terça-feira, 3 de junho de 2008

Breve contexto do Evangelho de Mateus. Perícope: Mateus 7.21-29

O texto de Mateus, nos mostra que Jesus, deve ser o nosso modelo de comprometimento com o Reino de Deus; Mostra que não basta termos um discurso bonito, e obedecermos radicalmente a lei, uma tradição, mediante os quais eu venha negociar algum benefício por meio de persuasão e troca. Se faço isso, eu até posso reconhecer em Jesus a figura de Cristo, mas não estou comprometido com a vida concreta, cotidiana. Será prudente todo aquele que construir sua casa sobre a rocha, esse/a é mais humano, herdará o Reino de Deus. O que constrói sua casa na rocha é quem ouve e pratica (do grego Poieo - palavra cuja raiz é Prasso/fazer = estar comprometido).

A perícope é a conclusão do sermão de Jesus: “O Sermão da Montanha”. Não é por acaso, que no Evangelho de Mateus, Jesus prega seu primeiro e seu último sermão no monte. Com o templo de Jerusalém destruído em 71 d.C, as únicas possibilidades de um movimento religioso sobreviver era com um sistema alternativo: para expiação de pecados, e também de um lugar para suas reuniões. Os fariseus tinham a sinagoga para suas “reuniões”, a prática da pureza cotidiana (agradar a Deus – obedecendo a lei de Moisés) seriam uma alternativa de expiação de pecados. Um outro movimento que superou a destruição do templo, e que recebeu “adesões” de outros grupos (assim como se deu com os fariseus) é o “Movimento de Jesus”. Jesus é enxergado na comunidade de Mateus como “O Novo Moisés”, que traz novos dois mandamentos “de síntese”: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo. O “Movimento de Jesus” tinha nas casas seu local de encontro e para expiação de pecados também observavam a lei, mas tinham nessa orientações para a vida.

Havia certo conflito entre esses dois partidos: Judaísmo farisaico (ou formativo) X Judaísmo cristão. Para ambos, guardar a lei era a possibilidade para expiação de pecados. Só que, para os fariseus guardar a lei era imitar à Deus, para agradá-lo (barganhar); Para o judaísmo cristão (de Jesus), guardar a lei, era proteger a vida. Praticar misericórdia e agradar à Deus só é possível protegendo a vida.

Porém, seguir a Jesus significava ter problemas. Jesus era visto como um atormentador da ordem social e, como o judaísmo farisaico (da sinagoga) era uma “religião lícita”, com status concedido por Roma, eles não poderiam ser “importunados” por um “qualquer da Galiléia”, pois corriam o risco de perder as mordomias junto do Estado. Errar com os fariseus, significava estar sem o devido apoio político e financeiro da sinagoga, porque eles detinham o poder do comércio. Alguns ficavam “divididos” entre a sinagoga e Jesus: simpatizavam por Jesus, mas o procuravam escondidos para não ter problemas na sinagoga, como Nicodemos, dentre outros. Até a família do cego curado em João 9 não quis ter problemas com a sinagoga, e por isso não confessou que Jesus havia curado o filho deles – esquivaram-se. Esse é o contexto em que foi escrito o Evangelho de Mateus. Tensão entre dois grupos religiosos: Um que preservava em Jesus o novo Moisés [(ênfase na prática)], e um outro que levava radicalmente a lei de Moisés adiante, vendo em Jesus um baderneiro [(ênfase no discurso)].
A tradição quando é preservada mediante um sistema opressor: que engessa e aprisiona as pessoas, que coloca fardos, quase que uma estrutura rígida de cimento, não é compatível com o paradigma de prática cristã, ensinado por Jesus. Nossa tradição deve nos tornar mais humanos, e nunca servir de cadeias fomentadoras de morte, como que casas construídas sob areia: porque essas, na medida em que o tempo passa caem, por estar fundadas em coisas transitórias de, que escorregam por entre os dedos. Podemos escolher um partido, de que lado ficar; a qual desses dois grupos pertencer? A opção era extremamente necessária à comunidade de Mateus, e para nós nos toca o imaginário; nas entrelinhas do que o evangelista quis nos sinalizar, aprendemos ser mais humanos e menos Igreja (instituição regida por leis que na maioria das vezes oprime ao invés de libertar e gerar vida).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

I(i)greja como que às cegas

Somos cruéis: longe dos olhos, longe do coração

O culto começou alegre, como sempre, um convite para Deus se achegar e tomar o lugar que a Ele é devido. Jesus veio acompanhando cada um, cada uma. A criançada chegou também, junto com uma ½ dúzia da comunidade, atrasados com sempre. Na medida em que o “Espírito tocava”, as crianças eram as crianças, e cada vez mais crianças, bem diferente da Igreja, que é sempre Igreja, e cada vez mais Igreja.

Todos estavam buscando “mais do Espírito” naquele lugar, mas engraçado ninguém olhava para uma daquelas crianças; também pudera, que tolice a minha pensar nisso, buscamos mesmo é o “bom perfume de Cristo, e elas estavam sujas demais, com mal cheiro ... e na realidade elas mais atrapalham o culto do que tudo, não poderiam ter nada a ver com Deus e Jesus, menos ainda com o Espírito, “esse só age quando estamos com tudo em ordem”, dizia a irmãzinha.

Os cânticos seguiam maravilhosos, o grupo tocava e cantava muito bem, estáva-mos todos comovidos com as divisões de vozes, e cantáva-mos juntos, claro, ninguém poderia parar para estender uma das mãos à uma qualquer que fosse daquelas. Porém uma mais atrevida, angustiada, puxou a blusa da tia e perguntou ... tem café hoje tia? Estou com muita fome! Pobre coitada da tia, teve que interromper seu momento “especial com Deus”, para dar café para uma criança com fome, uma criança que não sossega um minuto sequer, [é mole?]. Interessante, vi aquela tia derramar algumas lágrimas depois de tudo, será que ela foi tocada de uma forma diferente, por algo diferente? Fico me perguntando se não era só raiva de ter que parar seu momento quando sentia tanto Deus falando com ela, tinha que ser logo naquela hora?

E a criançada inquieta esperando a hora de terminar o culto, a hora do café. Uma respeitosa senhora muito respeitada também, saiu do seu aconchego, interrompeu seu momento de devoção à Deus para ir explicar às crianças que elas só atrapalhavam o culto. Depois de não ser atendida, não sei porque, mas lógico, as crianças deveriam ter respeitado ela; ela pegou as duas pelo braço e levou para longe do templo, do local onde o culto estava acontecendo, de onde o Espírito estava agindo. Eu acompanhei, não poderia perder o ensinamento, tinha certeza do muito que aquela senhora atinha a me ensinar ... mas eu me decepcionei, ela as largou em um local afastado, deitadas no chão; não sem lhes e dizer: “vocês façam as suas bagunças à vontade aqui, lá não pode” - Virou as costas e se foi.

Eu pensei: “que coisa - Longe dos olhos, desde que não me atrapalhe os ouvidos, nem me traga mau cheiro ao nariz, o coração estará impermeabilizado contra essas crianças. Longe dos olhos, longe do coração, a final de contas, que compromisso tenho eu com elas, não é verdade?

Fico observando o quanto somos hipócritas. A instituição é eficiente para fazer documentos e modificá-los, buscar o espírito, opa, vamos pro monte e fazer vigílias, mas a grande verdade é que não queremos trabalhar com pessoas – seres humanos. Menos ainda com aqueles/as que pensam diferente de nós, ou que não têm o privilégio de tomar um banho todos os dias, ou que têm uma refeição por dia, e olhe lá. Para essas, raras às vezes levamos “um sopão”, ou entregamos um folheto, e sempre avisamos que Deus pode libertá-las do diabo que as faz passar fome, e viver tão sujas. Depois disso, lavamos as nossas mãos, com a sensação de “ufa” - serviço cumprido.

Até quando vamos brincar de ser Igreja de Cristo? Nossa lógica está invertida, Igreja deveria ser lugar de “doentes”, esses precisam de médicos, os são não precisam. Mas nós preservamos os sãos “protegidos” dentro da Igreja, deles agora é o reino sabe-se lá de quem, o de Deus certamente que não. Quando um doente chega na comunidade, ou um deles que estava já participando dos trabalhos na Igreja, porque a casca da ferida estava escondendo o machucado [assim ninguém sentia nojo dele], “cai” [na gíria dos doutores da lei], esse deve ser disciplinado por um “mais-são-que-ele” que está sempre lá no banco “rezando literalmente na cartilha”.

Acho que precisamos refletir melhor sobre isso. Porque precisamos ser “sal da terra e luz do mundo”. Não devemos ter o sentimento de afastar as pessoas de nós, pelo fato de assim, mentirmos para nós mesmos que tais pessoas, ou tais realidades não existem; mas a proposta de Jesus para nós, é que assumamos o nosso papel enquanto um “comunidade cristã” para fazermos a diferença. Mais perto os olhos, mais perto do coração, e fazer cada vez mais a diferença aos que precisam que ela seja feita. Essa deve ser a lógica, e não o contrário.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Antes de tudo, somos seres humanos. Isso está regsitrado no livro de Gênesis


E lá estavam eles, porém, um palestrante em específico me chamou muito a atenção; ele ministrava a um grupo de pessoas, para cristãos [será? Talvez alguns poucos dentre tantos que estavam presente]. Com graça e humanidade, e muita simplicidade, ele falou do direito à vida, não sem citar a “sua-nossa-senhora” [dependendo da conotação que o termo assume]. Notei que algo diferente [ou que, pelo menos deveria ser diferente] estava acontecendo.

E veio o cafezinho ... ele, o ilustre, vagou solitário por entre a “multidão de fiéis”, pessoas interessadas muito mais nas tantas qualidades de bolachas que estavam na mesa, mas eram também pessoas compenetradas em seus próprios grupos, aqueles “grupos afetivos”, onde todos são iguais, ou pelo menos se parecem em muita coisa. Ele não foi acolhido em nenhuma daquelas tantas “ilhas-humanas”, aglomerados de espelhos, de frente uns para os outros. Nem mesmo naquela seleta ilha ele foi acolhido, “dos-da-mesa” de palestrantes, na qual ele havia feito parte minutos atrás.

Eu vi um senhor maduro, de cabelos alvacentos, muita experiência de vida, com histórias para contar. Falo daquelas, fruto de suas tantas missões junto aos índios, aos acampamentos de militantes pela reforma agrária. E nós? Como nos posicionamos? Quando já bastava não ter abraçado com afeto, criticaram; e olha que, para muitos, não foi difícil atirar “aquela primeira pedra”, daquelas deixadas pelos acusadores da mulher adúltera em João 8.1-11, quando interpelados por Jesus. Sobre o episódio bíblico, já sabemos que era uma classe de pessoas que se pretendiam salvas, moralistas doutores da lei, aqueles salvos pela lei atemporal, lei que subjugava inclusive a vida.
Na “conferência” preferiram utilizar-se de reducionismos ao se dirigirem àquele senhor, rotularam ele, reduziram ele ao seu título de "padre", ao invés de chamá-lo pelo seu nome, trataram-no por: "um católico, um qualquer". Aqui a palavra “padre” assumiu significado quase que pejorativo na boca dos/as colegas, e a maioria fez assim. Registrou-se na memória, humana [será?], mas também na das máquinas digitais, em fotos e câmeras: o desrespeito ao ser humano, àquele que estava bem ali na nossa frente, que generosamente nos ensinava ao falar de humanização.

Hoje, mais que nunca, lembramos das pessoas pelos seus muitos títulos, não pelo fato de seu um ser humano, mas pelo que ele/a adquiriu; respeito devido? mérito reconhecido? Não ! Não ... nesse caso era visível, traduzia-se em radical ato de “defesa” a uma determinada “bandeira denominacional”. Patriotismo ou pertença? Não! Não ... segregacionismo e individualismo, exclusivismo egoísta.

Caros colegas, amigos/as, antes de sermos: homens ou mulheres, dessa ou daquela denominação, cristãos ou não-cristãos, étnicos, culturais, políticos, somos seres humanos. Nada e nem ninguém pode subjugar e reprimir a vida. Na minha opinião, deve ser considerado como legítimo cada instinto humano encarnado naquele/a que está no caminho da busca por sobrevivência, no estágio: “humanizando-se” [todos estamos nesse]. Lembremos que o nosso Deus já permitiu, antes mesmo que existíssemos: a vida. Ele, mediante sua graça, disse sim à humanidade, uma parte-parcela em meio a tantas outras formas de vida; tudo proveniente de um mesmo ato criador de Deus.

domingo, 25 de maio de 2008

Pense em dar uma renovada em sua vida

Esse é um texto que circula há tempos pela internete. Não deixa de ser sempre utilizado em blog's, etc., no sempre "estilo de auto-ajuda", o que tem sido muito explorado atualmente. Não consegui identificar a fonte do texto, muito menos o autor. Guardada as devidas proporções, não deixa de ser uma reflexão interessante.

Os japoneses sempre adoraram peixe fresco. Porém, as águas perto do Japão não produzem muitos peixes há décadas. Assim, para alimentar a sua população, os japoneses aumentaram o tamanho dos navios pesqueiros e começaram a pescar mais longe do que nunca. Quanto mais longe os pescadores iam, mais tempo levava para o peixe chegar. Se a viagem de volta levasse mais do que alguns dias, o peixe já não era mais fresco. E os japoneses não gostaram do gosto destes peixes.Para resolver este problema, as empresas de pesca instalaram congeladores em seus barcos. Eles pescavam e congelavam os peixes em alto-mar.


Os congeladores permitiram que os pesqueiros fossem mais longe e ficassem em alto mar por muito mais tempo. Os japoneses conseguiram notar a diferença entre peixe fresco e peixe congelado e, é claro, eles não gostaram do peixe congelado. Então, as empresas de pesca instalaram tanques de peixe nos navios pesqueiros. Eles podiam pescar e enfiar esses peixes nos tanques, como "sardinhas". Depois de certo tempo, pela falta de espaço, eles paravam de se debater e não se moviam mais. Eles chegavam vivos, porém cansados e abatidos. Infelizmente, os japoneses ainda podiam notar a diferença do gosto. Por não se mexerem por dias, os peixes perdiam o gosto de frescor. Os consumidores japoneses preferiam o gosto de peixe fresco e não o gosto de peixe apático. Como os japoneses resolveram este problema? Como eles conseguiram trazer ao Japão peixes com gosto de puro frescor? Se você estivesse dando consultoria para a empresa de pesca, o que você recomendaria?Antes da resposta, leia o que vem abaixo:


Quando as pessoas atingem seus objetivos - tais como: quando encontram uma namorada maravilhosa, quando começam com sucesso numa empresa nova, quando pagam todas as suas dívidas, ou o que quer que seja, elas podem perder as suas paixões. Elas podem começar a pensar que não precisam mais trabalhar tanto, então, relaxam. Elas passam pelo mesmo problema dos ganhadores de loteria, que gastam todo seu dinheiro, o mesmo problema de herdeiros, que nunca crescem, e de donas-de-casa, entediadas, que ficam dependentes de remédios de tarja preta.


Para esses problemas, inclusive no caso dos peixes dos japoneses, a solução é bem simples. L. Ron Hubbard observou, no começo dos anos 50: "O homem progride, estranhamente, somente perante a um ambiente desafiador" [grifo meu]. Quanto mais inteligente, persistente e competitivo você é, mais você gosta de um bom problema. Se seus desafios estão de um tamanho correto e você consegue, passo a passo, conquistar esses desafios, você fica muito feliz. Você pensa em seus desafios e se sente com mais energia. Você fica excitado e com vontade de tentar novas soluções. Você se diverte. Você fica vivo! Para conservar o gosto de peixe fresco, as empresas de pesca japonesas ainda colocam os peixes dentro de tanques, nos seus barcos. Mas, eles também adicionam um pequeno tubarão em cada tanque.


O tubarão come alguns peixes, mas a maioria dos peixes chega "muito vivo". E fresco no desembarque. Tudo porque os peixes são desafiados, lá nos tanques. Portanto, como norma de vida, ao invés de evitar desafios, pule dentro deles. Massacre-os. Curta o jogo. Se seus desafios são muito grandes e numerosos, não desista, se reorganize!Busque mais determinação, mais conhecimento e mais ajuda. Se você alcançou seus objetivos, coloque objetivos maiores. Uma vez que suas necessidades pessoais ou familiares forem atingidas, vá ao encontro dos objetivos do seu grupo, da sociedade e, até mesmo, da humanidade. Crie seu sucesso pessoal e não se acomode nele. Você tem recursos, habilidades e destrezas para fazer a diferença. Ponha um tubarão no seu tanque e veja quão longe você realmente pode chegar.

"O Prato de Lentilhas" e mercado

Fico admirado ao ler a história dos irmãos Jacó e Esaú. Principalmente o tão abordado episódio do “prato de lentilhas”. Minha admiração é pelo fato de como os irmãos se movem na cena do texto, e tomam suas decisões, quase que uma brincadeira. Quando Esaú chega com fome de um de suas caçadas, ele sente o cheiro delicioso prato de lentilhas, que Jacó acabara de cozinhar.

Jacó, provavelmente sonhava com o fato de um dia poder ter sido o primogênito, mas é improvável que estivesse premeditando cozinhar as lentilhas para roubar a primogenitura de seu irmão Esaú. Um sonho de criança (...), quem nunca teve um? Talvez um sonho que era alimentado dia a dia, pelo fato de por pouco não ter nascido “o primeiro”.

Falar em primogenitura na cultura semita significava tocar em assunto importante – o mesmo que mexer com a lei, uma das “regras da cultura judaica”. No texto (...) ambos abordavam a primogenitura, cada um por um prisma diferente, mas nenhum dos dois estavam falando em regras semitas (...); talvez para Jacó, aquilo fosse um momento terapêutico, onde seus traumas mais infantis estavam sendo trabalhados, e para Esaú, era a oportunidade de matar a sua fome [que não devia ser pouca]. O que aconteceu aqui foi exatamente “uma troca de favores”.

Na “troca de favores”, para ambos, o que valia era muito mais unir o útil ao agradável, que fazer mercado. Vamos negociar então!! O prato de lentilhas pela primogenitura, e tudo logo estaria resolvido. Certamente que nesse caso Esaú saiu na melhor, saciou a sua fome. E infelizmente, o que ele disse a Jacó seu irmão, não valeu de nada. Esaú não tinha condições – de nenhuma espécie - de transferir sua primogenitura ao “irmão sonhador”. Isso fica bastante claro para nós, quando posteriormente, a mãe dos irmãos precisou utilizar-se de certa “artimanha” para que Jacó fosse abençoado por Isaque, no lugar de Esaú.

Tal história nos remete ao período do sistema tribal do povo de Israel, muitos historiadores denominam esse, um período de grande pureza e ingenuidade do povo semita. Tudo quanto colhiam da terra, e o leite, e a carne: dividiam! As necessidades entre o povo no período tribal eram sanadas na radicalidade da fé, por meio da partilha. A troca acabava sendo em função das necessidades uns dos outros, diferente da função utilitarista na busca por aproximação das pessoas, visível atualmente. A história de Jacó e Esaú retrata muito bem “a ingenuidade”, e a propensão à troca - a partilha em função das necessidades de cada um.

Certamente que, a história do povo de Israel toma rumos diferentes com a implantação do sistema monárquico, etc. Implica numa mudança drástica na estrutura cultural mais profunda do povo de Israel. Israel passa a conhecer a “comercialização”: com a inclusão do boi na cultura semita (animal de grande porte), os lucros, surge o exército que tem que ser mantido pelo “Estado”; maior movimentação de valores e etc. A concepção do povo muda, as demandas – agora ambições – passam ser outras. E posteriormente, o contato do semita com o helenismo - mundo helênico, grandes reformas; (...).

Você deve estar se perguntando, mas por que tanta história? Fato é que, hoje somos resultado de “uma história”. O sistema capitalista de mercado, em pleno exercício, como que um vulcão em erupção, já nos dita um estilo de vida, modas e tendências. O capitalismo reformulou a nossa história, mexe com nossas rotinas, e isso nos traz grandes implicações bastante atuais, das quais, não podemos ficar como que alienados. Fazemos parte de uma sociedade, cada vez mais “utilitarista”.

A história de Jacó e Esaú, de que ela nos serve? Como interpretar a história do “prato de lentilhas” hoje? Bem diferente daquela época, hoje tudo é mercado!! A troca não é mais para satisfazer a necessidade do que pede, mas é exatamente “onde” consigo ganhar, explorar, arrancar a qualquer custo o meu lucro.

Temos um bom motivo para refletimos aqui:

Se Jacó fosse vivo hoje, certamente ele estaria preparando o prato de cozido, com o qual roubaria o direito do irmão de primogenitura. Ele seria o primogênito, ainda que a partir da fome do seu irmão – mas, “os fins justificam os meios”? A conversa seria gravada, para que depois um advogado pleiteasse junto de um Juíz a parte que caberia a Jacó: talvez implicações modernas da promessa feita por Esaú.

Também, muitos de nós negociamos coisas, que não deveriam ser negociáveis. Nossa fé, nossa esperança, nosso testemunho, e na sociedade dos “Nick Name” - nosso nome, nossa primogenitura. Não vivemos em uma sociedade ingênua, não podemos sair por aí “fazendo e desfazendo”, e a partir de meus achismos, “negociar” elementos centrais da minha vida, do meu eu – do meu corpo.

E, qual é a minha postura, diante daqueles(as) que estão do meu lado? Enxergo nas pessoas – seres humanos, ou “possibilidades”? Muitas pessoas têm tanto, outros, são tanta coisa – tanto ‘status’, porém é sempre às custas do irmãozinho, da irmãzinha - do fracasso de alguém, do processo chamado “negociação gospel”. Negocio até “o meu dom”, esse vira meio pelo qual consigo acesso àqueles/as que “estão no poder”.

Penso que está na hora de aprendermos com a história do prato de lentilhas, e resignificá-la para hoje: O episódio dos irmãos Jacó e Esaú. Devemos nos revestir da simplicidade e do amor com que os irmãos se ajudavam na comunidade primitiva, período tribal do povo de Israel. Não devemos nunca perder de vista os nossos objetivos enquanto cristãos, paradigmas ensinados por Jesus: de comunhão e partilha. Não podemos negociar aquilo deveria ser inegociável para nós, mas que acabo abrindo mão, por conta das “exigências do mercado”, para obter algum lucro, ainda que a troco de algo que satisfaça nossas necessidades, tão passageiras, e momentâneas, tão ínfimas, tão (...).