“E se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.4)
Tenho visto muitas coisas acontecerem no mundo espiritual que não são se enquadram em manifestação divina, nem mover de Deus, ou obra do Espírito Santo. Fenômenos religiosos, sejam eles de curas, prodígios ou maravilhas nem sempre são originados do céu. De igual modo a produção de textos, livros, shows, canções, vídeos e pregações, que usam o nome de Deus, necessariamente não vêm do Alto. Aliás, seria muita ingenuidade imaginar que fosse assim.
Não há dúvidas de que há muita gente portadora das mais diversas doenças da alma (psique) e do espírito, usando a religião como canal para expressar suas enfermidades.
Entretanto, alguém poderá argumentar que eles estão sendo “sinceros”. Embora isso seja louvável, muita gente pode estar “sinceramente enganada” sendo levada por seus sentimentos e pensamentos desviantes, e não pela direção das Escrituras e do Espírito Santo.
Quando Jesus chama para Si aqueles rudes pescadores, Ele prepara e trata individualmente cada um deles: a Pedro fez ver sua arrogância e intempestividade, a João seu espírito de vingança (queria consumir com fogo os samaritanos), a Tomé seu ceticismo. Até o apóstolo temporão, Paulo, não saiu a pregar e escrever sem que antes passasse três longos anos no deserto sendo tratado. Só então foram enviados.
Atualmente a Web tem sido um meio para disseminar idéias e crenças que carecem de fundamentos bíblicos. Confesso que já cansei de apertar a tecla “Reply” para desmontar mensagens difundidas como verdade, mas como ninguém quer verificar se as coisas são de fato assim, repassam “sem piedade” para os seus contatos.
Creio que foi Jeremias quem mais enfrentou profetas da mentira e das fantasias, numa época sem internet. Diz ele: “o profeta que tem sonho, conte-o como apenas sonho... sou contra esses profetas que pregam a sua própria palavra e afirmam: Deus disse... e fazem errar o meu povo” (Jr 23.28-32).
Quem não gostaria de subir ao céu toda manhã, bater um papo com Deus, e voltar na hora do café com a sua agenda do dia? Quem não gostaria de ter um telefone viva-voz ligado diretamente à sala do trono? Seria maravilhoso, mas não é assim que as coisas funcionam.
Mas observe a posição simples e humilde dos cristãos primitivos: diante das situações difíceis eles oravam a Deus, reuniam-se em comunidade, conversavam, discutiam, e quando estavam certos que o Senhor começava a mostrar-lhes a direção, então eles diziam:
“Pareceu bem aos presbíteros e à toda a igreja enviar... pareceu-nos bem eleger alguns homens... pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor maior encargo.... pareceu bem a Silas permanecer ali...” (At 15.22-34).
Sim, “pareceu bem”. Ninguém disse: “Deus me falou, e ponto final!”.
É um erro confundir misticismo com espiritualidade. É preciso mais uma vez voltar ao livro de Atos. Havia em Filipos uma jovem adivinhadora que sem conhecer aos apóstolos, dizia deles, quando passavam: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo, e vos anunciam o caminho da salvação” (At 16.17). Bingo! Acertou em cheio! Nos dias atuais, muitos “crédulos sinceros” deixariam as suas congregações para segui-la. Mas Paulo discerniu “quem” estava por trás daquilo e expulsou aquele espírito. Paulo é um estraga-prazeres. Ele bem que poderia usá-la para atrair mais gente para o seu ministério, “adivinhando” o que vai na vida de cada um. Mas a bíblia nos ordena: “não deis crédito a qualquer espírito, antes provem os espíritos se procedem de Deus” (1Jo 4.1).
Quando apontam para alguém e dizem: “ali está o poder de Deus”, eu me pergunto: Será mesmo? Sei do que Deus pode fazer. Mas não sou crédulo: ser crédulo é ser ingênuo, sem discernimento; credulidade não é fé, pois ela não consegue separar o falso do verdadeiro; o crédulo crê em “Deus”.... e em todos os deuses.
Somos seres passionais, por isso sujeitos às paixões, aos sonhos, visões e imaginações que brotam das fantasias do coração. Mas não pretendo incorrer nos erros do nosso tempo. Basta dar uma olhada na História para perceber que a engenhosidade das fábulas levou muita gente “sincera” ao erro quando projetaram no inimigo suas próprias mazelas e perversões:
Se você vivesse nos tempos de Jesus, e freqüentasse a sinagoga, seu maior inimigo seriam os samaritanos, visto como “impuros” e gente da pior espécie. Mas você estaria errado.
Se você vivesse na Alemanha nos anos 30, saberia apontar os responsáveis pelo caos econômico: os judeus e os ciganos. Teria errado novamente.
Satanás é prodigioso em lançar “ações diversionistas” – aquela estratégia usada na guerra para desviar a atenção de onde virá o verdadeiro ataque. Mas os crédulos, sem se aperceberem vão dizer que aquilo que vivemos hoje é tudo culpa dos Illuminati, da Rede Globo (que segundo Estevam Hernandes tem um demônio chamado Kixapágua).... da última novela.... do Opus Dei (Dan Brown tem ganhado rios de dinheiro brincando com a credulidade de seus leitores).
Satanás dá gargalhadas com suas ações diversionistas. Não estou negando o malefício dessas coisas, mas todos seremos derrotados se não voltarmos nossa atenção onde justamente ele tem atuado com maior desenvoltura, e poucos tem se apercebido. Aqui vai uma dica do livro das Revelações: a Besta que emerge da terra “parecendo cordeiro” (Ap 13.11) tem aparência de inocência e mansidão, “opera grande sinais, que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens (Ap 13.13), e “seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais” (Ap 13.14). Ela atrairá para si todos os crédulos que se recusam a dar ouvidos à verdade, e preferiram entregar-se às fábulas.
Quem viver verá.
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
CRISTÃOS SEM PEDIGREE
“Não tenho outro nome, senão o de pecador; pecador é meu nome; pecador, meu sobrenome” (Martinho Lutero)
Há alguns anos ganhamos um cão labrador. Junto veio um certificado mostrando sua pureza de raça, atestando que não era um labrador “qualquer”, pois foi gerado por um exemplar especial, veio de um espécime escolhido entre muitos outros. Ele tem “pedigree”.
Quando Hitler tomou o poder na Alemanha, cientistas iniciaram pesquisas para um trabalho de melhoria da raça germânica. A proposta era eliminar os fracos, os doentes, os que nasciam com alguma deficiência física. Buscava-se uma “pureza racial”. Dá-se a isso o nome de “eugenia”. Essa expressão foi cunhada em 1883, e significa “bem nascido”. Para os nazistas, as raças nórdicas estavam no topo da hierarquia humana, depois havia as “raças inferiores” e finalmente a mais baixa de todas, as “parasíticas”, constituídas pelos ciganos, judeus e africanos.
Deus sempre quis um povo para si, para glorificar o Seu Nome e espalhar a santidade sobre a Terra. Aos nossos olhos seria normal que Ele escolhesse as melhores pessoas, as mais virtuosas, as mais educadas, e bem nascidas, para que fizessem parte desse povo. Mas aí vem Jesus, e diz justamente o contrário: “não vim chamar justos, mas sim pecadores” (Mt 9.13).
De onde você imagina que veio? De uma família boa, classe média, e respeitável? E que você conquistou o seu lugar no Reino por seus méritos? Esqueça. Uma das grandes dificuldades que existe na igreja é passar aos seus membros sua origem comum. A nossa condição humana nos iguala nos desvios, erros e vícios. Nossa origem adâmica, com todas as suas conseqüências nivela a todos nós. Igreja é um grande abrigo de doentes. Mas há uma vantagem em ter consciência disso: doente não tem medo de estar perto de outro doente. Só quem se enxerga “saudável” é que teme se misturar e contaminar.
Na verdade, diante de Deus não há duas classes de homens: os bons e os maus. A única divisão é: os maus que se reconhecem pecadores e os maus que ainda precisam reconhecer seu estado. Não há bons. Não há dignos. Não há cristãos gerados com pedigree. Ninguém no Reino de Deus carrega pedigree santo, “sangue azul”, ou espiritualidade “eugênica”.
Deus se irou tremendamente quando o seu povo peitava aos que necessitavam de misericórdia com a seguinte frase: “Fica onde estás, não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu” (Is 65.5). De onde vem esta postura? Trata-se de uma defesa, uma tentativa de se sentir-se “melhor” ou superior rebaixando o semelhante.
Quando vemos pessoas em dificuldades, presos a um vício, ao pecado, ou a uma postura destrutiva para si mesmos, somos chamados – não para julgá-los – mas para acolhe-los. Não pode faltar ao cristão o sentimento de empatia, que é a capacidade de compreender o espírito e os sentimentos do outro. Somos chamados para estender essa misericórdia divina a todos que nos cercam. Philip Yancey, em seu livro Maravilhosa Graça, conta de seu amigo que lhe confessou com profunda tristeza: “Como gay, descobri que é mais fácil conseguir sexo nas ruas do que um abraço na igreja”. Isso é abominável diante de Deus.
A meu ver, a mais bela expressão registrada na bíblia sobre o Reino de Deus, está na Parábola da Grande Ceia (Lc 14), onde o servo saiu a avisar aos convidados do banquete que o seu senhor preparara, mas estes tinham coisas mais importantes a fazer. Voltando o servo para a casa, o senhor se irou e disse: “sai depressa para as ruas e becos da cidade, e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (penso que conheci a Deus nessa remessa).
Interessante: quando o servo retorna da missão com aquela gente “desqualificada”, o seu senhor o manda sair ainda mais uma vez: “vai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa”. Não houve filtragem de convidados, nem se impôs condições prévias a eles. E ao servo não foi permitido exprimir seus gostos e preferências pessoais. Competia a ele cumprir o que fora ordenado pelo seu senhor. Creio que o Pai quer a sua casa cheia, com gente de todas as “tribos”.
Naquele banquete, todos que se sentam à mesa são igualmente indignos. Entendo agora porque Lutero afirmava de forma tão peremptória: “Não tenho outro nome, senão o de pecador; pecador é meu nome; pecador, meu sobrenome”.
Somos mendigos que descobrimos onde tem comida da boa. Agora, a nossa missão é avisar aos outros mendigos, inválidos e desqualificados. Somos aquele servo que sai para proclamar as boas-novas a todos. Quanto “pior” eles forem, melhor. O Pai se agradará muito em acolhê-los, amá-los e conceder-lhes dignidade. O Senhor também espera que os servos que saem a convidar, igualmente se agradem em estar ao lado deles.
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
Há alguns anos ganhamos um cão labrador. Junto veio um certificado mostrando sua pureza de raça, atestando que não era um labrador “qualquer”, pois foi gerado por um exemplar especial, veio de um espécime escolhido entre muitos outros. Ele tem “pedigree”.
Quando Hitler tomou o poder na Alemanha, cientistas iniciaram pesquisas para um trabalho de melhoria da raça germânica. A proposta era eliminar os fracos, os doentes, os que nasciam com alguma deficiência física. Buscava-se uma “pureza racial”. Dá-se a isso o nome de “eugenia”. Essa expressão foi cunhada em 1883, e significa “bem nascido”. Para os nazistas, as raças nórdicas estavam no topo da hierarquia humana, depois havia as “raças inferiores” e finalmente a mais baixa de todas, as “parasíticas”, constituídas pelos ciganos, judeus e africanos.
Deus sempre quis um povo para si, para glorificar o Seu Nome e espalhar a santidade sobre a Terra. Aos nossos olhos seria normal que Ele escolhesse as melhores pessoas, as mais virtuosas, as mais educadas, e bem nascidas, para que fizessem parte desse povo. Mas aí vem Jesus, e diz justamente o contrário: “não vim chamar justos, mas sim pecadores” (Mt 9.13).
De onde você imagina que veio? De uma família boa, classe média, e respeitável? E que você conquistou o seu lugar no Reino por seus méritos? Esqueça. Uma das grandes dificuldades que existe na igreja é passar aos seus membros sua origem comum. A nossa condição humana nos iguala nos desvios, erros e vícios. Nossa origem adâmica, com todas as suas conseqüências nivela a todos nós. Igreja é um grande abrigo de doentes. Mas há uma vantagem em ter consciência disso: doente não tem medo de estar perto de outro doente. Só quem se enxerga “saudável” é que teme se misturar e contaminar.
Na verdade, diante de Deus não há duas classes de homens: os bons e os maus. A única divisão é: os maus que se reconhecem pecadores e os maus que ainda precisam reconhecer seu estado. Não há bons. Não há dignos. Não há cristãos gerados com pedigree. Ninguém no Reino de Deus carrega pedigree santo, “sangue azul”, ou espiritualidade “eugênica”.
Deus se irou tremendamente quando o seu povo peitava aos que necessitavam de misericórdia com a seguinte frase: “Fica onde estás, não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu” (Is 65.5). De onde vem esta postura? Trata-se de uma defesa, uma tentativa de se sentir-se “melhor” ou superior rebaixando o semelhante.
Quando vemos pessoas em dificuldades, presos a um vício, ao pecado, ou a uma postura destrutiva para si mesmos, somos chamados – não para julgá-los – mas para acolhe-los. Não pode faltar ao cristão o sentimento de empatia, que é a capacidade de compreender o espírito e os sentimentos do outro. Somos chamados para estender essa misericórdia divina a todos que nos cercam. Philip Yancey, em seu livro Maravilhosa Graça, conta de seu amigo que lhe confessou com profunda tristeza: “Como gay, descobri que é mais fácil conseguir sexo nas ruas do que um abraço na igreja”. Isso é abominável diante de Deus.
A meu ver, a mais bela expressão registrada na bíblia sobre o Reino de Deus, está na Parábola da Grande Ceia (Lc 14), onde o servo saiu a avisar aos convidados do banquete que o seu senhor preparara, mas estes tinham coisas mais importantes a fazer. Voltando o servo para a casa, o senhor se irou e disse: “sai depressa para as ruas e becos da cidade, e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos” (penso que conheci a Deus nessa remessa).
Interessante: quando o servo retorna da missão com aquela gente “desqualificada”, o seu senhor o manda sair ainda mais uma vez: “vai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa”. Não houve filtragem de convidados, nem se impôs condições prévias a eles. E ao servo não foi permitido exprimir seus gostos e preferências pessoais. Competia a ele cumprir o que fora ordenado pelo seu senhor. Creio que o Pai quer a sua casa cheia, com gente de todas as “tribos”.
Naquele banquete, todos que se sentam à mesa são igualmente indignos. Entendo agora porque Lutero afirmava de forma tão peremptória: “Não tenho outro nome, senão o de pecador; pecador é meu nome; pecador, meu sobrenome”.
Somos mendigos que descobrimos onde tem comida da boa. Agora, a nossa missão é avisar aos outros mendigos, inválidos e desqualificados. Somos aquele servo que sai para proclamar as boas-novas a todos. Quanto “pior” eles forem, melhor. O Pai se agradará muito em acolhê-los, amá-los e conceder-lhes dignidade. O Senhor também espera que os servos que saem a convidar, igualmente se agradem em estar ao lado deles.
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
sábado, 31 de julho de 2010
SANIDADE NA SANTIDADE
“O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23)
Certamente há uma clara vontade divina para que sejamos pessoas santificadas em todos os aspectos que compõe o nosso ser. Por esse motivo, o apóstolo Paulo ora para que todos os níveis da personalidade do cristão sejam perfeitos e saudáveis em Cristo. Ele pede em sua oração, que o espírito (do gr. pneuma), a alma (psique) e o corpo (soma) sejam conservados íntegros e irrepreensíveis para a vinda do nosso Senhor (1Ts 5.23).
A santidade que Deus quer de nós não é fragmentada, como se a espiritualidade existisse à parte dos outros aspectos da vida. Isso significa que a ação dinâmica do Espírito deseja atuar em nós total e cabalmente, nada ficando fora do seu poder santificador. Em poucas palavras, devemos manter íntegros, irrepreensíveis e sãos, tanto o corpo, quanto a alma e o espírito.
Essa santidade “integral” irá arejar nossa mente, qualificar nossas percepções, alargar nossa visão, e melhorar a interpretação da realidade.
Ou a santidade que vem de Deus atinge todos os detalhes de nosso ser, nossa ética, e nossos relacionamentos, ou logo iremos perceber que estamos vivendo uma espiritualidade “manca”, que carece de uma melhor compreensão.
Observamos isso claramente quando uma parte dos cristãos reconhece que precisa curar apenas as “doenças do corpo”, e se aglomeram para pedir curas de tumor, caroço, dor na coluna, enxaqueca, e vista fraca. Mas nenhuma palavra para as enfermidades que assolam a alma, como a inveja, o ciúme, a vaidade, a irritação, a instabilidade e o espírito de vingança. Desejamos que Deus controle as nossas finanças, mas negamos-lhe o acesso para controlar o nosso temperamento. Pedimos o equilíbrio financeiro, mas nada mencionamos do equilíbrio emocional.
Há uma incompatibilidade na santidade do espírito que detona com os relacionamentos, apresenta comportamentos que beiram a insensatez, e desprezo pela saúde.
A santidade de vida nunca prescinde de uma boa dose de lucidez, bom senso e pensamentos sadios. Acho admirável a sensatez do apóstolo Paulo tentando impedir a partida do navio, ao perceber que o tempo estava ruim para a navegação (At 27). Não foi revelação divina: foi bom senso. Muitos crentes hoje diriam: “o irmão Paulo não tem fé em Deus que tudo vai correr bem”.... e se arrebentam. A “loucura” do Evangelho nada tem a ver com atos insanos.
Se orar sobre um problema é visto como um importante componente de uma espiritualidade sadia, pensar corretamente também é. Davi dizia: “compreendo mais do que todos os meus mestres porque medito nos teus ensinamentos” (Sl 119.99). Se ficar somente na oração, mas não buscar soluções sensatas, as coisas não se resolverão por si, pois “só” a oração pode levar a um pensamento obsessivo sobre o problema. Crer é também pensar e agir de forma saudável.
Em minha experiência no gabinete pastoral, tenho observado que a maioria dos casos chamados de “problema espiritual”, na maioria das vezes se resume em falta de bom senso, ausência de sabedoria, e de agir afoitamente.
Conhecer a Deus nunca piora ninguém. A fé acrescenta, e não tira. A fé nos concede um modo diferente de enxergar o mundo, de pensar. Por isso, não me impressiono com arroubos de espiritualidade quando desacompanhada de leveza, simplicidade e inteligência emocional.
Precisamos urgentemente de sanidade nos púlpitos, nos bancos da igreja, nos programas de rádio e TV que pregam o evangelho. É perceptível os inúmeros distúrbios apresentados por pastores e apóstolos midiáticos: histerismos, transtornos de personalidade, megalomania e delírios.... e a situação não é melhor de quem os segue.
Não tem o menor sentido buscar com avidez uma “santidade ao Senhor” e, ao mesmo tempo, agir com presunção, em relação a todos os outros aspectos da vida. Não bate!
Não há nada de santo em “coar mosquitos” (do tipo ‘não bebo vinho’, ‘não danço’, etc.), e “engolir camelos” (orgulho nos olhos, soberba nos lábios, preconceitos explícitos, etc.).
Não fica bem amar somente os que lhe são iguais, e desprezar os diferentes, separar os “bons” pra cá, e os “maus” pra lá, para não se contaminar.
Não combina Santidade a Deus com rixas, brigas, discussões, e explosões de raiva.
Não orna Bíblia sob o braço, com estreiteza de visão, pregação de amor a Deus, com indiferença para as pessoas, misericórdia para si, e olhos duros para o outro.
Não coaduna buscar uma vida espiritual equilibrada, e não buscar ajuda para os outros aspectos do ser que estão em desarmonia.
Destoa a simplicidade dos santos, com ganância explícita. Não rima fé com apatia, paz de Cristo com gritaria, glórias a Deus com zombaria.
Definitivamente, santidade rima com sanidade. Como podem ver, a única diferença é o “T” da cruz.
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
Certamente há uma clara vontade divina para que sejamos pessoas santificadas em todos os aspectos que compõe o nosso ser. Por esse motivo, o apóstolo Paulo ora para que todos os níveis da personalidade do cristão sejam perfeitos e saudáveis em Cristo. Ele pede em sua oração, que o espírito (do gr. pneuma), a alma (psique) e o corpo (soma) sejam conservados íntegros e irrepreensíveis para a vinda do nosso Senhor (1Ts 5.23).
A santidade que Deus quer de nós não é fragmentada, como se a espiritualidade existisse à parte dos outros aspectos da vida. Isso significa que a ação dinâmica do Espírito deseja atuar em nós total e cabalmente, nada ficando fora do seu poder santificador. Em poucas palavras, devemos manter íntegros, irrepreensíveis e sãos, tanto o corpo, quanto a alma e o espírito.
Essa santidade “integral” irá arejar nossa mente, qualificar nossas percepções, alargar nossa visão, e melhorar a interpretação da realidade.
Ou a santidade que vem de Deus atinge todos os detalhes de nosso ser, nossa ética, e nossos relacionamentos, ou logo iremos perceber que estamos vivendo uma espiritualidade “manca”, que carece de uma melhor compreensão.
Observamos isso claramente quando uma parte dos cristãos reconhece que precisa curar apenas as “doenças do corpo”, e se aglomeram para pedir curas de tumor, caroço, dor na coluna, enxaqueca, e vista fraca. Mas nenhuma palavra para as enfermidades que assolam a alma, como a inveja, o ciúme, a vaidade, a irritação, a instabilidade e o espírito de vingança. Desejamos que Deus controle as nossas finanças, mas negamos-lhe o acesso para controlar o nosso temperamento. Pedimos o equilíbrio financeiro, mas nada mencionamos do equilíbrio emocional.
Há uma incompatibilidade na santidade do espírito que detona com os relacionamentos, apresenta comportamentos que beiram a insensatez, e desprezo pela saúde.
A santidade de vida nunca prescinde de uma boa dose de lucidez, bom senso e pensamentos sadios. Acho admirável a sensatez do apóstolo Paulo tentando impedir a partida do navio, ao perceber que o tempo estava ruim para a navegação (At 27). Não foi revelação divina: foi bom senso. Muitos crentes hoje diriam: “o irmão Paulo não tem fé em Deus que tudo vai correr bem”.... e se arrebentam. A “loucura” do Evangelho nada tem a ver com atos insanos.
Se orar sobre um problema é visto como um importante componente de uma espiritualidade sadia, pensar corretamente também é. Davi dizia: “compreendo mais do que todos os meus mestres porque medito nos teus ensinamentos” (Sl 119.99). Se ficar somente na oração, mas não buscar soluções sensatas, as coisas não se resolverão por si, pois “só” a oração pode levar a um pensamento obsessivo sobre o problema. Crer é também pensar e agir de forma saudável.
Em minha experiência no gabinete pastoral, tenho observado que a maioria dos casos chamados de “problema espiritual”, na maioria das vezes se resume em falta de bom senso, ausência de sabedoria, e de agir afoitamente.
Conhecer a Deus nunca piora ninguém. A fé acrescenta, e não tira. A fé nos concede um modo diferente de enxergar o mundo, de pensar. Por isso, não me impressiono com arroubos de espiritualidade quando desacompanhada de leveza, simplicidade e inteligência emocional.
Precisamos urgentemente de sanidade nos púlpitos, nos bancos da igreja, nos programas de rádio e TV que pregam o evangelho. É perceptível os inúmeros distúrbios apresentados por pastores e apóstolos midiáticos: histerismos, transtornos de personalidade, megalomania e delírios.... e a situação não é melhor de quem os segue.
Não tem o menor sentido buscar com avidez uma “santidade ao Senhor” e, ao mesmo tempo, agir com presunção, em relação a todos os outros aspectos da vida. Não bate!
Não há nada de santo em “coar mosquitos” (do tipo ‘não bebo vinho’, ‘não danço’, etc.), e “engolir camelos” (orgulho nos olhos, soberba nos lábios, preconceitos explícitos, etc.).
Não fica bem amar somente os que lhe são iguais, e desprezar os diferentes, separar os “bons” pra cá, e os “maus” pra lá, para não se contaminar.
Não combina Santidade a Deus com rixas, brigas, discussões, e explosões de raiva.
Não orna Bíblia sob o braço, com estreiteza de visão, pregação de amor a Deus, com indiferença para as pessoas, misericórdia para si, e olhos duros para o outro.
Não coaduna buscar uma vida espiritual equilibrada, e não buscar ajuda para os outros aspectos do ser que estão em desarmonia.
Destoa a simplicidade dos santos, com ganância explícita. Não rima fé com apatia, paz de Cristo com gritaria, glórias a Deus com zombaria.
Definitivamente, santidade rima com sanidade. Como podem ver, a única diferença é o “T” da cruz.
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
quinta-feira, 22 de julho de 2010
ELE NÃO PESA, É MEU IRMÃO
“Levai as cargas uns dos outros e, assim
cumprireis a lei de Cristo.” (Gl 6.2-3)
Não adianta procurar na bíblia argumentos para justificar seu isolamento: fé solitária não existe. Viver uma espiritualidade que afirma conhecer a Deus, esquecendo-se de quem vai ao seu lado ofende os céus. Buscar santidade afastando-se do próximo é correr atrás do vento.
Se por um lado Deus me pede para me esvaziar, e abandonar meu egocentrismo, por outro lado devo contrabalançar com o reconhecimento da importância de quem caminha comigo.
Entretanto, esse esvaziamento de si mesmo só pode ser esperado por quem aprendeu a conviver com suas próprias limitações e reconhece a carência que vai dentro de si.
Só quem supera a rejeição pode demonstrar verdadeira aceitação daquele que convive conosco, pois quem ainda não superou as rejeições sofridas no passado de alguma forma estará sempre brigando com os “fantasmas” de supostos agressores. Precisamos retornar a Deus, que nos cura, para que o nosso centro não esteja mais num ego rejeitado, mas em Deus. A partir daí, as incompreensões sobre a minha pessoa ou o que dizem ou pensam de mim já não adquire tanta importância. A comunhão com Deus, e a convicção de que se é amado por Ele, nos faz transbordar.
Sofrer uma dor sozinho é bem diferente da dor sofrida ao lado de alguém. Daí a importância da vida de comunhão da comunidade de fé. Às vezes nos faltam palavras, mas.... não precisa falar nada, basta estar junto. Talvez o abraço seja a melhor representação de amor que alguém pode oferecer.
Foi assim com Labão, ao receber Jacó em sua casa: correu-lhe ao encontro, abraçou-o e beijou-o (Gn 29.13). O que dizer do filho pródigo, esfomeado, voltando pra casa, o seu pai o avista de longe, corre em sua direção, o abraça e beija (Lc 15.20)? Vemos Paulo descendo em direção a Êutico, que havia caído da janela, e foi dado como morto. E o que ele faz? Inclinando-se sobre ele, “abraçou-o”, devolvendo-lhe a vida (At 20.10). Como reagiu a igreja diante da partida de Paulo, em Mileto? Entristecidos, o abraçavam afetuosamente, e o beijavam (At 20.37).
Há gente que “espiritualiza” tanto a vida, que para eles somente a oração já basta para demonstrar um pedido de perdão ou de amor para alguém. Entretanto, é preciso re-encontrar a pessoa, e assim foi o reencontro de Esaú, que até então estava disposto a matar seu próprio irmão Jacó. Mas ao vê-lo, Esaú correu-lhe ao encontro e “o abraçou; arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou; e choraram” (Gn 33.4). Com certeza houve a cura para ambos de um passado de ódio e incompreensões. O gesto do abraço afetuoso dispensa qualquer palavra.
Ter compaixão significa aproximar-se de quem sofre, enquanto ter dó sugere distância. Por diversas vezes no Evangelho Jesus demonstra compaixão. É uma palavra cuja raiz significa “sofrer com”. Nela não cabe explicações fáceis ou superficiais.
Cumprir as amáveis palavras de Paulo para que levemos “as cargas uns dos outros” não é coisa fácil, pois vai contra o individualismo arraigado em nossas vidas, atrapalha o nosso comodismo, e nos torna responsáveis por mais alguém além de nós mesmos. Quem está disposto a isto?
As maiores demonstrações de narcisismo e desfile de egos, não estão apenas nas passarelas da moda ou na vida fútil dos milionários, mas por incrível que pareça se apresenta também nos grandes ajuntamentos de fé dos que vão buscar a “sorte grande” com Deus. Ali, cada um só olha para si, ninguém está preocupado com a necessidade do outro, com quem está ao seu lado, e não tem o menor interesse em viver uma vida de comunhão com aqueles que o rodeiam. A palavra de ordem é: “eu quero o meu”! Mal sabem que estão buscando a ira divina.
Embora o estilo de vida libertino seja a marca mais conhecida que Sodoma deixou, entretanto, aos olhos do profeta Ezequiel, o grande pecado desta cidade foi sua “soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade... mas nunca amparou o pobre e o necessitado” (Ez 16.49). Sim, é isso mesmo que você leu: o individualismo exacerbado dos “shows da fé”, e o descaso com o outro, nos remetem a.... Sodoma!
Alguém disse: “Viver no céu com os irmãos, ó que glória! Viver na Terra com eles, aí é outra história”. Desconfio que quem não souber viver aqui, não está preparado para viver lá.
Conta-se que certa noite, em uma forte nevasca, um padre plantonista ouviu alguém bater na porta na sede da “Missão dos Órfãos” em Washington, DC. Ao abri-la ele se deparou com um menino coberto de neve, com poucas roupas, trazendo em suas costas, um outro menino mais novo. A fome estampada no rosto, o frio e a miséria dos dois comoveram o padre. O sacerdote mandou-os entrar e exclamou: Ele deve ser muito pesado. Ao que o que carregava disse: Ele não pesa, ele é meu irmão (He ain’t heavy, he is my brother). Não eram irmãos de sangue realmente. Eram irmãos da rua (há uma versão, não sei se verdadeira, que a composição eternizada pelos The Hollies, teve como inspiração esse fato*).
O que importa mesmo, é a reflexão que isso nos traz: “Ele não é pesado, ele é meu irmão”. Talvez devêssemos chorar nossa falta de paciência com nossos irmãos, talvez precisemos trocar nossos fardos pelo fardo que Jesus deseja para nós.
Um dia Jesus propôs uma troca para mim. Ele viu minha situação, meu cansaço, e disse-me: “venha até mim, você está cansado, deixe a sua carga aqui, junto à cruz, e pegue o meu fardo”. A principio relutei, mas como não tinha nada a perder, aceitei. Hoje, estou aprendendo a caminhar com o peso que Ele colocou sobre minha vida. Surpreendentemente, descobri que é mais leve que aquele que eu levava. Pesado é viver egoisticamente para si. Dureza é tentar satisfazer compulsivamente um ego insaciável. Problema é olhar com obsessão para o seu umbigo, preocupando-se com cada ruga, cada dorzinha que surge, com sua segurança, seu dinheiro, seu descanso... Não é de se admirar estarmos convivendo com o surgimento de tantos distúrbios da alma.
Troque o seu fardo também. O que Deus quer te dar não é pesado.... é o seu irmão.
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
(*) Recorde a canção original:
http://www.youtube.com/watch?v=2KcIaYSqJds
Ele Não É Um Fardo, Ele É Meu Irmão
A estrada é longa
Com muitas curvas sinuosas
Que nos leva quem sabe onde
Quem sabe onde
Mas eu sou forte
Forte o bastante para carregá-lo
Ele não é um peso, ele é meu irmão
E assim continuamos
Seu bem-estar é a minha preocupação
Não é um fardo carregá-lo
Nós chegaremos lá
Pois eu sei
Ele não seria um estorvo para mim
Ele não é um fardo, ele é meu irmão
Se estou absolutamente sobrecarregado
Estou sobrecarregado de tristeza
Que o coração de todos
Não está repleto de alegria
De amor, de uns pelos outros
Esta é uma longa longa estrada
Da qual não há retorno
E enquanto estamos a caminho dela
Por que não partilhar?
E a carga
Não vai me pesar absolutamente
Ele não é um fardo, ele é meu irmão
Ele é meu irmão
Ele não é um fardo
Ele é meu irmão
sexta-feira, 18 de junho de 2010
RAZÃO E SENSIBILIDADE
“Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10.16)
O filme inglês Razão e Sensibilidade (1995) narra a história de duas irmãs que diante das dificuldades financeiras da família adotaram formas diferentes de enfrentar a vida: uma, mais prática, valeu-se da razão como condutora de suas decisões e a outra apoiou-se na emotividade como resposta. Na verdade, e a grosso modo, este é um pêndulo que todos nós precisamos aprender a nos equilibrar.
Carl Gustav Jung desenvolveu a teoria que possuímos quatro funções psicológicas fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. A seu ver, saudável é aquele capaz de transitar bem em cada uma dessas funções, para poder dar a melhor resposta que o momento exige. Coisa difícil, pois o problema é que costuma haver a preponderância de uma delas, que ele chama de “função superior”, e uma conseqüente dificuldade de transitar pelas outras funções.
Jesus deseja trazer unidade, equilíbrio e estabilidade à nossa personalidade. Da mesma forma que o Eterno organizou o caos do Universo, ele também pode trazer harmonia e beleza a cada um de nós. Ao preparar seus discípulos para enfrentar as duras experiências da vida de fé, Jesus adverte-lhes para que fossem “prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Ou seja, o Mestre os instrui para combinar a prudência, sagacidade e inteligência própria dos ofídicos, aliada à simplicidade das pombas. Numa tradução mais livre, que complementassem a razão com a sensibilidade.
Quando não desenvolvemos adequadamente a razão, tornamo-nos presas fáceis dos enganos e sofismas, e alguns, “tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé" (1Tm 1.19). Somente crer não basta: também é preciso pensar corretamente.
Abandonando a razão e a boa consciência, nos tornamos como irracionais, e foi isso que quase levou o salmista Asafe a “escorregar”. Mas ele confessa e reconhece a origem de seu problema: “eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à Tua Presença” (Sl 73.22).
A irracionalidade nos aproxima dos animais e nos leva a agir mediante impulso. “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento” (Sl 32.9), diz a bíblia. Confesso que os erros cometidos em minha vida – e não foram poucos – quase sempre ocorreram quando deixei a razoabilidade de lado. Ao abandonar a racionalidade, passamos a decidir com o fígado. Creiam-me: a bílis é uma péssima conselheira.
A primeira vítima do agir irracional é o diálogo. Já tentou conversar, num bom nível, com alguém exasperado? Desista, pois as palavras que você diz nunca serão as palavras ouvidas. Muitos confessam depois: “fiquei como fora de mim”. Ora, quem está “fora de si” não tem como analisar corretamente o que estão lhe falando. Peça para alguém irado definir algumas pessoas ao qual não mantém bom relacionamento, e você verá o quanto a raiva “deforma” e “demoniza” o outro. É por isso que Paulo pede que sempre “a paz de Cristo seja o árbitro no coração”.
Há sempre a possibilidade de o pensamento tornar-se a “função superior”. Até aí nada demais, porém se ele estiver desacompanhado da sensibilidade, para lhe dar equilíbrio, sensatez e temperança, o resultado pode ser nefasto. A posse da razão, sem o freio da sensibilidade, torna as pessoas cruéis, cheias da “verdade”. Deus nos livre dos cheios de razão.
Quando os aspectos saudáveis da sensibilidade são rejeitados, sem possibilidade de aflorar para fazer parte da personalidade, acaba por deixar a pessoa “pesada”, faltando-lhe a leveza, o bom-humor, o chiste. Ora, tudo que é rejeitado em nós ou impedido de se manifestar não pode contribuir no desenvolvimento do ser. E o que é pior: adoenta.
Por outro lado, possuir sensibilidade sem o apoio da razão produz gente “hipersensível”, que faz drama dos menores e irrelevantes acontecimentos, dá um valor excessivo aos seus sentimentos, e o mundo é visto e julgado – não a partir da realidade – mas do que ele está sentindo. É claro que se decepciona facilmente com todos que o cercam, e vive em constante flutuação emocional.
É preciso saber para que lado pendemos e que aspectos importantes da vida não estão sendo vivenciados. O Senhor espera de nós um desenvolvimento de todas as funções próprias de uma personalidade saudável. Se assim não for, ficaremos eternamente presos às reações infantis, e aos pensamentos próprios da adolescência.
As coisas espirituais são assim: requerem o empenho da totalidade da constituição de nosso ser, para que não sejamos cristãos “mancos” que vivem parcialmente de suas funções. É por isso que somente podemos amar a Deus de verdade se for de todo nosso coração, toda nossa alma, todo nosso entendimento e toda nossa força (Mc 12.30).
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
O filme inglês Razão e Sensibilidade (1995) narra a história de duas irmãs que diante das dificuldades financeiras da família adotaram formas diferentes de enfrentar a vida: uma, mais prática, valeu-se da razão como condutora de suas decisões e a outra apoiou-se na emotividade como resposta. Na verdade, e a grosso modo, este é um pêndulo que todos nós precisamos aprender a nos equilibrar.
Carl Gustav Jung desenvolveu a teoria que possuímos quatro funções psicológicas fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. A seu ver, saudável é aquele capaz de transitar bem em cada uma dessas funções, para poder dar a melhor resposta que o momento exige. Coisa difícil, pois o problema é que costuma haver a preponderância de uma delas, que ele chama de “função superior”, e uma conseqüente dificuldade de transitar pelas outras funções.
Jesus deseja trazer unidade, equilíbrio e estabilidade à nossa personalidade. Da mesma forma que o Eterno organizou o caos do Universo, ele também pode trazer harmonia e beleza a cada um de nós. Ao preparar seus discípulos para enfrentar as duras experiências da vida de fé, Jesus adverte-lhes para que fossem “prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Ou seja, o Mestre os instrui para combinar a prudência, sagacidade e inteligência própria dos ofídicos, aliada à simplicidade das pombas. Numa tradução mais livre, que complementassem a razão com a sensibilidade.
Quando não desenvolvemos adequadamente a razão, tornamo-nos presas fáceis dos enganos e sofismas, e alguns, “tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé" (1Tm 1.19). Somente crer não basta: também é preciso pensar corretamente.
Abandonando a razão e a boa consciência, nos tornamos como irracionais, e foi isso que quase levou o salmista Asafe a “escorregar”. Mas ele confessa e reconhece a origem de seu problema: “eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à Tua Presença” (Sl 73.22).
A irracionalidade nos aproxima dos animais e nos leva a agir mediante impulso. “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento” (Sl 32.9), diz a bíblia. Confesso que os erros cometidos em minha vida – e não foram poucos – quase sempre ocorreram quando deixei a razoabilidade de lado. Ao abandonar a racionalidade, passamos a decidir com o fígado. Creiam-me: a bílis é uma péssima conselheira.
A primeira vítima do agir irracional é o diálogo. Já tentou conversar, num bom nível, com alguém exasperado? Desista, pois as palavras que você diz nunca serão as palavras ouvidas. Muitos confessam depois: “fiquei como fora de mim”. Ora, quem está “fora de si” não tem como analisar corretamente o que estão lhe falando. Peça para alguém irado definir algumas pessoas ao qual não mantém bom relacionamento, e você verá o quanto a raiva “deforma” e “demoniza” o outro. É por isso que Paulo pede que sempre “a paz de Cristo seja o árbitro no coração”.
Há sempre a possibilidade de o pensamento tornar-se a “função superior”. Até aí nada demais, porém se ele estiver desacompanhado da sensibilidade, para lhe dar equilíbrio, sensatez e temperança, o resultado pode ser nefasto. A posse da razão, sem o freio da sensibilidade, torna as pessoas cruéis, cheias da “verdade”. Deus nos livre dos cheios de razão.
Quando os aspectos saudáveis da sensibilidade são rejeitados, sem possibilidade de aflorar para fazer parte da personalidade, acaba por deixar a pessoa “pesada”, faltando-lhe a leveza, o bom-humor, o chiste. Ora, tudo que é rejeitado em nós ou impedido de se manifestar não pode contribuir no desenvolvimento do ser. E o que é pior: adoenta.
Por outro lado, possuir sensibilidade sem o apoio da razão produz gente “hipersensível”, que faz drama dos menores e irrelevantes acontecimentos, dá um valor excessivo aos seus sentimentos, e o mundo é visto e julgado – não a partir da realidade – mas do que ele está sentindo. É claro que se decepciona facilmente com todos que o cercam, e vive em constante flutuação emocional.
É preciso saber para que lado pendemos e que aspectos importantes da vida não estão sendo vivenciados. O Senhor espera de nós um desenvolvimento de todas as funções próprias de uma personalidade saudável. Se assim não for, ficaremos eternamente presos às reações infantis, e aos pensamentos próprios da adolescência.
As coisas espirituais são assim: requerem o empenho da totalidade da constituição de nosso ser, para que não sejamos cristãos “mancos” que vivem parcialmente de suas funções. É por isso que somente podemos amar a Deus de verdade se for de todo nosso coração, toda nossa alma, todo nosso entendimento e toda nossa força (Mc 12.30).
Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br
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