quarta-feira, 18 de junho de 2008

Demolindo as Torres de Babel (I)


Texto Base: Gênesis 27

A construção deste texto não começou de forma premeditada, com a intenção de apresentar algo diferente, que jamais tenha sido abordado, mas consiste numa pequena porção do alimento diário que cabe a um velho pastor fornecer às suas ovelhas. Se por um lado sou movido por uma tendência a escrever, sinto-me inibido em publicar as coisas que escrevo.

De forma quase espontânea, nossa tendência é explorar as virtudes dos personagens bíblicos e omitir seus fracassos. Creio, porém, que podemos aprender muito com os pontos negativos quando analisados de forma sincera e despretensiosa, no afã de conhecer a vontade de Deus para nós.

Sinto-me muito à vontade para falar de família. Meus melhores momentos e minhas melhores lembranças, desde minha tenra infância, estão ligados à minha família, mais especificamente às nossas reuniões à mesa para fazermos nossas refeições diárias. Pena que este momento singular em família esteja sendo sufocado pelo progresso e pela evolução dos tempos, porém, não consigo visualizar nada que possa, em valores, substituí-lo. Precisamos encontrar um tempo para dialogar em família, seja a qualquer hora do dia ou da noite. Ele é impar!

Em sua grande maioria, os conflitos familiares vividos em nossos dias têm suas raízes na falta de um momento diário de comunhão familiar. Em muitos lares, não há mais espaço, nem tempo, para o culto doméstico, para o diálogo entre pais e filhos, para as inocentes historinhas infantis, para uma inspeção nos cadernos escolares, para uma ajuda nos deveres de casa, para se falar de qualquer coisa. As famílias atuais se tornaram verdadeiras “Torres de Babel”, porém, elas não começaram a ser erguidas em nossos dias. Seus alicerces são profundos e remontam a um passado bem distante de nós. Se de fato desejamos lares abençoados, creio que a família de Isaque e Rebeca com seus dois filhos, Jacó e Esaú, não serve de modelo, antes, porém, consiste num bom exemplo de como não deve ser um relacionamento familiar e no que precisamos atentar para não cairmos nos mesmos laços!

Qualquer leitor atento, mesmo não sendo um especialista em “Terapia Familiar”, irá facilmente concordar que a causa principal de tantos conflitos na casa de Isaque tem sua origem na falta de comunhão entre seus membros.

Minha intenção não é apresentar nenhum tratado teológico ou filosófico, tampouco desejo fazer um ensaio psicoterápico sobre relacionamento familiar. Meus parcos conhecimentos não me permitiriam ir além do trivial. Porém, que me permitam os behavioristas que dominam o assunto, apenas conjecturar sob a ótica pastoral, alguns pontos que, ao meu ver, marcam a história da família de Isaque. Isaque tinha em sua casa uma imensa “Torre de Babel!”. Examinemos, a sua história:

O RELACIONAMENTO ENTRE ISAQUE E REBECA

Que valor tinha Rebeca para Isaque?

“Assim habitou Isaque em Gerar. Então os homens do lugar perguntaram-lhe acerca de sua mulher, e ele respondeu: É minha irmã; porque temia dizer: É minha mulher; para que porventura, dizia ele, não me matassem os homens daquele lugar por amor de Rebeca; porque era ela formosa à vista. Ora, depois que ele se demorara ali muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhou por uma janela, e viu, e eis que Isaque estava brincando com Rebeca, sua mulher. Então chamou Abimeleque a Isaque, e disse: Eis que na verdade é tua mulher; como pois disseste: E minha irmã? Respondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: Para que eu porventura não morra por sua causa” (Gn 26. 6-9).

É difícil imaginar um marido entregando sua própria mulher a quem ele ama para um outro homem, mesmo com a justificativa de que esta seria a ultima alternativa para salvar a vida de ambos. Imagino Rebeca, algum tempo depois, de vez em quando, lembrando a Isaque este seu desvio. Porém, alguém poderia argumentar que naquela época as mulheres obedeciam cegamente seus maridos. Sim, é verdade, mas isso não os afasta nem um pouco do cerne dos conflitos. Como poderia Rebeca entender um “Eu te amo” de Isaque com o fantasma daquele trauma a sussurrar-lhe aos ouvidos: “Ele a ama tanto quanto a qualquer um de seus camelos!”. Logo, que segurança pode sentir uma mulher ao lado de um homem frouxo, incapaz de defendê-la? E pior, alguém capaz de entregá-la ao primeiro que o ameaçasse para salvar a própria pele!

Lembrem-se de que não estamos falando de qualquer casal, mas de Isaque e Rebeca, aqueles sobre os quais havia uma promessa: “... e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu, e lhe darei todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra ...” (Gn 26. 4). Por que razão um homem de Deus tem, às vezes, uma dessas “torres” edificada dentro de casa e age como Isaque?

Como afirmamos anteriormente, para se conhecer aquela “Torre de Babel” edificada na casa de Isaque temos que voltar um pouco na história: Seus alicerces estão plantados na casa de seu pai, Abraão!

Parece até que posso ouvir um daqueles fariseus dos tempos de Jesus: “Pastor, você agora passou dos limites! Como você ousa afrontar assim nosso Patriarca?”.
“Calma amigo”, eu diria. A história do patriarca apenas se repete na casa do filho. A única coisa que Isaque faz é somar alguns tijolos na torre de seu pai!

“Quando ele (Abraão) estava prestes a entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és mulher formosa à vista; e acontecerá que, quando os egípcios te virem, dirão: Esta é mulher dele. E me matarão a mim, mas a ti te guardarão em vida. Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma em atenção a ti. E aconteceu que, entrando Abrão no Egito, viram os egípcios que a mulher era mui formosa. Até os príncipes de Faraó a viram e gabaram-na diante dele; e foi levada a mulher para a casa de Faraó. E ele tratou bem a Abrão por causa dela; e este veio a ter ovelhas, bois e jumentos, servos e servas, jumentas e camelos” (Gn 12. 11-16).

“Partiu Abraão dali para a terra do Neguebe, e habitou entre Cades e Sur; e peregrinou em Gerar. E havendo Abraão dito de Sara, sua mulher: É minha irmã; enviou Abimeleque, rei de Gerar, e tomou a Sara. Deus, porém, veio a Abimeleque, em sonhos, de noite, e disse-lhe: Eis que estás para morrer por causa da mulher que tomaste; porque ela tem marido. Ora, Abimeleque ainda não se havia chegado a ela: perguntou, pois: Senhor, matarás porventura também uma nação justa? Não me disse ele mesmo: É minha irmã? e ela mesma me disse: Ele é meu irmão; na sinceridade do meu coração e na inocência das minhas mãos fiz isto. Ao que Deus lhe respondeu em sonhos: Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la; agora, pois, restitui a mulher a seu marido, porque ele é profeta, e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu. Levantou-se Abimeleque de manhã cedo e, chamando a todos os seus servos, falou-lhes aos ouvidos todas estas palavras; e os homens temeram muito. Então chamou Abimeleque a Abraão e lhe perguntou: Que é que nos fizeste? e em que pequei contra ti, para trazeres sobre mim o sobre o meu reino tamanho pecado? Tu me fizeste o que não se deve fazer. Perguntou mais Abimeleque a Abraão: Com que intenção fizeste isto? Respondeu Abraão: Porque pensei: Certamente não há temor de Deus neste lugar; matar-me-ão por causa da minha mulher. Além disso ela é realmente minha irmã, filha de meu pai, ainda que não de minha mãe; e veio a ser minha mulher. Quando Deus me fez sair errante da casa de meu pai, eu lhe disse a ela: Esta é a graça que me farás: em todo lugar aonde formos, dize de mim: Ele é meu irmão. Então tomou Abimeleque ovelhas e bois, e servos e servas, e os deu a Abraão; e lhe restituiu Sara, sua mulher” (Gn 20. 1-14).

Creio que Isaque tenha ouvido muitas vezes essa história da boca dos próprios pais e no momento em que se viu em apuros tratou de colocar em prática o que aprendera: “Se meu pai fez, por que não posso também eu fazer o mesmo?", talvez tenha pensado. Nossa tendência é procurar imitar nossos pais.

Não sou um grande apreciador da Música Popular Brasileira, tampouco farei apologia à que citarei aqui, mas o farei apenas para ilustrar o que afirmei acima. Lembro-me, do tempo de minha juventude, de uma música gravada primeiramente pelo cantor Belchior e posteriormente por Elis Regina intitulada, se não me engano, “Como Nossos Pais”. Um trecho da música que se enquadra muito bem neste assunto é: “(...) minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Estamos apenas edificando a mesma “torre” que eles começaram, não necessariamente uma “babel!”. Bom seria se fosse sempre uma torre de Atalaia.

Isaque atribuía à Rebeca o mesmo valor que seu pai, Abraão, atribuiu à Sara sua mãe!
Pr. Antônio Luiz F.

sábado, 7 de junho de 2008

QUANDO DEUS RI


“Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles” (Sl 2.4)
“Rir-se-á deles o Senhor, pois vê estar-se aproximando o seu dia” (Sl 37.13)

A Bíblia revela alguns atributos divinos que são próprios da raça humana. A isso chamamos de “antropomorfismo” [anthropos = homem e morphe = forma]. Ou seja, Deus se mostra a nós atribuindo a si mesmo características daqueles a quem criou. É antropomórfico afirmar que o Senhor ama, sofre, compadece, enternece, descansa, se arrepende, anseia, espera, e.... surpresa: o Senhor também ri.

As duas passagens que mencionam esse gesto divino possuem algo em comum: elas mostram o Eterno rindo zombateiramente da insensatez dos reis, poderosos e dos ímpios que imaginam ser alguma coisa, rindo daqueles que confiam em suas próprias forças e se esquecem de Deus.

De quem o nosso Deus hoje lança mofa, graceja e faz troça? Não é difícil imaginar....

Deus ri-se de quem imagina que pode manipulá-lo ou controlá-lo, seja com ofertas, dízimos, promessas ou qualquer outra espécie de sacrifício.

Deus ri-se dos que criam impérios e acumulam fortunas usando o Seu nome, supondo que “a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5). Ri porque sabe que o julgamento deles está próximo, e caso não se arrependam dessa loucura, só resta-lhes uma horrível expectativa.

O que habita no Alto zomba de toda gente que decreta, amarra, revela, libera e profetiza unção, saúde, vitória, prosperidade e cura, indistintamente a todos, desde, é claro, que paguem o CD, o livro, o carnê, a bíblia e o óleo. Não fica difícil entender porque Seu Filho, que observa tudo o que o Pai faz (Jo 5.20), zuniu o chicote contra os cambistas da fé e os expulsou do templo.

Ri-se o Senhor de quem vive todo gabola, confiante em sua beleza e juventude, e sente-se seguro porque possui bens e riquezas deste mundo. Mal sabe que a aparente segurança pode se transformar em repentina destruição sem chance de cura.

Deus ri-se dos que prometem que “hoje” o milagre vai chegar, “hoje” haverá curas e maravilhas. Inverteu-se a ordem das coisas? Não é mais o Eterno que determina quando e da forma que Ele deseja? Estava errado o salmista quando disse que “esperou” confiantemente no Senhor (Sl 40.1)? Deus está sujeito às nossas urgências e não se aguarda mais o tempo Dele [kayrós] se cumprir?

Deus ri-se da ansiedade dos que tentam controlar a vida e desgastam-se em armar esquemas para que nada fuja do planejado, e esquecem que a vida é fluída e fugidia, e quanto mais se quer controlá-la, mais escapa pelos nossos dedos. Quem relaxa o corpo e deixa-se levar pela água (Espírito) bóia, quem se retesa ansioso, afunda.

Ri-se Aquele que Reina, dos que depositam a fé em gestos, em rituais, em água, em velas, em rezas repetidas sem o coração, “visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu” (Is 29.13).

Zomba o Eterno dos que se escoram em títulos pomposos, e se colocam em degrau superior de fé supondo ter autoridade sobre outros, exigindo-lhes submissão irrestrita sob pena de serem declarados malditos, sim o Senhor ri-se destes que são “dominadores dos que lhe foram confiados” (1Pe 5.2).

Mas Deus olha atentamente do Céu e se compadece de todo aquele que se humilha, que se reconhece miserável, carente da Graça. Ele sofre juntamente com a mãe que derrama lágrimas pelo filho, Ele acolhe ao que já não encontra guarida em nenhum lugar, Ele perdoa e promete nunca mais se lembrar das faltas daqueles que buscam refúgio em seu Filho Jesus.

Senhor, de todos antropomorfismos da bíblia, não quero que “ria” de mim, mas que tão somente “alegre-se” em mim.

Pr. Daniel Rocha
dadaro@uol.com.br






sexta-feira, 6 de junho de 2008

2008: Verdadeiras "cruzadas" religiosas, sem muito sangue, mas violentas quando se trata de diminuir "o outro", "o diferente-de-mim-mesmo"


Sobre o “Apagão Teológico”(De Renato Vargens). Uma tentativa de interação com o conteúdo de um texto do autor. No artigo, ele “critica” alguns movimentos sobrenaturalistas de hoje, como sendo fruto de modismos. Segundo ele, são movimentos que não refletem nenhuma teologia, à essa ele apela pela salvação do futuro.
Não concordo com o termo utilizado: "Apagão Teológico". Primeiro, porque o termo em si supõe que tais movimentos (todos esses citados pelo caro colega) não bebe de nenhuma fonte teológica, o que seria um equívoco. Ainda que não exista uma reflexão teológica sistemática e mais formal, tais movimentos trazem consigo na vivência de suas efusividades, bagagens práticas e teóricas de um contexto teológico, ainda que imaginário religioso, às vezes não tão específico, mas frutos de “bricolagens teológicas”, e isso é possível, se é legítimo ou não, aí caberia em uma outra abordagem que não essa. Na minha opinião, se o colega me permite, o que deve estar em reflexão nesse processo todo são as demandas religiosas e sociais do sujeito religioso da chamada pós-modernidade.

Mas, a culpa toda é dos próprios teólogos. Por muito tempo cultivou-se na mais intensa especulação a teologia do Deus e Pai, e do Deus Filho, a terceira pessoa da trindade, o Espírito de Deus, ou foi esquecida, ou em alguns casos foi apêndice da cristologia, nesse caso ligado ao ministério de Jesus.

Com a pós modernidade, as demandas dos sujeitos sociais, religiosos - “mudanças de ênfase”, o que era técnico e científico, racionalista, já não preenche o vazio existencial. Após a segunda guerra mundial, percebe-se que o ser humano não é tão bom assim, e que a educação renascentista, iluminista, pode ser tão libertadora sim, a ponto de dar a inteligência ao ser humano de projetos para construção de bombas atômicas. O que acontece após um processo de desencantamento para com as ciências é um retorno ao sagrado, mas agora evidencia-se uma certa ênfase no subjetivo, a experiência racional cede espaço para as experiências sobrenaturais, e até sobrenaturalistas. “O tempo do Espírito!”, é o que muitos dizem por aí.Quem sabe se tivéssemos gastado mais tempo refletindo sobre a terceira pessoa da trindade, hoje algumas respostas fossem mais sensatas do que mera conjecturas vazias e minimizadoras não raras as vezes.

Não que eu pretenda dizer só coisas acertadas, muito menos esgotar a reflexão sobre isso, mas, esses movimentos tem seus limites e potencialidades, na gíria, prós e contras. E isso deve ser considerado. Mas sabe o porque de tanta indignação? Não que seja o caso de todos/as, mas de uma parcela.

O Espírito supõe "transposição de barreiras", é invisível, Ele não cabe em nenhuma liturgia, não cabe nos moldes institucionais, ele é livre, e tende a libertar. A idéia de um Deus Espírito “que não tem uma face específica” parece não ser bem aceita por muitos colegas. Muito se vê de um Deus “de ordem”, e criador, soberano: nos sacramentos, em cultos litúrgicos, uma lógica teocêntrica. Nas comunidades protestantes, de lógica cristocêntrica, vemos “o Deus ético”, buscamos no ministério do Jesus histórico e divino, parâmetros para a nossa ação junto da sociedade, para que essa se torne mais justa. A grande pergunta, qual é a face do Espírito? Uma grande surpresa, ninguém sabe, Ele não tem formas, Ele não cabe em formas. Talvez isso perturbe um pouco nós ortodoxos, guardiões das eternas verdades salvadoras.

Mas, porque tanto medo? A ênfase no sobrenatural marca a lógica de uma religiosidade de ênfase mística sobrenaturalista, que de certa forma, atende muitas das expectativas de um mundo cada vez mais globalizado, com uma cultura híbrida; pluralidade e diversidade com “o fenômeno do alargamento das fronteiras” é um assunto atual. O que a mística fomenta? No chamado tempo do Espírito, na pós-modernidade com as estruturas institucionais cada vez mais desacreditadas, os sujeitos religiosos buscam formas espirituais alternativas para cultuar. Determinadas lógicas religiosas atuais já nem precisam mais de um templo, ou de que o sujeito religioso vá à Igreja - instituição. Isso é um tormento para os pastores, não acha? Um segundo problema, é que a tradição começa a “disputar poder” com uma nova forma legitimadora de liderança, agora a unção determina o líder. Em uma instituição, onde sua liderança é ordenada, isso pode ser um problema. Por exemplo, se antes as pessoas reconheciam o título de pastor do fulano, porque um bispo disse que fulano é pastor, hoje isso se modifica: a lógica é, o mais ungido sobe no altar do Senhor, esse é o mensageiro de Deus. A sensação é que, no geral, ainda não convivemos bem com isso.

Quem está com a verdade? Eu às vezes me pergunto (...), e vejo tantas vezes colegas escrevendo contra esse ou aquele movimento. Isso sim pode ser um problema, para o futuro, a longo prazo, pior ainda. Poderemos entrar em um novo período, de repetição das tão sangrentas cruzadas. Hoje parecemos viver uma cruzada, sem armas e por isso sem sangue, que não ferem a matéria, mas que reduzem “o diferente de mim mesmo” a nada – insignificantes mentirosos e charlatões gospel.

Precisamos entender mais os processos humanos, Deus nos deu essa capacidade. Para entendermos o processo precisamos dialogar mais, respeitar mais, refletirmos mais sobre o fato de alguns serem diferentes de nós, e que mesmo assim a lógica do evangelho está a serviço da vida e não da morte. Alguns arrogantes, pretensos de ter alcançado a verdade absoluta com relação à salvação, sobre a vida pós-morte, sobre como de fato agradar à Deus, e coisas assim que o povo gosta de escrever, e de falar, dar entrevistas, e de criticar, às vezes de forma tal que chega até a agredir seres humanos, se esquecem que antes de serem adeptos a determinada religiosidade, ou denominação que seja, são seres humanos. Nesse sentido, eu teria que lembrar a lógica de Jesus nos evangelhos, ele comia com os pecadores e os contagiava na relação da comunhão por seu testemunho. O ágape deve ser nosso paradigma de missão.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Breve contexto do Evangelho de Mateus. Perícope: Mateus 7.21-29

O texto de Mateus, nos mostra que Jesus, deve ser o nosso modelo de comprometimento com o Reino de Deus; Mostra que não basta termos um discurso bonito, e obedecermos radicalmente a lei, uma tradição, mediante os quais eu venha negociar algum benefício por meio de persuasão e troca. Se faço isso, eu até posso reconhecer em Jesus a figura de Cristo, mas não estou comprometido com a vida concreta, cotidiana. Será prudente todo aquele que construir sua casa sobre a rocha, esse/a é mais humano, herdará o Reino de Deus. O que constrói sua casa na rocha é quem ouve e pratica (do grego Poieo - palavra cuja raiz é Prasso/fazer = estar comprometido).

A perícope é a conclusão do sermão de Jesus: “O Sermão da Montanha”. Não é por acaso, que no Evangelho de Mateus, Jesus prega seu primeiro e seu último sermão no monte. Com o templo de Jerusalém destruído em 71 d.C, as únicas possibilidades de um movimento religioso sobreviver era com um sistema alternativo: para expiação de pecados, e também de um lugar para suas reuniões. Os fariseus tinham a sinagoga para suas “reuniões”, a prática da pureza cotidiana (agradar a Deus – obedecendo a lei de Moisés) seriam uma alternativa de expiação de pecados. Um outro movimento que superou a destruição do templo, e que recebeu “adesões” de outros grupos (assim como se deu com os fariseus) é o “Movimento de Jesus”. Jesus é enxergado na comunidade de Mateus como “O Novo Moisés”, que traz novos dois mandamentos “de síntese”: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo. O “Movimento de Jesus” tinha nas casas seu local de encontro e para expiação de pecados também observavam a lei, mas tinham nessa orientações para a vida.

Havia certo conflito entre esses dois partidos: Judaísmo farisaico (ou formativo) X Judaísmo cristão. Para ambos, guardar a lei era a possibilidade para expiação de pecados. Só que, para os fariseus guardar a lei era imitar à Deus, para agradá-lo (barganhar); Para o judaísmo cristão (de Jesus), guardar a lei, era proteger a vida. Praticar misericórdia e agradar à Deus só é possível protegendo a vida.

Porém, seguir a Jesus significava ter problemas. Jesus era visto como um atormentador da ordem social e, como o judaísmo farisaico (da sinagoga) era uma “religião lícita”, com status concedido por Roma, eles não poderiam ser “importunados” por um “qualquer da Galiléia”, pois corriam o risco de perder as mordomias junto do Estado. Errar com os fariseus, significava estar sem o devido apoio político e financeiro da sinagoga, porque eles detinham o poder do comércio. Alguns ficavam “divididos” entre a sinagoga e Jesus: simpatizavam por Jesus, mas o procuravam escondidos para não ter problemas na sinagoga, como Nicodemos, dentre outros. Até a família do cego curado em João 9 não quis ter problemas com a sinagoga, e por isso não confessou que Jesus havia curado o filho deles – esquivaram-se. Esse é o contexto em que foi escrito o Evangelho de Mateus. Tensão entre dois grupos religiosos: Um que preservava em Jesus o novo Moisés [(ênfase na prática)], e um outro que levava radicalmente a lei de Moisés adiante, vendo em Jesus um baderneiro [(ênfase no discurso)].
A tradição quando é preservada mediante um sistema opressor: que engessa e aprisiona as pessoas, que coloca fardos, quase que uma estrutura rígida de cimento, não é compatível com o paradigma de prática cristã, ensinado por Jesus. Nossa tradição deve nos tornar mais humanos, e nunca servir de cadeias fomentadoras de morte, como que casas construídas sob areia: porque essas, na medida em que o tempo passa caem, por estar fundadas em coisas transitórias de, que escorregam por entre os dedos. Podemos escolher um partido, de que lado ficar; a qual desses dois grupos pertencer? A opção era extremamente necessária à comunidade de Mateus, e para nós nos toca o imaginário; nas entrelinhas do que o evangelista quis nos sinalizar, aprendemos ser mais humanos e menos Igreja (instituição regida por leis que na maioria das vezes oprime ao invés de libertar e gerar vida).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

I(i)greja como que às cegas

Somos cruéis: longe dos olhos, longe do coração

O culto começou alegre, como sempre, um convite para Deus se achegar e tomar o lugar que a Ele é devido. Jesus veio acompanhando cada um, cada uma. A criançada chegou também, junto com uma ½ dúzia da comunidade, atrasados com sempre. Na medida em que o “Espírito tocava”, as crianças eram as crianças, e cada vez mais crianças, bem diferente da Igreja, que é sempre Igreja, e cada vez mais Igreja.

Todos estavam buscando “mais do Espírito” naquele lugar, mas engraçado ninguém olhava para uma daquelas crianças; também pudera, que tolice a minha pensar nisso, buscamos mesmo é o “bom perfume de Cristo, e elas estavam sujas demais, com mal cheiro ... e na realidade elas mais atrapalham o culto do que tudo, não poderiam ter nada a ver com Deus e Jesus, menos ainda com o Espírito, “esse só age quando estamos com tudo em ordem”, dizia a irmãzinha.

Os cânticos seguiam maravilhosos, o grupo tocava e cantava muito bem, estáva-mos todos comovidos com as divisões de vozes, e cantáva-mos juntos, claro, ninguém poderia parar para estender uma das mãos à uma qualquer que fosse daquelas. Porém uma mais atrevida, angustiada, puxou a blusa da tia e perguntou ... tem café hoje tia? Estou com muita fome! Pobre coitada da tia, teve que interromper seu momento “especial com Deus”, para dar café para uma criança com fome, uma criança que não sossega um minuto sequer, [é mole?]. Interessante, vi aquela tia derramar algumas lágrimas depois de tudo, será que ela foi tocada de uma forma diferente, por algo diferente? Fico me perguntando se não era só raiva de ter que parar seu momento quando sentia tanto Deus falando com ela, tinha que ser logo naquela hora?

E a criançada inquieta esperando a hora de terminar o culto, a hora do café. Uma respeitosa senhora muito respeitada também, saiu do seu aconchego, interrompeu seu momento de devoção à Deus para ir explicar às crianças que elas só atrapalhavam o culto. Depois de não ser atendida, não sei porque, mas lógico, as crianças deveriam ter respeitado ela; ela pegou as duas pelo braço e levou para longe do templo, do local onde o culto estava acontecendo, de onde o Espírito estava agindo. Eu acompanhei, não poderia perder o ensinamento, tinha certeza do muito que aquela senhora atinha a me ensinar ... mas eu me decepcionei, ela as largou em um local afastado, deitadas no chão; não sem lhes e dizer: “vocês façam as suas bagunças à vontade aqui, lá não pode” - Virou as costas e se foi.

Eu pensei: “que coisa - Longe dos olhos, desde que não me atrapalhe os ouvidos, nem me traga mau cheiro ao nariz, o coração estará impermeabilizado contra essas crianças. Longe dos olhos, longe do coração, a final de contas, que compromisso tenho eu com elas, não é verdade?

Fico observando o quanto somos hipócritas. A instituição é eficiente para fazer documentos e modificá-los, buscar o espírito, opa, vamos pro monte e fazer vigílias, mas a grande verdade é que não queremos trabalhar com pessoas – seres humanos. Menos ainda com aqueles/as que pensam diferente de nós, ou que não têm o privilégio de tomar um banho todos os dias, ou que têm uma refeição por dia, e olhe lá. Para essas, raras às vezes levamos “um sopão”, ou entregamos um folheto, e sempre avisamos que Deus pode libertá-las do diabo que as faz passar fome, e viver tão sujas. Depois disso, lavamos as nossas mãos, com a sensação de “ufa” - serviço cumprido.

Até quando vamos brincar de ser Igreja de Cristo? Nossa lógica está invertida, Igreja deveria ser lugar de “doentes”, esses precisam de médicos, os são não precisam. Mas nós preservamos os sãos “protegidos” dentro da Igreja, deles agora é o reino sabe-se lá de quem, o de Deus certamente que não. Quando um doente chega na comunidade, ou um deles que estava já participando dos trabalhos na Igreja, porque a casca da ferida estava escondendo o machucado [assim ninguém sentia nojo dele], “cai” [na gíria dos doutores da lei], esse deve ser disciplinado por um “mais-são-que-ele” que está sempre lá no banco “rezando literalmente na cartilha”.

Acho que precisamos refletir melhor sobre isso. Porque precisamos ser “sal da terra e luz do mundo”. Não devemos ter o sentimento de afastar as pessoas de nós, pelo fato de assim, mentirmos para nós mesmos que tais pessoas, ou tais realidades não existem; mas a proposta de Jesus para nós, é que assumamos o nosso papel enquanto um “comunidade cristã” para fazermos a diferença. Mais perto os olhos, mais perto do coração, e fazer cada vez mais a diferença aos que precisam que ela seja feita. Essa deve ser a lógica, e não o contrário.