quarta-feira, 27 de agosto de 2008

INCOMPLETO, FINITO, LIMITADO, MAS FELIZ

“O Senhor te porá por cabeça e não por cauda...” (Dt 28.13), “você nasceu para ser vencedor....”, “você dominará sobre outros....”, são frases cuidadosamente pinçadas da bíblia pelos pregadores da felicidade para apresentar uma forma de vida vitoriosa e sem percalços aos seus ouvintes. A razão disso? Em nosso meio de fé há uma grande dificuldade em lidar com qualquer coisa que se assemelhe a decepção, tragédia, dor, tristeza, ou separação. Então, se constrói toda uma teologia de como evitar que coisas desagradáveis nos aconteçam.

Testemunhos contando vitórias, ganhos e novas aquisições são comuns e apontam ao inconsciente coletivo que há algo errado quando isso não é uma realidade também em sua vida. No seio de uma igreja ninguém mais pode estar triste, choroso, pensativo ou melancólico, pois vivemos numa cultura cristã-hedonista, onde ter fé em Deus é a senha para buscar o prazer o tempo todo, como se tal fosse possível ou mesmo saudável para a alma. Diante desta geração de novos crentes, sinto-me como o poeta Álvaro de Campos em seu “Poema em Linha Reta ”:

(...)
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
(...)Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Vendeu-se a idéia de que crente tem de “funcionar” bem em tudo, ser belo, saudável, contas em dia, qualidade total, como um produto exposto na prateleira. Enquanto o mundo procura fórmulas para suprimir a tristeza e aniquilar o vazio em livros de auto-ajuda, no meio cristão surgiu uma coqueluche para participar de “Encontros” que pretendem ser a panacéia universal para os problemas existenciais, e prometem em alguns dias devolver uma nova pessoa para a comunidade. Isso é realmente tremendo (ludíbrio)! Engraçado como ninguém pensou em criar encontros ensinando como ser simplesmente servo (talvez por falta de público interessado).

Sempre haverá uma incompletude e certa insatisfação na vida do cristão. Nenhum culto, nenhum encontro da comunidade de fé, nenhuma pregação ou apresentação musical pode trazer satisfação completa. Se a saciedade fosse total não haveria o desejo de buscar mais. O salmista, mesmo conhecendo Deus, mesmo partilhando de Sua intimidade, ainda assim revela sua incessante busca: “a minha alma tem sede de Deus”. Ou seja, bebemos, mas queremos beber mais (não confundir com “anedonia”, que é um distúrbio da alma, uma incapacidade de sentir prazer ou satisfação).

Se todos vivessem satisfeitos e plenos ninguém produziria nada, bastaria se apropriar do que já é dado. O músico, o pintor, o escritor e o poeta realizam sua obra, não porque têm respostas, mas porque têm muitos questionamentos. É o mal-estar diante do mundo que nos leva a compor, a pintar e escrever, como estou fazendo agora. Os conformados, os bem-ajustados, os ricos, os medrosos.... estes nada querem mudar ou fazer – estão tristemente contentes em suas mediocridades e convicções. Mas é justamente a consciência que somos imperfeitos que nos impulsiona a realizar algo melhor.

Até a tristeza tem o seu lugar na vida: a bíblia ensina que há tristeza para a vida e há tristeza para a morte (2Co 7.10). Se forem lágrimas originadas do coração de Deus, essa dor será bem-vinda pois levará a alma a bom termo.

Paradoxalmente, tudo que é belo é triste, seja um pôr do sol ao entardecer, que é uma metáfora da vida que se esvanece, seja a beleza de uma música ou de uma flor, por não podermos perpetuar aquele momento. Fica então compreensível para nós quando Paulo diz que tem o desejo de partir e estar com Cristo que é “incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). E por quê? Ora, ele mesmo responde que enquanto no corpo, estamos “ausentes do Senhor” (2Co 5.6), porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente.... agora, conhecemos em parte.... (1Co 13.12).

É preferível a humanidade hesitante dos que tem dúvidas aos que esbanjam convicções. Eu não teria paciência em conversar um minuto com o irmão mais velho do filho pródigo, mas me deliciaria em passar horas trocando idéias com aquele jovem cheio de vida.

Também não quero ficar perto de quem se diz sempre contente – duvido que entenderia uma dor.

Não quero papo com evangélicos que fazem da fé um escambo com o Eterno: dá-se uma “notinha” pra Deus e Ele, em troca, atende o seu desejo.

Não quero orar por gente descontente porque ainda não possui o novo Ipod de 160Gigas.

Não quero marchar com multidões que depositam uma fé cega em homens e fazem qualquer sacrifício para ver seus ídolos de perto. Aliás, não quero nem marchar, mas andar pelo caminho olhando as aves do céu e os lírios do campo.

Felizmente encontro no apóstolo Paulo um ombro de lucidez espiritual: Se tenho de gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza (2Co 11.30). Sou incompleto, finito, limitado... mas, não trocaria de lugar com ninguém.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Um convite à reflexão

Refletimos sobre a vida e seu significado, e até sobre “valores cristãos”, a partir de um pré-suposto de gueto, de “bem estar”. Até que algo surpreendentemente ruim aconteça e me tire das mãos o tão cultuado controle; é o que basta para que meu castelo de convicções esteja abalado, meu ponto de vista se abra às explicações diferentes até então abominadas. Conseqüentemente, eu passo a refletir a vida a partir de pressupostos menos ufanistas e fantasmagóricos, e mais a partir de encarnadas variantes, coisas que falem de pessoas e contexto, de cotidiano.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Deus. Ele é "o primeiro" ?



Fico observando tantos(as) por aí, que querendo dar os devidos créditos à Deus, falam que ele é sempre o primeiro. Ledo engano, que gera no imaginário um grande problema. Um pouco de filologia, análise do discurso, semiótica, de neurolingüística, e bom senso mesmo, nunca fez mal à ninguém. Aliás, tem muita gente se afundando por aí, e furando “o bote navegador” de mais umas centenas de pessoas, por não se preocuparem com o que estão falando, não da forma que estão falando, mas a essência, o que isso tem gerado no imaginário daqueles(as) que estão ao redor. Isso é responsabilidade nossa, refletir sobre a essência daquilo que falamos, bem como os frutos, resultado de tanto “blá, blá, blá”.

Quando falamos que Deus é o primeiro, estamos colocando ele em uma tabela, tabela onde existe a segunda prioridade, o terceiro, a quarta, e assim sucessivamente. Quem sabe, um dia ele apareça em segundo ou terceiro plano. Será que já não é isso que acontece por aí e por aqui? Fruto de sempre dizermos, por tão bondosos que somos, e humildes [risos]: Deus vem em primeiro lugar !! O termo: “primeiro”, implica uma ordem, linguagem já matematisada; significa que, dentre tantas outras prioridades, no momento Deus está na frente. Isso é bonito, mas falso e perigoso. Porque em tempos de desilusões, automaticamente as pessoas tendem a fazer a leitura de que Deus abandonou “a cabeça da fila”, o que me faz dar cabeçadas para lá, e para cá, buscando a ajuda do(a) político(a) fulano(a) de tal ... ou do(a) profeta fulano(a) de tal (é o que vem em primeiro agora). E se ele não abandonou eu mesmo(a) vou tirar “porque Ele não está resolvendo nada”: Isso de acordo com o meu bem-estar, quase que mediante “meu estado de espírito”.

Na Bíblia, o termo traduzido por primeiro, pode ser entendido no original como sendo “O anterior” (antes de tudo). No gêneses, antes de existir o primeiro (dia), Deus já estava presente.
Pode parecer uma bobagem, mas Jesus nos manda aprender com formigas. Coisas pequenas podem fazer toda diferença.

Entenda isso, “Deus é o que é”, nós não precisamos dar à Ele o status de primeiro, mesmo porque não temos tal autoridade, e nem muito menos temos condições de reduzi-lo às nossas matemáticas, e contas, e prioridades, que quase sempre se resumem em uma listinha de presentes que queremos para estar abençoado o nosso dia a dia.

Antes de tudo, de qualquer coisa: Deus é, Deus já está.

SÍNDROME DE BURNOUT: O ESGOTAMENTO DA ALMA


“Porque nós também somos fracos Nele, mas viveremos com Ele,
para vós outros pelo poder de Deus” (2Co 13.4b)

Talvez você nunca tenha ouvido falar da Síndrome de Burnout, mas se você é um educador, assistente social, enfermeiro, líder religioso [pastor, diácono, presbítero, professor] ou se sua profissão é lidar diuturnamente com o ser humano, mantendo contato próximo com outros indivíduos, é um potencial candidato de, mais cedo ou mais tarde, vir a desenvolver alguns sintomas da síndrome.

Tudo começou em meados da década de 70 quando um pesquisador americano começou a observar o desgaste, a irritação e a afetação do humor dos profissionais da área da saúde. O termo Síndrome de Burnout vem de burn (queima) e out (exterior), como se a pessoa entrasse em “combustão” física e emocional, resultando num estresse ocupacional e um comportamento irritadiço.

Todos aqueles de quem se espera direcionamento, solução de problemas, respostas e ajuda, tornam-se suscetíveis a desenvolver tal síndrome. Às vezes pode atingir um grau tão devastador de cansaço físico e emocional, que leva a uma total desmotivação (“não posso mais”) e desinteresse (“não quero mais”). É quase uma desistência dos ideais que sempre abraçou e defendeu. É o esgotamento da alma, um cansaço que nenhum fim de semana consegue resolver ou amenizar.

Alguns sintomas psicossomáticos podem surgir, tais como enxaquecas, insônia, hipertensão e gastrite. No comportamento, incapacidade de relaxar e irritabilidade. Emocionalmente há um distanciamento afetivo, dificuldade de concentração, apatia e hostilidade, e por vezes muita ironia. Passa a ter uma conduta negativa em relação aos alunos, clientes, colegas de trabalho, e na vida igreja, em relação aos irmãos e à própria instituição religiosa.

Embora não seja propriamente um problema de origem espiritual, é inegável que afeta o espírito e o relacionamento com Deus.

É interessante observar que alguns personagens bíblicos desenvolveram reações negativas justamente a partir do adoecimento de suas relações interpessoais. Moisés quase desfaleceu ao lidar com o povo, a ponto de seu sogro intervir para salvá-lo daquela situação; Elias teve um esgotamento, Jeremias tornou-se inconsolável crônico, Paulo consumiu-se para atender os reclamos de uma igreja exigente e desconfiada.

Não somos melhores que eles, ao contrário, compartilhamos das mesmas fraquezas (Tg 5.17). Não somos “super-crentes”, nem estamos imunes às doenças da alma. Perceber-se doente não é vergonha ou demérito. Aliás, Paulo ensina: “se tenho de gloriar-me é somente no que diz respeito à minha fraqueza” (2Co 11.30).

O perigo é não saber-se doente e ignorar os sinais que vão se manifestando ao longo do tempo. Embora seja um problema relacionado à atividade profissional/vocacional é inegável que seus efeitos destrutivos atingirão outras áreas da vida. Há pastores não conscientes de suas doenças ocupando púlpitos, procurando encontrar culpados por sua inadequação pessoal, há líderes projetando na congregação seus “verdugos atormentadores”, que na verdade não estão fora, mas dentro de si. O resultado é cinismo, distanciamento afetivo, linguajar duro, desprezo, e uma indisfarçável desesperança.

Duma certa forma, as frustrações ao longo do caminho, o não-reconhecimento, excessiva pressão externa e uma exagerada cobrança interna – perfeccionismo – aliados à incapacidade de perceber os próprios limites, podem abrir as portas para o início de uma síndrome.

Por outro lado, a humildade em reconhecer-se doente e um espírito flexível capaz de permitir-se mudar as posturas inadequadas diante da vida, são ingredientes básicos para não se deixar cair e ficar prostrado. E é claro, manter uma fé inabalável Naquele que por ser Senhor de tudo, pode até mesmo transformar estar humilhação em glória. Quem sabe um dia ainda poderá dizer: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição....” (Salmo 119.71)


Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br

segunda-feira, 14 de julho de 2008

“QUASE ONIPOTENTE”







Amanheceu! Aos primeiros raios, começou a fugir a escuridão
Muito lentamente, como alguém que impedir quisesse
O brilho do astro rei que aquece
Nossa terra, dando vida à criação.

Como és majestoso, oh! soberbo gigante reluzente!
Se para ti que és criatura olhar não posso
Imagino a glória daquele que te fez, O Senhor nosso!
O Deus eterno, soberano, Excelso, onipotente!

Esmerou-se Aquele que te fez! Quase onipotente és tu; isso não nego!
Encheu-te de beleza, de poder..., esbanjou sabedoria e não poupou requinte
Não tens que te preocupar com os anos: com o que passou, nem com o seguinte.
Como nós, mortais, não envelheces, não te encurvas, não adoeces, não ficas cego...

De governar todo o sistema, ao simples brotar de uma semente
Poder a ti foi dado. De norte a sul, de leste a oeste enches tudo com tua arte
Tanto resplendor, porém, da glória do Senhor é apenas parte
Daquele que tudo fez e tudo faz, que era, que é e o será eternamente!

Domínio e poder sobre todas as coisas deu-nos o Criador. Fizemos tudo errado
Destruímos a camada de ozônio, rios... Nossa marca já se encontra até na lua!
Nosso ego nos empurra para a morte; esta é a verdade “nua e crua”
Ferido de morte, nosso planeta chora seu triste destino anunciado!

Do alto onde estás, quantas gerações por aqui passar já viste?
Reinos e nações caíram, mas tu continuas soberano.
Tu fazes o segundo, o minuto, a hora, o dia, o mês e o ano
Aqueces o rico e o pobre, o forte e o fraco, o alegre e o triste...

Ao ser criado, nas alturas colocado foste a fulgurar
Porém, até quando? Mais uma primavera? Um verão? Quem sabe, um inverno?
Diante de ti, que posso eu? Mas, se pequeno sou, com Jesus serei eterno
E tu, gigante, com certeza, um dia, irás te apagar!

Brilhe intensamente enquanto podes. Cumpre fielmente o teu labor!
Enquanto, por aqui, sigo aguardando o cumprimento da promessa
Ao meu Senhor e Rei, sempre louvando e adorando, sem ter pressa.
Sua Palavra pregando e declarando sempre: Jesus Cristo é o Senhor!

Pr. A. L. F.
30.12.2005