dentro da alma.

Acho de uma beleza comovente quando Davi se refugia numa caverna, a caverna de Adulão, fugindo de um ensandecido Saul, que desejava matá-lo. Seus irmãos e toda a casa de seu pai souberam, e foram para a caverna para estar com ele. E o mais surpreendente: ajuntaram-se a Davi todos os homens que “se achavam em aperto, endividados, e todos os amargurados de espírito”, e Davi se fez chefe deles (1Sm 22.1-2). Quem está no olho do furacão não está só.

Desdenho a “fé” dos falastrões da TV, mas me comovo com a fé daquelas mães que levam seus filhos todos os dias para tratamento na AACD. Não me comovo com testemunhos patéticos de “prosperidade”, mas me emociono vendo filhos cuidando de seus velhos com o mal de Parkinson ou Alzheimer, que nem os reconhecem mais. Acho que agora compreendo quando o Pregador diz que “melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens” (Ecl 7.2). Sim, precisamos conhecer o fim para saber viver o meio.

Hoje não nos reunimos mais em uma caverna em torno de um homem – seja ele sacerdote, pastor ou apóstolo – mas em torno Daquele que compreende o que é sofrer, pois passou por esse caminho antes de nós. Jesus, o Filho de Davi está preparado para receber as almas angustiadas que se unirão à Sua volta, obedecendo à sua vontade. Ele recebe a todos, por mais miseráveis que sejam.

Nossas reuniões não são para os felizes, nem para os sãos, e nem para os que bastam a si mesmos, mas para quem tem algo difícil de suportar, e vem até a Cruz para chorar, pedir, suplicar. Venha se unir em torno de Cristo.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

POR QUE NÃO SE CALA?


“Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei...
cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria” [Jó 33.31-33]


Correu o mundo a resposta que o rei Juan Carlos deu ao ditador venezuelano Hugo Chávez numa cúpula de governantes quando este disparou a falar em momento inoportuno: “Por que no te callas?”.

Vivemos a época da verborréia, que é a quantidade excessiva de palavras para dizer coisas de pouco conteúdo. Políticos, pastores, apologistas de diversas crenças, e “marqueteiros” em geral querem “vender o seu peixe”, e a vida é transformada num grande mercado onde os grupos disputam quem grita mais.

Acabamos entrando nessa onda. Há um ímpeto de responder a tudo. Não há tempo de digerir o que nos foi dito, pois tudo merece resposta imediata. Ocorre a poucos seguir o preceito bíblico de deixar para Deus, o Justo Juiz, a resposta, e permanecer em silêncio. Que importante lição nos dá Jesus, que diante do Sinédrio testemunhavam falsamente contra Ele, “guardou silêncio e nada respondeu” [Mc14.61].

No mundo da fé, a palavra tem sido usada para desvirtuar, ludibriar, e confundir. Diante de um grupo que pregava falsos fundamentos na igreja, Paulo suplica a Tito: “É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância!” (Tito 1.11). Também balbucio isso diariamente!

Em tempos de confusão de ruídos, vozes e multidões falando, é imperioso ao cristão apertar a tecla “pause”. Sossegue. Desligue o rádio, o CD, não ouça mais nada até ouvir a voz do teu ser.

É preciso silenciar o ser para poder escutar o corpo, suas sensações, suas dores e tensões; escutar a alma gemendo, mas inaudível quando não nos desligamos dos ruídos; escutar o outro, sem nenhuma pressa. E o mais sublime: escutar Deus sussurrando ao nosso coração, escutar Deus falando nas entrelinhas das canções, falando através da natureza, e falando pela Sua Palavra – diretamente, sem intermediários.

Há uma diferença qualitativa entre “ouvir” e “escutar”. Escutar é mais do que ouvir, é perceber, é levar em conta, considerar e ponderar. Ouvir atua apenas no campo dos sentidos, mas quem escuta percebe até mesmo aquilo que não foi dito. Nem sempre o que ouve escuta, porque escutar exige silêncio interior. Como diz o poeta:

“Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma” (Alberto Caeiro)

A verdadeira transformação do ser não vem de fora, vem de dentro, do interior para o exterior. Deixar de escutar a voz interior é continuar convivendo com a tensão dos conflitos internos – justamente por não serem percebidos.

O Eterno deseja tanto nos falar que Ele se refere ao seu povo como uma amada a qual leva para o deserto, e lhe fala com ternura ao coração (Os 2.14). Deserto, lugar de prova, de silêncio, de solidão, de esvaziamento, lugar ideal para abandonar as ilusões. Mas é também no deserto que se ouve a voz das tentações. Ali é o espaço para o demoníaco manifestar suas intenções: “tudo te darei se prostrado me adorares” (Mt 4.9). Quem suporta esse tempo de silêncio e abandono sai dele fortalecido, não mais dominado pelas futilidades, nem pelas fantasias e obsessões. Seus fantasmas são deixados para trás.

“Somente em Deus ó minha alma, espera silenciosa...” [Sl 62.1]. É no silêncio que Deus fala, é no silêncio da noite, enquanto dormimos, que Deus age. Quando o Senhor quis se mostrar a um depressivo Elias escondido na caverna, primeiro veio um vento forte, depois um terremoto, e depois um fogo, mas o Senhor não estava em nenhum desses elementos poderosos. Finalmente, um “cicio tranqüilo e suave”. E lá se encontrava o Eterno.

Agora, o mais importante não é falar a Deus. É hora de escutar Deus. “Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei... cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria” (Jó 33.31-33). Há muita gente vivendo desatenta de Deus, absorta e mergulhada em seus afazeres, idéias e projetos. Deus deseja falar-lhes, mas eles acham que têm coisas mais “importantes” a fazer.

A voz de Deus num coração silencioso e atento traz repouso, um apaziguamento da alma. É o estado da simplicidade total, de quem aprendeu a descansar o olhar, e não anda à procura de grandes coisas, mas fez calar e sossegar a sua alma.

Por que não se cala?


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br