quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

PERGUNTAS HONESTAS PARA CRISTÃOS SINCEROS


Maiêutica [do Gr. maieutikós: parto] era um processo pedagógico utilizado por Sócrates (IV sec. a.C.) que consistia em uma sequência de perguntas e respostas que ele fazia aos seus interlocutores, “parindo” deles idéias complexas a partir de perguntas simples. De igual forma, Jesus, inúmeras vezes também questionou aos seus discípulos e aqueles que o rodeavam, esperando respostas e posicionamentos, e a partir delas anunciava-lhes um novo entendimento.

Mesmo o cristão mais sincero normalmente não se anima a rever conceitos que foram se estratificando na alma durante anos, e permaneceram na forma ainda “deficiente” de um neófito na fé. Talvez por isso o apóstolo Paulo se preocupava tanto em reparar continuamente “as deficiências da fé” que os primeiros cristãos apresentavam (1Ts 3.10).

Elaboramos algumas questões para confrontar convicções e paradigmas que nem sempre resistem a uma acareação mais acurada. Vejamos:


I. É razoavelmente aceito no meio evangélico que o crente enfrente certas enfermidades, como taquicardia, hipertensão ou miopia. Entretanto, não se admite que algumas debilidades venham atingir a sua mente, o que gera uma grande resistência caso tenha de fazer terapia ou tomar drogas psiquiátricas. Por que só o corpo sofreria as conseqüências de um mundo decaído, mas a mente não?

II. Muito cristão usa e abusa do bordão “foi da vontade de Deus” para explicar mortes que ocorrem pelo descaso dos governantes e pelas injustiças sociais. Somente em nosso país cerca de 102 mil crianças morrem por ano de doenças ligadas à desnutrição. Faz parte do plano divino que elas morram no Brasil, mas não na Suécia?

III. “Nenhum pardal cai no chão sem o consentimento do Pai”, diz a bíblia. Ainda assim os pardais caem no chão e morrem. Proteção divina significa salvo conduto e a certeza que nenhum mal acontecerá a quem tem fé? O que significa para você ser protegido de Deus?

IV. Por que os pecados relacionados à sexualidade causam aos cristãos reação muito maior que a vaidade, a inveja, a maledicência e a falta de amor? Você se sentiria mais à vontade ouvindo o sermão de um homem sabidamente orgulhoso ou de um adúltero que se confessa arrependido?

V. Por que alguns segmentos cristãos julgam com severidade os apreciadores de um bom vinho, mas se calam contra os que se empanturram de comidas gordurosas, frituras e carnes vermelhas, e tomam bebidas fabricadas com corantes, acidulantes, aromatizantes e conservantes, tudo isso reconhecidamente nocivo à saúde? Não é contraditório?

VI. Se alguns pastores modernos realizam de fato inúmeros milagres na frente das câmeras, porque eles não separam um dia por semana do seu tempo para fazer a alegria de centenas de pacientes nos corredores do Hospital das Clínicas ou então às crianças internadas no Hospital do Câncer?

VII. Se a teologia da prosperidade realmente “funciona”, porque os que promovem tais coisas não fazem um bem para a humanidade instalando seus ministérios nos piores lugares do planeta, tais como a Nigéria, o Haiti ou o Sudão? Por que ela não funciona no vale do Jequitinhonha, a região mais pobre do Brasil?

VIII. Depois de mais de duas décadas de igrejas pregando a prosperidade e atingindo milhões de pessoas nas periferias das grandes cidades, já não era tempo do IBGE ter constatado que os bolsões de miséria na periferia desapareceram, e que bairros de classe média surgiram no seu lugar?

IX. Se Jesus ama as criancinhas, colocando-as como nosso modelo e afirmando que é delas o Reino dos Céus – para desgosto dos discípulos que queriam afastá-las de Sua presença – porque hoje, na prática, as igrejas impedem a efetiva inserção delas no seio das comunidades? Colocamos mais em prática a orientação de Jesus ou a repreensão dos discípulos?

X. Jesus aceitou de bom grado o gesto que uma prostituta lhe fez, chorando muito e adorando-o, causando espanto a todos os convidados que estavam à mesa. Que tipo de pessoas ou grupos, que se derramassem hoje perante Cristo, lhe causaria grande indignação?

XI. Por que Jesus, ao ressuscitar, não foi direto ao palácio de Herodes e de Pilatos, mostrando-se a eles, para causar assombro e admiração aos formadores de opinião da época? Dar visibilidade à fé com marchas e shows faria parte dos propósitos de Jesus hoje?

XII. Por que damos tanta importância aos empreendedores, vitoriosos, e famosos, e mal reparamos nos simples e desprovidos de atrativos, se Jesus falou que aquilo que é “elevado entre os homens é abominação diante de Deus”? Preferimos as coisas humildes ou as que exercem fascínio?

XIII. Se Jesus pede para cada um tomar a sua cruz e segui-lo, por que tanta gente vai atrás Dele pedindo facilidades na vida?

XIV. O que você acha de deixar noventa e nove ovelhas no aprisco para ir atrás de uma rebelde que se perdeu? Você concorda com essa aritmética divina ou é adepto do pragmatismo que privilegia as multidões?


As respostas a todas estas perguntas estão nas Escrituras. Confronte o que você “sabe, pensa ou acha” com a Palavra. Busque-a, leia com honestidade, esqueça tudo o que já ouviu de terceiros não confiáveis, peça orientação ao Espírito Santo e sabedoria que vem do Alto. Amém!


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SAUDOSISMO OU INDIGESTÃO?

Por: Rev. Antônio Luiz de Freitas

“Porque por amor de ti tenho suportado afrontas; a confusão me cobriu o rosto. Tornei-me como um estranho para os meus irmãos, e um desconhecido para os filhos de minha mãe.
Pois o zelo da tua casa me devorou, e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Salmo 69. 7-9).

Não é necessário, em qualquer meio relacionado ao povo evangélico em nossos dias, um acurado estudo sobre conduta ética ou moral para sermos acometidos de uma dispepsia religiosa e/ou teológica. Os próprios meios de comunicação em massa nos poupam deste trabalho, pois nos oferecem diariamente um farto cardápio. Não dá nem para reclamar da variedade das iguarias, porém, elas corroem como câncer e têm a cada dia vacinado um grande número de pessoas contra o genuíno evangelho que salva e que liberta. Torna-se cada vez mais difícil ser um “Pastor aprovado diante de Deus” nesta geração consumista que vai continuar sempre precisando de algo mais. Escândalos sobre escândalos se multiplicam e trazem à tona todo o excremento gerado pelos ventres insaciáveis dos modernos “mercadores gospel” para quem o dinheiro nunca basta e que, para consegui-lo, se utilizam de todos os meios possíveis. Eles estão por toda parte e podem ser encontrados nas versões: teológica, religiosa ou política. Alguém menos avisado poderia até lançar toda a culpa nos últimos, porém, penso que estes só refletem aquilo que acostumaram a ouvir de seus líderes, somando-se a isto a falta de escrúpulo da própria classe. Diante deste quadro funesto faltam-me palavras, mas não vou mesmo precisar de muitas; tampouco será necessário recorrer à verborréia latente do meio para exprimir toda minha decepção. Bastam-me apenas duas palavras: “Estou cansado!”. Li, há algum tempo atrás, um artigo do Rev. Ricardo Gondim com este mesmo título e é exatamente assim que me sinto: Cansado, frustrado e dispéptico! Sinto saudades do meu tempo de criança e adolescência, quando o pastor visitava nossa casa e meus pais nos ensinavam que deveríamos manter silêncio para ouvirmos tudo o que ele tinha para dizer. Era como se o próprio anjo de Deus tivesse chegado à nossa casa. Até os vizinhos que não eram crentes o honravam. A figura do pastor era respeitada e reverenciada, pois a isso fazia jus. Esta foi a maior razão do despertar em mim a vocação pelo ministério pastoral. Sinto saudade das máquinas com as quais lidei por toda minha vida, pois elas nunca me decepcionaram; nunca me injuriaram nem tramaram contra mim. Nunca tive que confrontá-las por mau testemunho, por obstinação em continuar pecando, nem por reincidência de desvio de conduta. Nunca vi nenhuma carta do SPC ameaçando alguma delas, nem soube de alguma que tenha adulterado, caluniado às outras, boicotado a programação da empresa, mas me entristeço ao deparar-me com estas coisas dentro da Igreja, “Corpo de Cristo”. Diferentemente das pessoas, elas poderiam até estar sujas, mas não rejeitavam quem poderia limpa-las nem se voltavam contra quem se dispunha fazê-lo. Um único procedimento era suficiente para a manutenção de todas as que eram do mesmo modelo. Acho que é exatamente aí que reside um dos pontos cruciais de todo este contexto: Os crentes de nossa geração não estão sendo mais gerados do mesmo Modelo; Jesus. Antes, se gabam de ser “um dos doze do Ap. X, Y ou Z. Não estou preocupado em que ordem me colocam na escala em relação ao bispo de minha região – pois ele, apesar de toda autoridade da qual se encontra investido e do respeito que lhe devo é, assim como eu, tão carente e dependente da graça e da misericórdia de Deus - mas se de fato meu nome está registrado no “Livro da Vida”.

Desde o início desta semana nosso país tem assistido exaustivamente pelos telejornais a notícia de um fato que foi apenas mais um dos muitos que já ocorreram e dos que continuarão acontecendo até a volta do Senhor Jesus. Políticos da chamada “Bancada Evangélica” apanhados no mais nefando ato de corrupção recebendo propina. E o que mais me chocou foi a ousadia de orar agradecendo (a Deus?) pela vida daquele que fazia chegar o suborno até eles, pedindo que aquele dinheiro desse a eles a vitória sobre seus inimigos políticos, evocando sobre eles o Sangue de Jesus. O que devemos esperar destes a quem delegamos a tarefa de nos representar quando este é o exacerbado testemunho que apresentam? Se os “evangélicos”, de quem no mínimo deveríamos esperar o respeito aos atributos inerentes ao que nos identifica como tal, agem desta forma o que devemos esperar dos outros?
Tenho evitado, sempre que posso, me identificar como evangélico. Nunca me identifico como pastor ao preencher algum cadastro porque corro o risco de não tê-lo aprovado. Prefiro deixar que as pessoas descubram o que sou por elas mesmas; não por aquilo que digo ser, mas pelo que de fato faço. Sinto vergonha de ser comparado a eles! Temos, nas palavras do Senhor Jesus, quando disse a seus discípulos que eles eram o sal da terra e a luz do mundo, uma grande lição: A luz e o sal não emitem nenhum som, mas é impossível não notar sua presença. Creio que nunca houve em tempo nenhum tanta sujeira manifesta no meio do chamado “Povo de Deus”. Que tristeza! Uma verdadeira lástima!
Estes fatos são apenas a práxis do discurso gospel alienado e triunfalista que está sendo pregado nas “igrejas modernas”, destituído da cruz de Cristo, do autoconhecimento de pecado e do arrependimento, do novo nascimento e da santidade bíblica.
Não é este o contexto do “Posso todas as coisas naquele que fortalece” (Cf. Fp 4. 13) que escreveu o “antigo” apóstolo Paulo; antes, é totalmente o oposto do pregam os “modernos” para justificar seus abomináveis intentos. Sua afirmação apenas expressa sua disposição em continuar servindo ao Senhor mesmo nas circunstâncias adversas que o acometeram. Diante destas coisas fico imaginando Satanás diante do trono de Deus apontando seu dedo imundo para a terra perguntando: “Foi por aqueles que Você entregou seu único Filho para morrer naquela cruz...?” (Cf. Ap 12. 10).

Gosto de meditar nas palavras da terceira estrofe do Hino 203 HE: “Desperta, Igreja! E vem o teu dever cumprir! A todos faze a Cristo conhecer; A tua mão estende com paciente amor; Não deixes pecador nenhum se vá perder”. Ao mesmo tempo fico preocupado ao ver o povo cantando sem ao menos pensar no que está expressando: “Satanás debaixo do meu pé” quando, na verdade, podemos vê-lo claramente nos ombros e na mente das pessoas; “Deus sabe que pode contar comigo” enquanto é quase necessário orar para que Deus levante outras jumentas que falem, a exemplo da de Balaão; As pessoas cantam a plenos pulmões: “Abro mão dos meus sonhos e das minhas vontades...”, enquanto vemos a rebeldia, o egoísmo, o orgulho e a vaidade se sobressaindo; “Eu não preciso ser reconhecido por ninguém...”, mas na verdade isto é tudo o que eu quero!

Hoje, no culto doméstico, assentado com minha família à mesa na hora do almoço, enquanto falávamos de frases notáveis esculpidas nas lápides de alguns finados, disse aos meus filhos que seria uma grande honra para qualquer mortal ter em seu túmulo a expressão bíblica compreendida entre os versículos 6 e 8 do prólogo de João: “Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”. Oxalá possa eu conquistar esta bênção, embora reconheça que no momento esteja mais para Jeremias que para João.
Encerro minha catarse tomando emprestadas as palavras do profeta Isaias: “O Senhor chamou-me desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe fez menção do meu nome e fez a minha boca qual espada aguda; na sombra da sua mão me escondeu; fez-me qual uma flecha polida, e me encobriu na sua aljava; e me disse: Tu és meu servo; és Israel, por quem hei de ser glorificado. Mas eu disse: Debalde tenho trabalhado, inútil e vãmente gastei as minhas forças; todavia o meu direito está perante o Senhor, e o meu galardão perante o meu Deus” (Is 49. 1-4).
Resguardadas as devidas proporções, é exatamente assim que me sinto! Oro para que o Senhor tenha misericórdia de nós.
Um grande abraço a todos os que, sinceramente, amam e aguardam a volta de Nosso Senhor e Salvador Jesus. MARANATHA!!!
Do menor de todos os servos do Senhor, pela sua maravilhosa graça e sua grande misericórdia para comigo e para sua honra e glória, sou para servir,

Pr. Antônio Luiz de Freitas
Igreja Metodista em Santa CruzVolta Redonda, 03 de dezembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

JESUS FICOU PRA TRÁS




“Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém,
sem que seus pais o soubessem... três dias depois, o acharam no templo” (Lc 2.43-46)

- “José, você viu o nosso filho?”, perguntou a mãe aflita.

- “Ora, pensei que ele estivesse com você, Maria. Por isso nem notei a ausência dele”.

Já passara um dia de viagem quando os pais perceberam que o filho de 12 anos não estava entre eles. Voltavam em caravana da Festa da Páscoa em Jerusalém, em meio aos amigos e parentes, e estavam tão absortos na alegria das festividades que Jesus ficou pra trás, e nem se deram conta.

Não tenho dúvida que essa mesma perda continua ocorrendo ainda hoje. Muita gente boa já pregou com lágrimas nos olhos e o coração em chamas; muitas bandas começaram desconhecidas, mas davam uma audição para o Eterno; muito ministério que não tinha “nem prata nem ouro” compensava a sua pobreza com o amor e a simplicidade. O tempo passou para eles, os movimentos cresceram, mas agora é perceptível – ao menos para os que possuem discernimento – que agora há outros interesses e motivações. Jesus acabou ficando pra trás.

Hoje você ouve horas de cânticos ou pregações e percebe que Aquele que é Digno de Toda Honra, foi esquecido, e no seu lugar entrou a vitória, o poder, o sucesso, a saúde, a oferta, o sacrifício, a unção, o sopro, o shofar, e tudo o mais que desvia a atenção do que realmente importa. Não é mais a busca de um relacionamento com o Eterno, mas a satisfação dos desejos do eu. Não é mais a conversão a um Pai Amoroso que anseia caminhar conosco, mas a adesão a um grupo que propagandeie sucesso em sua vida.


O garoto das fotos acima é Marjoe Gortner**, um menino-evangelista que começou sua carreira de “pregador” aos 4 anos. Na adolescência fazia cruzadas que arrecadava milhões de dólares e milhares de “conversões”. Mas aos 28 teve a coragem de admitir que não acreditava em nada que pregava, e resolveu desistir daquela carreira de fama. Como ato final, realizou um documentário de sua ultima campanha. Ele foi filmado falando em línguas, pedindo doações, fazendo apelos e “derrubando” pessoas com o “poder divino”. Ao final ele aparece nos bastidores rindo muito, contando o dinheiro e explicando para a câmera os truques que utilizou.

Assistimos hoje, igualmente, o desfile de homens que outrora tinham uma caminhada de fé, mas no decorrer do tempo deixaram Jesus pra trás. São almas que secaram e se tornaram figuras caricatas, em “pastores que a si mesmos se apascentam; nuvens sem água impelidas pelos ventos, estrelas errantes... aduladores dos outros, por motivos interesseiros” (Judas v.12-16).

Precisa ser muito crédulo para crer que os shows que assistimos são de fato para a “glória de Deus”, precisa de muita boa vontade para admitir que os mármores de templos suntuosos, as luzes, os holofotes, a maquiagem pesada, e o glamour, são para exaltação do Nome Dele.

A mais famosa banda gospel da atualidade acabou de assinar contrato com a gravadora Som Livre do conglomerado Globo. Será que essa poderosa empresa esotérico-espiritista de repente resolveu divulgar o Nome de Jesus e sua Palavra? Raciocine em que tipo de canção essa gravadora investirá: a que agrada ao Eterno, ou a que desperta o consumo de milhões de ouvidos? Gravará a letra que alimenta com a verdade ou a de conteúdo adocicado? Ora, o negócio dela não é Jesus: é o lucro, é o dinheiro, é Mamom! Jesus ficou pra trás.

A veneração das multidões a tudo que brilha não passa por nenhum filtro crítico porque as massas não se valem de critérios bíblicos. Cantar bonito, ter uma bíblia na mão e dizer alguns surrados chavões já é considerado suficiente.

Credulidade é um mal que sempre afetou a alma de nossa gente. Credulidade é pecado, porque aplaude a tudo e até mesmo o que Deus rejeita. Por isso a bíblia afirma “laço é para o homem dizer precipitadamente: é santo” (Pv 20.25.) Passamos cinco séculos venerando homens que foram elevados à condição de ídolos, e agora nós, evangélicos, temos os nossos também.

Quem não perdeu Jesus de vista vive para agradá-lo, busca intimidade, visa a santidade. Quem não perdeu Jesus de vista aprendeu que não busca uma vida de futilidades, mas de fidelidade. Não é o quanto você ganha que conta, mas o quanto você é fiel.

Somente depois de três dias que Maria encontrou Jesus. Foi uma longa e infrutífera busca por ele, até que tivessem a súbita idéia (que devia ser a primeira): - “Ele está no templo!”.

Quem perdeu Jesus pelo caminho deve refletir, “onde”, “quando” e “como” começou a perdê-lo. É somente voltando ao princípio, aos rudimentos, onde recebemos com avidez as primeiras letras do Evangelho, e onde a suave brisa do Espírito um dia encheu nossa alma, sim, é voltando ali com humildade e desejo de reencontrar o primeiro Amor, é que haveremos de Tê-lo para sempre conosco. Amém.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

P.S. **Assista ao vídeo de Marjoe, e compare com o que você vê diariamente na TV:
http://www.youtube.com/watch?v=KxfThlCcfHI

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O DIA QUE O DIABO PREGOU


Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque
não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. (Mateus 16.23
)

E se fosse concedida ao diabo a oportunidade de pregar um sermão? Como seria essa pregação? Obviamente ele não falaria que estava fundando uma nova “igreja” com o seu nome para arrebanhar gente, pois ele pode ser tudo, menos estúpido. É mais prático entrar na seara dos fiéis e pregar um “Deus” que não existe, expor um simulacro do Eterno e um Jesus que vai além das Escrituras, pois com isso ele semearia o joio em meio ao trigo e exporia meias-verdades valendo-se de textos piedosos, por saber muito bem que a mentira mais destrutiva é aquela que mais se parece com a verdade.

Qual seria o texto básico de sua mensagem? Com certeza ele fugiria do tremendo drama humano existente no livro de Jó, nada teria a dizer sobre o amor delicado dos dois amantes, em Cantares de Salomão , e se calaria diante do pessimismo existencial de Eclesiastes, mas pinçaria algum relato do Antigo Testamento, sobre um personagem heróico como Moisés ou Abraão, mudaria o contexto original do texto, e transporia pura e simplesmente para os dias atuais , passando por cima das mais elementares regras de hermenêutica.

O propósito do sermão versaria sobre as necessidades do homem que precisam ser supridas, e que não há espaço na vida do cristão para tristeza, derrota, perda ou cansaço. Sim, o diabo está muito interessado em “suprir”, em oferecer uma solução rápida, em apresentar um atalho, em todas aquelas situações que Deus pretende ensinar pela solidão, pela caminhada no deserto, pela disciplina, e até mesmo pela dor.

Então, um sermão “diabólico” seria mais ou menos assim:

Caríssimos irmãos (arghhh):

Vocês precisam parar de pedir e começar a reivindicar. Ao orar, não apenas peçam, mas determinem. Deus quer sentir que você tem gana, que você sabe o que quer. Encurrale o Eterno contra a parede, e exija a parte que lhe cabe no Reino.

Não aceite mais a doença em sua vida. Você não nasceu são? Você não nasceu perfeito? Pois então não aceite nada, mesmo aquelas enfermidades que são contingentes da situação humana, e revolte-se contra Deus quando elas chegarem. Se Paulo aceitou com resignação aquele “espinho na carne”, faça Deus saber que com você não será assim.

Os títulos são muito importantes para que o mundo lhe reconheça. Quem pode ser alguma coisa na vida sendo chamado de servo? Tente o título de missionário ou evangelista para começar, depois passe para pastor, mas não fique muito tempo, pois já existem muitos por aí. Se na sua denominação você não conseguir subir, funde a sua própria e autodenomine-se “bispo”. O povo gosta disso. Mas se você é de fato um homem de visão, chame alguns companheiros para ungi-lo “apóstolo”. Isso é irresistível e logo haverá uma multidão de pessoas querendo tocar nesse homem de Deus. Se for casado, conceda à sua esposa a honra de ser “bispa”, mesmo que ela não fale coisa com coisa. O importante é que percebam que a sua família é ungida.

Também é hora de começar a exigir o melhor. Nada de pedir uma casinha simples para morar ou um carro usado. Vá a uma concessionária, escolha o modelo que mais lhe agrada, dê sete voltas em torno dele e determine que será seu. Vamos deixar de pensar pequeno. Se Davi dizia que não andava “à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais” para si (Sl 131.1), isso era pensamento dele, mas com você não será assim.

Disseram que eu vim pregar um “outro evangelho” (Gl 1.8). Na verdade estou pensando no bem-estar de vocês, eu quero o melhor para cada um. Certa feita o Filho de Deus mandou-me afastar de Pedro dizendo que eu não cogito das coisas de Deus, mas dos homens (Mt 16.23). E é verdade: eu só quero lhes oferecer uma qualidade de vida melhor. Eu não tenho culpa se Jesus não aceitou as propostas que lhe fiz. Que mal há em pedir que pedras sejam transformadas em pães? Afinal , há tanta gente faminta no mundo.... Que mal há em oferecer os reinos e glória deste mundo para alguém? Eu vim para facilitar, sou pragmático. Se as coisas podem ser resolvidas de forma rápida, com um simples ritual ou com uma oferta, porque demorar?

Jesus no inicio pregava às multidões, mas depois Ele começou a fazer duros discursos (Jo 6.60) e não soube segurar aquela gente toda. Eu jamais deixaria eles irem embora porque eu dou o que eles desejam: querem pregação de prosperidade, saúde o tempo todo e que o céu aqui na terra? Eu lhes dou.

Agora, para terminar, uma dica aos que gostam de pregar de forma incisiva como eu: ao subir ao púlpito, não é preciso ter uma mensagem preparada, pois eu darei uma a você. Grite muito, gesticule, aponte o dedo, ameace, profetize alguma coisa e diga ao povo que você pisa na minha cabeça. Se alguém ousar desmascará-lo, ameace-o, exponha a pessoa à frente de todos e diga que ela possui um espírito maligno. Funciona sempre, e nunca mais irão questioná-lo. Quem tem ouvidos para me ouvir, ouça.

Bem, talvez você já tenha escutado pregações assim em algum lugar, mas não sabia de onde vinha a inspiração. Agora você sabe. O diabo detesta hermenêutica – que é a interpretação correta dos textos (ele deturpou a ordem que Deus deu no Éden, e fez uma horrível exegese do Salmo 91 ao tentar Jesus no deserto). Certa vez alguém afirmou com propriedade que “as palavras de Deus mal interpretadas são palavras do diabo”. Concordo plenamente!


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O CAVALEIRO DA FÉ


Nos fins do século XIX, um jovem pastor dinamarquês, chamado Soren Kierkegaard, descreveu em um livro como seriam os traços, a postura, a fala e o modo de vida de um autêntico “cavaleiro da fé”. Desde que o li, fiquei imaginando, como se apresentaria hoje, num mundo tecnológico pós-moderno, materialista e individualista, alguém que tivesse de fato compreendido verdadeiramente o que é o Evangelho e o que é ter fé autêntica, e como ele enfrentaria as contradições de nossa época. Atrevo-me aqui, a discorrer um pouco sobre essa existência:

Por ser um homem – ou uma mulher – de fé centrada na Pessoa de Jesus, ele não dá atenção a nenhuma forma de religiosidade constituída por crenças em objetos, nem leva à igreja peças de roupas, documentos, ou qualquer outra coisa, pois à semelhança da fé do centurião romano, seus lábios não se cansam de repetir: “Senhor, basta uma palavra sua...” (Mt 8.8).

É capaz de ver a bondade de Deus presente em toda a Terra. Agradece pelo sol, pela chuva, pelo pão de cada dia, e até pelas dificuldades e provações. Embora, às vezes pareça que suas forças minaram, os seus olhos são como quem vê o Invisível, por isso nunca perde a esperança.

Interessa-se por todos os assuntos, e conversa animadamente sobre tudo sem restrições. Nada do que é humano lhe causa espanto, e a ninguém julga, pois conhece muito bem as contradições e ambigüidades que existem dentro de si.

Aprecia as Artes em geral, a pintura, a música, lê romances e poesia, pois no fundo sabe que, embora sejam prazeres efêmeros, eles representam antecipadamente as coisas do céu, como um vislumbre da Eternidade, um aperitivo que nos é dado. Só quem tem olhos para apreciar as artes pode reconhecer em Deus um Artista Supremo que pintou o pôr-do-sol com aquelas cores, criou cada flor com o seu toque de beleza e perfume, e arquitetou o cintilar intermitente das estrelas para iluminar a noite.

Ao contrário de muitos cristãos, ele crê na “Graça comum”, onde Deus em sua infinita bondade outorga a todas as pessoas inumeráveis bênçãos, dons e talentos. Por esse motivo, ele se agrada da boa música sem se preocupar se ela vem de um selo gospel ou não, pois entende que só há dois tipos de música: a boa e a ruim. Entretém-se com as Bachianas de Villa-Lobos, vibra com o vozeirão de Pavarotti e de Bocelli, e sabe que há um toque da centelha divina em Elvis. Mesmo que estes não reconheçam de onde vêm tão brilhantes aptidões, o Cavaleiro da Fé sabe que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do Alto” (Tg 1.17).

Embora ame o infinito, e deseje a eternidade, sabe saborear as coisas finitas com pleno prazer. Não se deixa paralisar pelos cuidados da vida, e em sua mente não há nenhuma preocupação com o amanhã, pois aprendeu a viver dia a dia e descansar no Senhor.

Sente-se bem quando está reunido com seus irmãos no templo, mas também se alegra em poder se encontrar com aqueles que não expressam sua fé, já que não faz acepção de pessoas, nem alimenta qualquer preconceito na alma. Como é um filho da Luz, irradia por onde passa o amor de Deus, pois aprendeu que na Velha Aliança quem entrava em contato com algo contaminado, tornava-se imundo e impuro. Mas agora, desde que Jesus se deixou tocar por uma mulher hemorrágica, e tocou leprosos, ao invés de ser contaminado, a Sua Presença santifica e purifica.

Sua fé não é vivida de maneira sôfrega, com culpas e temores infundados. Está em paz com Deus, e em Cristo aprendeu a perdoar o mundo. Tudo o que ele faz é para o Senhor: seu trabalho, seus estudos, e até quando se diverte. Não tem bloqueios com o seu corpo, por isso, quando feliz, se expressa também através dele, pulando e dançando como uma criança, e não dá a mínima para os olhos maus.

Sente-se amado pelos que o cercam, mas também reconhece que nem todos o compreenderão. Por isso, às vezes parece meio solitário. E não cobra ninguém por isso, pois percebe que na vida será sempre assim – uns entenderão a gente, outros não.

O cavaleiro da fé não cultua a Deus apenas no templo. Para ele não há mais dia, nem hora, nem lugar certo para prestar culto: onde ele está tem reverência ao Senhor. Todos os dias são santificados, os lugares mais comuns podem ser sagrados, bem como as coisas cotidianas da vida. Quanto aos alimentos, não rejeita nenhum: “recebidos com ações de graça, nada é recusável” (1Tm 4.4).

Não vive temeroso com o diabo, não fica mencionando o seu nome, nem obcecado por suas ações. Sua vida pertence a Deus, é Deus quem o dirige, e reconhece que “todas as cousas cooperam para o seu bem”.

Não se encaixa em nenhum rótulo religioso: não é gospel, nem renovado, carismático ou tradicional. De igual modo, também não aceita ser designado por termos próprios do judaísmo, como levita, gadita ou profeta. Ele é simplesmente um discípulo de Cristo, e como tal quer ser reconhecido.

Bem.... Kierkegaard terminou o seu relato confessando que jamais encontrou um só exemplar autêntico do cavaleiro da fé. Eu também não, mas estou disposto a persegui-lo em minha vida, ou ao menos aproximar-me dele. Desejo o mesmo para você.


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br